Partidos políticos inviabilizaram a maioria das candidaturas LGBT antes da eleição começar

Partidos políticos inviabilizaram a maioria das candidaturas LGBT antes da eleição começar

Todos sabem que o processo de construção de uma candidatura começa bem antes do início das eleições em si. O candidato precisa se tornar conhecido, arregimentar apoios e se preparar politicamente pro desafio. Muitas vezes, porém, quando já conseguiu cumprir esses requisitos, ele ainda vai se defrontar com estruturas partidárias que, ao contrário de tratar igualmente todos concorrentes em sua chapa, atuam fortemente para privilegiar seus nomes preferidos, tanto oferecendo privilégios desproporcionais a alguns, como criando dificuldades anormais para outros. E LGBT’s são vítimas preferenciais, em virtude do preconceito.

O exemplo mais importante provavelmente é com relação à distribuição do Fundo Eleitoral. Criado pelo Congresso como resposta à proibição das “doações” por empresas, este montante de dinheiro público de mais de 2 bilhões de reais, que poderia cumprir um papel relevante na criação de acesso à política para trabalhadores que não possuem fortunas para investir na disputa, tem sido apropriado na maioria das vezes exatamente por quem já possui mais vantagens para concorrer. Ou seja, tem servido de mera substituição do dinheiro de empresas no financiamento de caciques que já estavam em condições privilegiadas anteriormente.

Isto se tornou possível porque o legislador, ao criar o Fundo Eleitoral, não vinculou sua distribuição minimamente a critérios razoáveis. Deixou a aplicação sem regras e a cargo de direções partidárias eleitas sob critérios estabelecidos por elas mesmas.

Existem casos de partidos em que a maior parte da verba em 2018 foi direcionada para parente de um dirigente importante. A desobrigação de fazer consulta aos filiados ou obedecer um percentual mínimo de distribuição igualitária permitiu até mesmo a concentração em alguns diretórios de mais de 80% da verba disponível na campanha de uma única pessoa.

Outro ponto importante diz respeito à disposição de políticos já eleitos em eternizar o seu poder. Eles tradicionalmente preferem se engajar nas campanhas de afilhados, assessores, amigos e até de parentes, agindo mais como cabos eleitorais de seu próprio mandato do que como cabos eleitorais de uma legenda partidária. LGBTs acabam sobrando.

E existe ainda um gargalo na definição da agenda. As prioridades das legendas em regra obedeceram mais os interesses de políticos específicos do que expressaram uma convenção ideológica. Para fortalecer a imagem de alguém que deseja eleger, os partidos adaptaram seu programa ao perfil destes candidatos. O que guarda forte conexão com legendas personalistas, a exemplo do “partido do Paulinho da Força”, do “partido do Kassab”, do “partido do Roberto Jefferson”, e também dos fenômenos mais importantes do lulismo, do bolsonarismo e do cirismo.

Nas regras atuais o Fundo Eleitoral é uma gorda “Bolsa-Dirigente”, o método de eleição das direções é desenhado para eternizar as mesmas figuras, e as pautas são definidas por alguns agentes em gabinetes. Estes três pilares são fundamentais para minar a competitividade, por exemplo, de qualquer pessoa de boa atuação em movimentos sociais que queira competir sem manter relações com este tipo de estrutura.

Em virtude de tudo isso, e a poucos dias do início das eleições, já é possível estabelecer com critérios científicos testados que a imensa maioria das candidaturas LGBT está inviável. Dentro de tanta desigualdade, independentemente da sua performance, as chances de sucesso se tornaram muito escassas. A maioria terá utilidade apenas para engordar de votos os respectivos coeficientes eleitorais que necessitam as candidaturas que se tornaram prioritárias no ambiente da disputa interna desleal.




Rodrigo Veloso
Escrito por:

Rodrigo Veloso

Rodrigo Luis Veloso é mestrando em sociologia e pesquisador na Universidade Federal Fluminense e do Movimento Unificado pela Diversidade (MUDi)

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