Comunidade LGBTI do Rio não pode repetir com Indianara o que fez com Herbert Daniel


Herbert Daniel fez parte de vários dos mais importantes grupos que combateram em defesa da democracia depois do Golpe de 64. Entre eles, o Comando de Libertação Nacional (COLINA), a VAR-Palmares e a VPR. Participou do sequestro dos embaixadores suíço e alemão para denunciar as violações em massa no país naquela altura.

Depois exilado, onde recebeu a influência da onda libertária na Europa e nos EUA, passou a se reivindicar cada vez mais orgulhosamente a respeito da sua homossexualidade. E então formou-se um dos quadros mais importantes da esquerda brasileira a defender a necessidade de articular as pautas de classe econômica com as pautas de movimentos pelos direitos das mulheres, dos LGBT, dos usuários de drogas, e o meio ambiente.

Quando voltou ao Brasil, na década de 1980, filiou-se imediatamente ao recém-criado Partido dos Trabalhadores, onde atuou junto de outros ex-guerrilheiros anistiados, até se tornar candidato em 1986. Sua passagem por aí, no entanto, é caracterizada por um balanço que merece mais a atenção do movimento LGBT.

Porque Hebert e outros companheiros na disputa interna no PT eram alvos frequentes de menosprezo, deboches e até de insultos. Seu grupo ficou conhecido como “veados verdes”, em alusão à ligação destes com as pautas do meio ambiente e pela legalização da maconha. Não eram poucos os que creditavam ao grupo e suas agendas ditas “divisionistas” a preferência entre o operariado fluminense de esquerda pelo PDT de Leonel Brizola.

E o que é mais importante. Herbert recebeu menos de 6 mil votos quando se candidatou a deputado estadual em 1986, em uma campanha pioneira na apresentação de slogans libertários, e concentrada em redutos boêmios e alternativos da cidade do Rio. O que para ele significou que a comunidade LGBT não tinha dado apoio as suas ideias de afirmação homossexual, preferindo naquela circunstância se diferenciar deste tipo de comportamento guei em virtude do preconceito social que havia no auge da epidemia de AIDS.

Hebert, desgastado pelo desempenho nas urnas, pelo recebimento desproporcional de ataques internos na esquerda, e pelo abuso de caricaturas a seu respeito, foi aos poucos distanciando-se da política, vindo a falecer apenas aos 45 anos, em 1992, em decorrência da AIDS.

Neste ano de 2020 o movimento social LGBT na cidade do Rio terá a chance de honrar a memória de Herbert e dos outros ativistas que partiram e dos que simplesmente deixaram a linha de frente dos ataques. Terá outra chance de se ver nas urnas com a possibilidade de eleger um representante seu – o que nunca conseguiu desde que foram criadas as primeiras organizações!

Este nome é Indianara Siqueira, a coordenadora da Casa Nem, um nome consagrado do ativismo trans no Brasil, da Frente Internacionalista dos Sem-Teto e de uma série de outros grupos da esquerda radical, que se apresenta para disputa pelo mesmo Partido dos Trabalhadores.

Porque quando se observa o intervalo desde a última eleição até essa não resta dúvida de que Indianara, sem mandato, realizou mais pela comunidade LGBT do que o conjunto das bancadas da direita e da esquerda na Câmara de Vereadores. Foi a ela que recorreram dezenas que se tornaram abrigados da Casa Nem, e que lá estabeleceram relações que multiplicaram o ativismo que geralmente não extrapola muito as universidades. Outros trabalhos feitos pelo movimento LGBT também foram fundamentais, mas nenhum outro foi tão concreto.

Cabeça-dura, radical, agressiva… As pessoas podem falar o que quiserem de Indianara, mas quem pode dizer que fez alguma coisa realmente foi ela. Não teve nenhum grupelho revolucionário que deu a mão para as bichas pobres, estigmatizadas, egressas do sistema prisional, em transição de gênero, quando estas precisavam de uma ajuda. Foi ela. E não é coincidência que o seu nome esteja sempre em escrutínio público. Esteve também o de Herbert Daniel. E estiveram sempre os nomes daquelxs que mais se mexeram e desafiaram as estruturas.

LGBTs no Rio de Janeiro que não apoiarem Indianara demonstrarão que não tem compromisso com a Casa Nem, com a organização dos movimentos sociais, com a vulnerabilidade de parte da comunidade LGBT e, se confirmarem sua irresponsabilidade e falta de compromisso, ajudarão a cimentar o ambiente que impede que qualquer projeto de lei sobre diversidade avance no município. A comunidade LGBT não deve cometer com Indianara o mesmo erro que cometeu com Herbert Daniel.

Empurrá-la, empurrar Casa Nem, é uma obrigação moral de todos LGBT que desejam gozar de mais direitos.

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