Indianarae surge candidata pelo PT, no auge do seu ativismo, com pelos no rosto e cabelos sem tinta

Indianarae surge candidata pelo PT, no auge do seu ativismo, com pelos no rosto e cabelos sem tinta

Indianarae provocou uma grande polêmica este ano no movimento LGBTIA+ ao decidir abandonar o uso de uma vida toda dos hormônios femininos, que ao longo prazo lhe trouxeram problemas de saúde. A decisão lhe rendeu várias críticas, a maioria considerando que sua opção terminaria por constranger a luta das mulheres trans para serem aceitas plenamente como mulheres em outros espaços.

O debate pesado teve como efeito a decisão de Indianarae se declarar uma pessoa agênero. Após anos lutando pelos direitos de pessoas trans, em suas palavras, havia se convertido “um corpo de peito, pau e barba, que não se rotula mais dentro de nenhum padrão”.

Na realidade, a atitude de Indianarae foi mais um sinal de radicalização na sua concepção sobre a liberdade dos gêneros.

Não por acaso, este fim de semana, ao se lançar para candidate a vereadore do Rio pelo Partido dos Trabalhadores, apareceu já denunciando as obrigações de tingir os cabelos, manter-se magra, e estar sempre sem pelos no corpo como normas binárias de gênero apoiadas sobre as idealizações do homem e da mulher.

As fotos de seu primeiro ensaio fotográfico, longe dos terninhos que candidatos costumam adotar em época de campanha, chamam à atenção mais pela ousadia estética. Em uma das peças, Indianarae está nua e segurando uma bandeira do PT.

Aproximando-se dos 50 anos, a ex-capa de revistas, ícone da prostituição e da sensualidade trans na era de ouro de Copacabana, parece ter chegado ao estado de rebelião total contra as obrigações que foram incutidas através da cultura sobre mulheridade ou transgeneridade. Argumenta que ao obrigar pessoas trans a atingirem um certo “grau de passabilidade” com relação à feminilidade (ou a masculinidade, no caso dos homens trans) para serem reconhecidas como tal, estaríamos reforçando estereótipos que trazem sofrimento e adoecimento psicológico, e que seriam mais intensos sobretudo para parcela mais precarizada e pobre dessa comunidade.

A solidariedade genuína com as LGBTIA+ mais vulneráveis, o deslocamento das capas de revistas e de sua rede de relações para visibilizar as ocupações urbanas, a fim de proteger a parcela mais frágil dessa comunidade, notabilizam sua trajetória.

A seu lado, está a aposta na criatividade de uma equipe de bastidores na qual a maioria são outras pessoas LGBTIA+, no momento que se ouvem vozes defendendo um retorno aos armários como estratégia para o campo progressista. Filhes de Indianare a rodeiam por toda parte, como abelhas rodeiam sua rainha.

Pelas lentes da câmera da fotógrafa, “…\através das sua íris\”…. travestis, bichas, sapatonas e uma verdadeira legião de diversidade enxerga, na realidade, um estandarte da guerra contra opressão sobre dissidentes de gênero. E Indianarae é como seu general.

Seu ensaio é um chamado sutil à luta.

(veja o ensaio em @indianarae13169)

Rodrigo Veloso
Escrito por:

Rodrigo Veloso

Rodrigo Luis Veloso é mestrando em sociologia e pesquisador na Universidade Federal Fluminense e do Movimento Unificado pela Diversidade (MUDi)

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2 COMENTÁRIOS

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Edgard Motta de Castro

Adorei como a matéria abordou o assunto contextualizando as fases da Indianare e como ela vem evoluindo se tornando uma figura pública e proeminente na sociedade atual.

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YONE LINDGREN

Estamos vivendo a realidade…sem hipocrisia…Quem gosta de viver sob rótulos e perfis pré-fabricados? Q normatividade é esta q enclausura corpos e mentes?
Indi ,sempre abrindo as portas,caminhos e lutas…

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