Eles gritaram “Bolsonaro”!


Era setembro de 2018 e eu estava andando rápido pela rua, já atrasado para um compromisso. Na mesma calçada, em sentido contrário, um grupo de rapazes com seus vinte e poucos vinha andando, rindo, fazendo aquelas brincadeiras de amigos. Como sempre, fiquei tenso. Não dá para viver com medo o tempo todo, mas tem coisas que são automáticas. Coisas que aprendemos muito cedo e viram parte daquilo que somos. Segui andando e passei por eles.

Eles gritaram “Bolsonaro”.

Parte do processo de construção e subjetivação de uma “identidade sexual” é entender o que ela significa para o mundo. O que pertencer a um rótulo vai significar para sua vida, para suas escolhas e relações. Qual é o “seu lugar” e, consequentemente, a melhor maneira de (sobre)viver detro dele.

Na sexualidade a coisa rola em duas vias. A primeira é mais íntima, quando você percebe seus desejos e eventualmente entende como classificá-los e começa a negociar a própria aceitação de determinados rótulos ou estilos de vida. E a segunda é a social, que envolve essa negociação com os outros e com a maneira como eles percebem – e aceitam ou rejeitam – o que você é.

Em nossa sociedade, em geral, não é esperado que crianças façam sexo. Sim, há casos horríveis onde isso acontece e também uma sexualização precoce das meninas e de alguns meninos, mas “o normal” é que essa parte da nossa natureza ganhe importância apenas na adolescência. Entretanto, para as “crianças viadas” a percepção de uma identidade ligada a uma prática sexual costuma vir muito antes de qualquer experiência erótica.

Quando falei sobre um “medo automático”, estava falando disso. De como o jeito de andar ou de falar, seus gostos e referências são utilizados para diagnosticar e comunicar que “essa Coca é Fanta”, dizendo também quem pode e quem não pode brincar com você no recreio. Aliás, quem vai escolher não brincar com você ou pior, escolher te agredir. De certa forma, entender-se como uma “criança gay” – independentemente das possíveis práticas homossexuais futuras – é entender-se como um alvo. De riso, de exclusão, de assédio, de violência.

Eu fui chamado de “viado”, de “bicha”, de “boiola” e de outros nomes a vida toda. Mesmo muito pequeno, sem nem saber o motivo. Era minha voz? Meu jeito de andar? Gostar mais da She-Ra do que do He-Man? Por que ainda levaria uns bons dez anos antes que eu sequer encostasse no pau de outro homem, então não tem como dizer que esse “lugar social” era apenas sexual. De alguma forma, muito antes de fazer sexo, eu fui forçado – pelos outros – a entender que era tal coisa, que ela tinha nome e que era considerada errada. Mas tem outra coisa…

Sempre que alguém me chamava de “viado”, mais do que me informar que eu era X coisa que logicamente só eu poderia saber ser verdade ou não, a pessoa estava anunciando – para mim e para o mundo – que ela não era. Você aponta o dedo para o “outro” e automaticamente afirma sua diferença. Talvez seja por isso que para algumas pessoas é tão irresistível gritar “viado” quando eu e outros LGBTQ estamos apenas caminhando pela rua. Talvez seja por isso que o presidente, por exemplo, não pode ver uma bicha que já fica doido pra falar alguma coisa.

O episódio que relatei aconteceu pouco antes das eleições. O clima estava tenso, mas tem pelo menos uns oito anos que “Bolsonaro” começou a ser usado como ameaça. E é uma mudança significativa, pois ao invés de dizerem “viado” para afirmar superioridade, agora dizem “Bolsonaro” para lembrar que “é melhor correr, a temporada de caça está autorizada”.

O governo começou e está isso que estamos vendo. Piada internacional, fofoca no Twitter prejudicando a economia, golden shower e até o empresariado que ajudou nessa hecatombe preocupado em perceber que “bateu palma pra maluco”. E vai piorar, pois ninguém aprende a administrar um país via meme e fazendo arminha com a mão. Teremos mais problemas e mais gente arrependida, especialmente quando ao invés de não conseguir ir pra Disney o problema for não ter como fazer a compra do mês. E tudo para deixar claro que não gostam de viado.

É bem feito. Eles gritaram “Bolsonaro”.

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