Por que a “gayzice” é negada ao homem negro?


Jeffrey Bowyer-Chapman é um ator canadense de 35 anos que agora é parte do trio de jurados/apresentadores do Canada’s Drag Race, a versão “mais ao norte” do famoso reality show de competição drag idealizado por RuPaul. Ele é também um homem negro e bonito, o que é frequentemente comentado no programa, e na última semana foi bastante criticado por fazer um comentário grosseiro durante o julgamento de uma drag.

Bem, a crítica não é de todo infundada. Jeffrey já tinha participado da versão americana do programa sem se expressar como “menina malvada”, e agora parece tentar imitar os maneirismos de RuPaul ou Michelle Visage – o que pode perfeitamente ser uma escolha consciente por parte dele e da produção – na hora de falar com as participantes. Entretanto, é a reação nas redes sociais sobre esse último episódio que chamou minha atenção.

Em que pese que ele pode mesmo ter sido desnecessariamente grosseiro contra uma participante querida pelo público, muito rapidamente foi feita a crítica de que ele estava se comportando como uma mean girl e que é cansativo ver gays o tempo todo “reproduzindo essa vilania de Regina George”, a personagem do já clássico “Meninas Malvadas” (2004). E embora isso possa ser verdade, as discussões sobre ele no Twitter muito rapidamente cresceram para “péssimo”, “forçado” ou “quem ele pensa que é”, uma vez que ele não tem as mesmas credenciais no mundo drag que os jurados americanos. Mas há um outro componente…

Bitchness” e “shade” são componentes da cultura drag e mesmo daquilo que entendemos como “cultura gay” – falando especificamente dos homossexuais masculinos – que foi popularizado através de produtos culturais como o Drag Race. Não é raro que Ru ou Michelle sejam grosseiros, em tom de brincadeira sarcástica, na hora de criticar alguém. Mesmo entre as participantes, a troca de alfinetadas e provocações é constante, e entendida como parte do humor do programa. Sim, de vez em quando alguém briga de verdade, mas em geral é tudo entendido como provocação. Entre as drags. Ou, no caso de Michelle Visage, vindo de uma mulher. E é essa a questão.

Existe uma confusão entre a “identidade gay” e a homossexualidade. Desejos e práticas homossexuais sempre existiram, mas a maneira como pensamos a sexualidade é historicamente localizada. O conceito é um produto ocidental, de um tipo de saber científico particular, e que promove os elementos para a diferenciação social em torno dele. Assim, a maneira como alguém percebe sua sexualidade como uma identidade possível – ou imposta – e seus trânsitos sociopolíticos permitidos ou negados é um fenômeno social. Nesse contexto, “ser gay” está mais ligado a um estilo de vida acionado pelo movimento civil estadunidense como estratégia para a negociação de direitos nos anos 1970, 1980 e 1990. Um estilo de vida que é marcado pela capacidade de consumir em uma sociedade capitalista e, consequentemente, branco.

Ah, quer dizer então que não existe gay negro? Sim e não. Como todas as coisas, as classificações são relacionais. A cultura é multifacetada e um indivíduo encontra diferentes maneiras de transitar socialmente entre marcadores de gênero, raça e classe, de acordo com suas possibilidades, acesso à cultura, trabalho e ao mercado do desejo. Contudo, em sua gênese, a identidade gay que surge no movimento civil americano dos anos 1960, espelhando o debate feminista da época, não é racializada. Até mesmo pelo contexto de segregação e do movimento negro – com suas próprias demandas e urgências – na sociedade americana. É nesse contexto que a posição da negritude dentro do “ser gay” gera os ruídos de identificação que identificamos e discutimos hoje, justamente quando o pensamento sobre a identidade é mais interseccional.

E onde chegamos ao Jeffrey Bowyer-Chapman, então? Se ele fosse uma drag queen negra, como o próprio RuPaul, ser uma “menina má” não causaria tanto alvoroço. Esse estereótipo de vilania feminilizada é construído pela ideia de, sem força física para trocar socos, mulheres recorreriam a estratagemas e ironias. Assim, a vilania é construída como algo afeminado na cultura, especialmente na literatura e no cinema. E em certa medida, é permitida aos homens gays pois a homossexualidade já tirou deles o status da masculinidade. Por isso, ser uma “menina má” é coisa de bichinha, o que mesmo sendo um homem assumidamente gay, Jeffrey não era. Ainda mais por ser considerado atraente.

Nessa “identidade gay que não pensa a raça”, o papel do homem negro é definido pelo racismo. Ele é objeto de desejo, mas não de ser legitimado com afeto. #VidasNegrasImportam, mas as demandas do “movimento gay” são para casar e adotar um gato ou pro Papa Francisco dar a bênção ou pra MTV exibir sexo gay, enquanto homossexuais negros sentem suas demandas varridas para debaixo da bandeira do arco-íris. E por isso, ser um “negão musculoso ativão” é permitido, mas dar pinta é transgressor.

Jeffrey Bowyer-Chapman é bonito e isso é constantemente apontado no programa. Para além do corpo e do sorriso, essa “beleza” também é construída por sua performance de gênero, especialmente em comparação com os outros jurados, uma drag queen e uma mulher cisgênero. A masculinidade dele é acionada como elemento que o faz ser desejável, e essa masculinidade é traída quando ele se comporta da maneira bitchy que é socialmente entendida como feminina/efeminada. Elas podem, ele não. E embora algumas pessoas possam ter apenas achado que ele exagerou ou está imitando o RuPaul, a revolta contra o comportamento dele fala também dessas expectativas em relação ao homem – especialmente negro – dentro da cultura gay. É aquele velho papo de “pode ser gay, mas sem exagero”.

Apesar das críticas, os “guardiões da viadagem” parecem não conseguir abandonar a Regina George, já que nada é mais mean girl do que separar todo mundo em castas, definir que dia usar rosa ou se alguma coisa é fetch.

Vivemos nesse eterno “you can’t sit with us”

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