Casa Nem obrigou movimento LGBT a ir mais para a esquerda


É de conhecimento quase geral que a origem do movimento LGBT brasileiro é principalmente de classe média. Na década de 1970, nas primeiras organizações, havia forte influência de esquerdistas que haviam estado na Europa fugindo da ditadura, e que por lá foram influenciados pelas teses libertárias das rebeliões nos países do norte durante a década de 1960, quando explodiu o rock’n roll, com veia anárquica e anticapitalista, junto das agendas anti-coloniais, anti-ditaduras, antirracistas, a favor da liberdade sexual, da igualdade para mulher e do direito ao prazer. E vários nomes importantes do movimento eram inclusive estrangeiros.

Isso se deu também porque, em um primeiro momento, a AIDS contaminou proporcionalmente mais entre as elites que podiam viajar aos países onde a epidemia já se encontrava em estágio mais avançado, como EUA e França. Fazendo essas pessoas se mobilizarem pelo medo.

O caráter de esquerda dessa classe média originária, no entanto, também foi determinante para que se buscasse a aproximação com LGBTs mais pobres em plenárias, o que, por sua vez, ampliou o ativismo político dentro de outros segmentos da comunidade LGBT, que se encontravam ainda mais precarizados, e que, porém, demonstraram maior capacidade de mobilização, assumindo o controle de organizações tradicionais e também fundando outros coletivos importantes em torno do seu novo protagonismo.

Sintomaticamente, à medida que os grupos principais se aproximavam da esquerda, e principalmente do Partido dos Trabalhadores, e dentro dele das alas mais radicais, os governos da direita liberal que governaram o Brasil desde Sarney até FHC aprovaram uma série de leis que sufocavam o modelo de ONG’s e sindicatos, que estavam na base da organização desses movimentos LGBT.

As inovações na legislação tinham como pilar principal a exigência de alta capacitação técnica para fundar, administrar e prestar contas de organizações não-governamentais. O objetivo explícito era acabar com a corrupção. O motivo real era permitir que apenas organizações com muita estrutura, de pessoas ricas por detrás, fossem capazes de sobreviver. Isto fez com que, também no movimento LGBT, só algumas poucas organizações sobrevivessem. E dentre estas, é claro, foi preciso uma grande transformação burocrática para isto. O que fez quadros muito combativos do movimento LGBT migrarem para militância institucional, desmobilizando a base.

Em alguns casos a distância entre a base da comunidade e a organização social (nova siglas para ONGs) se acentuou de tal forma que surgiram dúvidas se algumas organizações que se apresentavam como movimentos não haviam se transformado simplesmente em empresas. Chama atenção o exemplo das Paradas do Orgulho LGBTI. Os tradicionais debates que haviam nas primeiras edições, acalorados, porém muito democráticos, deram lugar a um planejamento milionário, sem transparência, sem participação, e que prefere a discussão das questões principais do evento com os grandes patrocinadores, em vez da própria comunidade que será o público-alvo.

Esse ambiente, por certo, é principalmente o dos governos do PT, quando naturalmente é que surgiram as oportunidades maiores para o ativismo institucional. É importante lembrar que ali obtivemos a maior parte os avanços que foram conquistados até agora. As primeiras conferências nacionais, os conselhos de participação social etc. E que foi através de legendas progressistas que interpelaram politicamente o judiciário pela aprovação de medidas naquele ambiente é que avançamos inclusive no STF.

Mas o abandono dos espaços de discussão e convergência permitiu a formação de uma geração politicamente despolitizada sobre a mobilização do movimento, diferente do que existiu nas décadas anteriores, de 70 e 80. Fez com que os milleniuns se pensassem inovadores na discussão sobre gênero no Brasil, verdadeiros inventores da roda. E ainda favoreceu a fragmentação excessiva e o veneno da autorrepresentação [na necessidade emergencial de se representar na ausência de instrumentos coletivos].

Hoje é comum uma pessoa postar uma foto com a bandeira do movimento LGBT no Instagram, e sentir a sensação que está desconstruindo o mundo. Nenhuma frase simboliza melhor essa realidade do que “meu corpo é político”. Porque, claro, todos corpos adquirem diferentes significados políticos, mas ainda resta perguntar a quem interessa desconsiderar a prática e a avaliação da atuação concreta.

