Precisamos acabar com identitarismo no Brasil: BRANCO, MACHO-HETERO E DA ELITE


Supporters of Jair Bolsonaro, far-right lawmaker and presidential candidate of the Social Liberal Party (PSL), attend a demonstration in Rio de Janeiro, Brazil October 21, 2018. REUTERS/Sergio Moraes

Sabrina Fidalgo em um artigo que escreveu a Folha de São Paulo anotou: brancos no Brasil são extremamente identitários. Ela se referia ao hábito de frequentarem sempre os mesmos lugares, majoritariamente brancos, além de consumirem só produtos idealizados por outros brancos. Poderia ter mencionado também o perfil das vizinhanças, escolas e universidades racialmente segregadas onde se formam, assim como determinadas carreiras em que se mantiveram, igualmente racializadas e estamentais, formando uma verdadeira cultura da branquitude dentro de bolhas vigiadas por militares que se comportam como milicianos.

Algo semelhante se dá com relação ao macho-hetero. Ele não pode ser ofuscado por uma mulher em público. Na frente dos ‘parças’ ele é um leão querendo aparecer aos outros da mesma alcateia. Mais do que ser masculino ele sente necessidade de parecer masculino para seus pares, numa neurose hedonista que frequentemente envolve a subjugação e a violência contra o gênero menos viril. Se a mulher, por exemplo, fica com um amigo dele, merece ser humilhada – mas não o inverso. Se um guei lhe ‘dá mole’ na rua, merece ser espancado – mas não o inverso.

Quem nunca percebeu como esses dois grupos se comportam de forma caricata e teatral diante daqueles que pretendem impressionar? Quem nunca subiu a pedra do arpoador e reparou que a praia de Ipanema, vista do alto, é uma paleta de cores em dégradé? Identitarismo puro.

Em 2018, como forma de propaganda política, brasileiros de extrema-direita faziam gestos de arminha com a mão, usando camisetas do BOPE, e ao som do hino nacional, em um país onde cerca de 70% dos mais de 60 mil mortos assassinados todos os anos são negros. E o slogan deles era “é melhor já Jair se acostumando” (ora, com quê?).

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(Camisetas vendidas para campanha de Jair Bolsonaro (PSL)

O que não significa que apenas a direita reproduza uma cultura da branquitude ou masculinidades tóxicas.

Em 2020, o PDT que ficou na terceira posição na última eleição presidencial, com Ciro Gomes, apoiará candidatos brancos em todas as capitais do país, e em apenas 3 serão mulheres brancas. Em qualquer país do mundo de maioria negra que um grande partido com expressão nacional apresentasse em todas cidades importantes apenas candidatos brancos, ele seria considerado um partido supremacista étnico. Mas no Brasil pouco se fala sobre isso. Há quem acredite que falar sobre raça é desagregador, antinacional, anti-estratégico, e até, vejam, racista!

No PSOL, mais à esquerda que o PDT, a diversidade racial é bem maior, e se fala muito sobre ela. Mas não se trata de uma legenda livre de identitarismo branco ou masculino por conta disso. A média de pessoas com passagem por universidades entre os candidatos a vereador pela sigla no estado do Rio é superior a 90% do total, em uma realidade onde não chega a 30% a quantidade de adultos com diploma. Em diversas cidades 100% dos candidatos pelo PSOL possuem diploma universitário. E a profissão de origem desses candidatos é quase sempre do seleto rol de categorias profissionais tipicamente da classe média branca, como professor, médico, advogado, psicólogo, e quase nunca motorista, entregador, lojista ou empregada doméstica.

É evidente que o Partido não exige diploma para se candidatar. Mas como se chega a esta realidade, então?

Através de uma cultura militante que tende a valorizar mais a retórica originária dos espaços acadêmicos, atribuindo valor de superioridade àqueles com conhecimento de discursos e pesquisas bem aceitos nestes ambientes, em detrimento da prática concreta na cooperação com outros indivíduos. Identitarismo puro, de novo.

Essa reprodução institucional de racismo, machismo, LGBTfobia e elitismo, que significa também que estes sentimentos estão espraiados através da cultura por todas instituições da sociedade, digam elas que são de direita, centro ou esquerda, é um tema que está não à toa no topo das preocupações de ativistas de boa parte do mundo nesse momento.

(bancada 100% branca do Cidadania, considerada de centro-esquerda por alguns analistas da imprensa)

As últimas eleições primárias nos EUA apresentaram a derrota de grandes figuras do Partido Democrata para competidores negros e de periferia. Em Israel, a esquerda judaica está se afastando do sionismo socialista na direção de coalizões multirraciais lideradas por árabes, sob slogan #VidasPalestinasImportam, e esse bloco já se tornou a maior voz da oposição. Na Inglaterra, os distritos pobres de Londres votaram em massa em um ex-motorista muçulmano para prefeito pelo Partido Trabalhista.

É global a interpretação estruturalista sobre os efeitos da escravidão e do patriarcado, na sua divisão racial e de gênero do trabalho, das propriedades, do acesso ao letramento, às oportunidades criativas e de liderança. Colocar-se contra o movimento de contestação dessa situação de desigualdade generalizada, escamoteando que ela se manteve de pé não apenas através de leis rígidas mas também por meio de afirmações culturais dos grupos dominantes, está no mesmo patamar do terraplanismo.

Como percebeu Alberto Guerreiro Ramos, sobre o Brasil, ao tratar de identidade nacional, se por um lado havia dúvidas a respeito do caráter de esquerda de certa afirmação orgulhosa do negro ou do ‘mulato’, ao menos já se tinha a certeza que reafirmação do que chamou de “brancura” era reacionária.

Não resta dúvida que dentro de um horizonte que aponta para Revolução, no qual os trabalhadores assumem o controle da produção para deter os meios de produzir uma nova cultura sem opressões, a prioridade para formação de uma unidade entre os trabalhadores deve estar na eliminação das demarcações de diferenciação que são feitas por aqueles em maior situação de privilégio, e não no combate à retórica dos mais vulneráveis. O que dá liga à unidade classista entre todos os povos do mundo é o sujeito que ‘caminha bem’ dar um passo atrás para apoiar um@ camarada que ‘caminha com mais dificuldade’.

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