reCORTE | A odisseia de um assexual em busca da sua identidade


“Em que medida é a “identidade” um ideal normativo, ao invés de uma característica descritiva da experiência?”

Sexo. Duas sílabas que transformam a boca em desejo. Sua língua viaja para a ponta dos dentes e então volta para seu lugar de origem, enquanto lábios se fecham em um curioso “bico”. Sexo. Uma palavra que está tão intrínseca no nosso cotidiano que é nada além de irônico ainda tratarmos como tabu. Sexo. Está nos comerciais; nas novelas das seis às onze; nas músicas; na mente de jovens e velhos. Nossa sociedade faz cada vez menos sexo, mas fala cada vez mais dele. De suas particularidades, de seus desejos, das formas em que se apresenta. Dos brinquedos e da descoberta.

Sexo é poder e liberdade. Seu ato é quase como a última barreira para a maturidade. É dele que existências políticas e movimentos sociais surgem. E também é dele que alguns têm repulsa. Dos flúidos. Da sujeira. Do toque. Do trabalho envolto a ele. É irônico pensar na assexualidade como existência política quando a mesma, de forma literal significa a ausência de sexo. Pois bem, o que significa uma identidade asexual quando ela descreve a ausência de uma das principais caracterísitcas que definem a tal da identidade?

Sexo é performático

Essa foi e ainda é a principal pergunta. Dentre tantas respostas, a mais simples é: “Não se atenha a rótulos, eles não irão te definir por completo”. Mas acima disso, eles trazem paz. Erguer a bandeira colorida e andar por uma avenida lotada é bonito, mas ver pessoas exatamente como você ao seu redor, gritando pelo mesmo, dançando e buscando o mesmo; isso é apaziguardor.

Já se encontrar, às vezes pode ser caótico. Principalmente depois de se entender dois pontos: (1) sexo é performático e (2) isso está intimamente ligado a forma como a sociedade nos entende. Inclusive, é uma relação de retroalimentação. A sociedade transmite e cria relações pré estabelecidas através de roteiros em que nos convence que, por exemplo, homens negros são dotados.

Logo, a mesma espera que sexualmente você se mostre um monstro na cama. Alguns perseguem isso, procurando na sua identidade o desejo do outro, sem nem ao menos entender o que é que seu próprio corpo deseja. Vendemos e compramos performances sexuais construídas a partir de cor, gênero e cultura. Esperamos que a carne negra seja a mais barata e “gostosa” do mercado. Que a branca sempre consuma a branca. Que a amarela seja recatada. Que o homem hétero seja insaciável. A mulher, submissa. O homem gay, pervertido.

Mas e quando não há nada disso? Quando o desejo é nulo, moderado ou necessita de uma condição para acontecer? E quando o sexo é tudo e na verdade o romance é que falta? Como administrar essa falta e excesso de algo tão importante para nossa sociedade?

Não discutimos sexo

Assim, o sexo, não apenas o gênero precisa ser recontextualizado. Tirado da sua bolha e da sua relação de poder, em que coloca preto contra branco, baixo contra cima. Para que, além de tudo, ninguém precise ser refém de desejos infligidos não apenas por uma heterossexualidade compulsória, mas também por um desejo obrigatório em direção a vontade sexual; ao conto de fadas em que não se vê nada além de rostos se contorcendo, pele, mãos e suspiros.

É essa mesma fábula que nos diz que “sexo é essencial”; que nos convence que tirar selfies pós sexo é a nova tendência; que se você não está transando, é infeliz ou mal amado. São essas histórias que não dão espaço para nossa auto estima, que nos despem, nos tiram do eixo e nos colocam em um pedestal sem nos questionar: “Você é ativo”. “Você precisa ser passivo”. “Você, submissa”.

E é essa narrativa que nos coloca em posições desconfortáveis. Que, às vezes, nos coloca em situação de fazer sexo sem desejo, por pressão, apenas por que “já tá tudo aqui, vamos lá”. Que torna o orgasmo vazio, praticamente obrigatório. Que, às vezes, faz criar a ilusão de vontade na nossa cabeça, mas na real, “comer aquele pedaço de pizza na geladeira seria melhor”.

Ta, mas e daí?

Mas e daí? Sexo, mesmo sendo falado, discutido e representado todo o dia, ele ainda é apenas uma parcela da nossa vida. As vezes consumida de manhã, outras a noite, quem sabe no fim de semana a tarde. Ainda é apenas um aspecto, que pode mudar ou não. Que talvez, apenas tenha entrado em discussão na minha mente pelo fim de um relacionamento. Ou quem sabe, sempre esteve lá.

Esse aspecto meu que nem consigo entender por completo. E, ao me colocar nesse “não lugar”, nessa “não identidade”, me assusto. Pois não procuro a ausência de estar com outro. Não procuro solidão. Não procuro a falta de afeto. Procuro solitude. Me bastar. Me entender. Estar completo, saciado e não frustrar o outro. Não frustrar a mim mesmo por não ter sido “tudo aquilo que me prometeram”. Procuro bocas que me excitem ao dizer “sexo” e não corpos que procuram sexo.

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