Por Rodrigo Veloso

No caminho para chegarem aos parlamentos as pessoas LGBT enfrentam dificuldades excepcionais com relação ao restante da população. A mais conhecida destas dificuldades é o preconceito das pessoas. Mas é importante perceber que o eleitor não forma sua opinião sobre quem votar em território neutro, onde todos os competidores aparecem com igualdade de condições e as mesmas estruturas para disputa.

Levantamento, ainda em fase de conclusão, que faço dentro de uma pesquisa acadêmica, traz alguns dados importantes para entender essa dinâmica:
a) partidos políticos não lançam ou lançam poucas candidaturas autodeclaradas LGBT

b) partidos políticos, quando lançam candidaturas LGBT, tendem a não lhes dar o mesmo destaque que recebem outras candidaturas do mesmo porte

c) partidos políticos tendem a subfinanciar candidaturas LGBT

d) partidos políticos tendem a não oferecer autonomia para que LGBT’s decidam quais candidaturas devem representá-las e de quê maneira devem ser feitas as suas campanhas e) partidos políticos tendem a não se engajar publicamente com pessoas LGBT.

A observação dos dados, que necessitam ainda serem compilados, e que planejo fazer para âmbito do Rio de Janeiro na próxima eleição municipal, apresentam a hipótese que o estigma social que pesa sobre as pessoas LGBT, constituindo-se em difamação, tende a fazer não só com que essas pessoas sofram diretamente com atitudes de discriminação como tende a impactar também a rede de relações que essas pessoas conseguem formar.

Os partidos políticos que possuem na sua base de eleitores pelo menos algo entre 10 a 20 por cento de pessoas LGBT ajudam a distorcer a representação real dessa população nos espaços de poder, principalmente nos casos daqueles chamados cargos majoritários (prefeitos, governadores e presidente), porque reproduzem nas suas estruturas internas os preconceitos que suas propagandas prometem combater.

Muitas vezes o panfleto que utilizam é arco-íris e os adesivos falam em diversidade, voltados a um certo público, mas de fato o que ocorre é uma absoluta desproporção de candidaturas cis-hetero e LGBT com relação ao seu percentual real na sociedade, um esvaziamento econômico e político, que mina concretamente as condições de elegibilidade.

Pergunta que sempre faço a meus amigos mais próximos para ilustrar rapidamente a dimensão dos boicotes é:

“- Quantos votos teria a travesti Indianara Siqueira, protagonista de um filme selecionado este ano para mostra de Cannes, se tivesse recebido a mesma parcela do fundo eleitoral que seus camaradas no PSOL, um partido de esquerda e socialista, quando foi candidata à vereadora em 2016?”

Foto: Indianara Siqueira, fundadora da Casa Nem

Sem um real do montante em questão, a liderança da Ocupação Casa Nem obteve nas urnas mais de 6 mil votos, tornando-se suplente da sua legenda, com mais votos inclusive que candidatos oriundos da classe média e que tiverem, ao contrário, todo apoio e estrutura que dispunha o partido.

Apresento este caso porque o fato de ser tão conhecida evidencia bem mais a injustiça na consideração de prioridades que estabelece um ‘joão ninguém’ como liderança revolucionária e uma travesti quase mitológica como ‘candidata-com-muito-custo-e-quiçá-com-recursos-coletivos”. Eu, ainda, poderia falar de inúmeros outros exemplos, onde subestimação, manipulação dos estigmas, acovardamento diante de fake news e boicotes intencionais destruíram “na largada” candidaturas com grande potencial.

É verdade que o olhar exclusivo para os partidos não é suficiente para explicar tamanha desproporção, e que é ainda maior em cidades-destino da migração interna que LGBTs realizam frequentemente, dos interiores sem espaços de sociabilidade para grandes centros, como Rio e São Paulo. Mas aqui, ao final, eu pergunto: será possível, por sua vez, superar a LGBTfobia sem modificar estas estruturas partidárias?

Rodrigo Luis Veloso é mestrando em sociologia e pesquisador na Universidade Federal Fluminense e do Movimento Unificado pela Diversidade (MUDi)

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