O drama como ferramenta principal dessa filosofia da performance demonstrou grande aderência na culpa cristã de uma classe média com diploma das universidades onde se discutem as pesquisas sociais. Porém, nitidamente, não foi o suficiente para mobilizar uma grande quantidade de LGBTs nas outras camadas. A perda da maioria é nítida. Tanto é que o Brasil se encontra em um momento de grande incapacidade para pressionar o Congresso, por exemplo, a aprovar qualquer medida do interesse de LGBTs, ou realizar uma campanha que coloque um adversário da direita contra parede, como ocorre, por exemplo, com a exposição da homossexualidade de extremistas de direita nos EUA.

Na Argentina, aqui ao lado, foram aprovadas leis avançadíssimas no período recente, com uma maré verde de solidariedade às mulheres nas ruas. No Brasil, foi o oposto.

A hegemonia política nos últimos é nítida ao perceber que Marcos Feliciano se tornou o presidente da Comissão de Direitos Humanos em pleno governo do PT; que Temer extingiu o Ministério dos Direitos Humanos, sob o disfarce de uma reforma orçamentária; que Jean Wyllys foi obrigado a se exilar; e que elegemos um sujeito que ganhou fama nacionalmente nos programas medíocres de Luciana Gimennez, onde se reproduziam absurdos principalmente contra os gueis.

Tudo isso para ilustrar o que Herbert Daniel chamou de espaço “pendular” para agenda LGBT no Brasil: caracterizada por períodos de maior abertura a este diálogo, com ampliação da democracia, sempre seguido de um período de maior fechamento, com redução da diversidade. Nós estamos em uma fase de baixa. Fala-se em resistência, e não em revolução. O movimento LGBT conta com poucas organizações se reunindo frequentemente. Não há muitos trabalhos estruturados financeiramente e com planejamento de longo prazo. E existe baixa politização e, ainda, somos vítimas de uma legislação desenhada para impedir a nossa participação na democracia.

Nesse ambiente surgiu a Casa Nem, incialmente como pré-vestibular comunitário voltado para pessoas trans e que era parte de uma espécie de consórcio de projetos culturais. Em sentido parecido com a chegada de novos sujeitos ao protagonismo das organizações sociais mais importantes a partir da década de 1990, a politização crescente de travestis nos ambientes da prostituição, da marginalidade, do racismo dentro da prostituição e da marginalidade, resultou em um movimento pujante e muito radical e inovador.

Casa Nem não é só sobre ser trans, pois nas décadas anteriores os melhores quadros intelectuais do ativismo trans já haviam ganhado projeção nacional. O que se inicia junto do movimento é a discussão sobre um novo protagonismo que expande as fronteiras da cidadania na direção das travestis com menor ‘grau de passabilidade’, das pessoas egressas do sistema prisional, das com transtornos mentais, das com dependência em drogas, das que foram alvos preferenciais de violência mais traumática, e das pessoas sem-teto. Uma pessoa, a líder desse movimento, Indianara Siqueira, que foi símbolo sexual das revistas, conseguiu criar um canal político entre a classe média de esquerda, que atua em fóruns importantes sobre direitos humanos, e esse reduto de corpos estranhos à parte da sociedade. Casa Nem ressignifica, apresentando as LGBT no que agora é uma ocupação urbana como sujeites maravilhoses e que em verdade foram vítimas dos verdadeiros montros e covardes da sociedade.

Nem retirou o movimento LGBT da letargia sobre a politização nas classe mais baixas. Fez exatamente isso. Tornou-se um projeto que travestis em dificuldades em todos os municípios do Rio de Janeiro, e inclusive no exterior, pois lá também chegam travestis de toda América Latina, conhecem, e confiam. Não está perfeita, não está impassível de críticas. Há sim muito o que ser feito, mas uma direção política que surgiu dali se tornou irreversível para o movimento LGBT brasileiro como um todo. Não é mais possível fazer política para LGBTs sem envolver o corpo daqueles que se encontram desabrigados, daqueles que sofrem com a falta de correspondência com os padrões binários sobre gênero, e também não dá para esquecer a nossa solidariedade com as organizações sindicais e os movimentos populares, porque afinal de contas a maioria dos nossos representados é pobre, e precisa do SUS, do INSS, da Secretaria da Habitação.

Já existem sinais que outros grupos se adaptam à Nem. Agora já aparecem mais projetos de casas de acolhimento. Que é bom sinal! É sinal que a fonte que emana essas ideias, se não venceu na briga por recursos, venceu na hegemonia cultural.

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