A camisinha do postinho…


De novo, é carnaval! Bloco na rua, baile de gala, praias lotadas, turistas abundando e tanta gente a bunda dando! A festa da carne é essa enorme válvula de escape que regula a sociedade, permitindo que durante as outras 51 semanas do ano a gente enfrente o busão lotado, o chefe mala e a demora da nova temporada de Game of Thrones. De novo, o Ministério da Saúde lembra de fazer campanha pelo uso de preservativos. E de novo, tem gente achando ruim usar a camisinha do postinho…

DandoPintaSloganSem dúvidas, há muito o que reclamar do governo e do Sistema Único de Saúde. Entretanto, se existe algum exemplo de ruim com ele, pior sem ele é esse programa! Sem o SUS, o atendimento médico da população estaria condicionado aos convênios dos sindicatos trabalhistas – e nem todo mundo trabalha ou é sindicalizado – e à exploração (e às condições) dos planos de saúde. Algo que para o tratamento da epidemia de HIV/AIDS seria bastante problemático.

Quem acompanha a coluna sabe que eu sou fascinado pelas novas e escrotas inventivas maneiras como pessoas LGBT conseguem se articular para para reproduzir preconceitos dentro da comunidade, criando exclusões dentro da exclusão. Não interessa buscar culpados em nível individual porque cada pessoa será atravessada por suas particularidades, esse tipo de julgamento cabe a quem estiver se relacionando com ela. Quando pensamos numa coletividade e, especificamente, em um grupo social excluído, o debate precisa ser sobre como a exclusão, o preconceito e a estigmatização trabalham na construção nos indivíduos, minando sua autoestima. É através desse processo que a inferioridade é internalizada. É como aprendemos o nosso lugar e ficamos alertas ao trocar beijos na rua ou, no dano psicológico mais triste, passamos a vida buscando meios de compensarfalha.

No fim das contas, essa análise precisa fazer parte de qualquer discussão séria sobre identidades minoritárias. É claro que isso não serve para desculpar quem é escroto – pelo menos não totalmente – mas ajuda a entender como algumas das coisas que observamos e que criticamos dentro desses subgrupos são produzidas. Aqui, no recorte dessa coluna sobre a identidade gay, já falei sobre a misoginia, o machismo, o culto ao corpo ideal, à masculinidade e sobre a inclusão através do consumo e da aparência de riqueza. Nada disso é uma exclusividade gay ou LGBT. A questão é que nesses grupos é preciso levar em conta a maneira como o preconceito produz e exagera esses comportamentos, independente do julgamento se eles são positivos ou negativos. E mais, ainda que uma pessoa possa e deva responder por suas atitudes, até que ponto alguém que se percebe socialmente como um ser estigmatizado é capaz de dizer não a alguma chance – mesmo que fantasiosa – de inclusão?

O carnaval está aí e o preconceito contra a camisinha do postinho é outra estupidez que pode ser explicada por isso. Parece bobo e talvez seja difícil de acreditar que alguém dispense um sexo gostoso com um boy delícia, mas existem vários comentários do tipo perdi o tesão quando ele mostrou aquela camisinha de pobre na internet, como se existisse justificativa para a atribuição de status a um ou outro tipo de preservativo. Ora, não é ótimo que a pessoa esteja se protegendo? E se essa proteção pode vir de graça, dada pelo governo, isso também não é bom? Não é uma das formas mais eficazes de controlar a epidemia, sem o custo enorme dos medicamentos e poupando as pessoas dos possíveis efeitos colaterais? Então bota a camisinha, meu amor! Do jeito que for, mesmo se não tiver iCondom da Apple!

É claro que outra coisa triste nessa história é o preconceito contra os portadores de HIV, uma vez que o uso da “camisinha do postinho” denunciaria o tratamento na rede pública de saúde, especialmente fora de períodos como o do carnaval. É um preconceito infeliz, que alia o terror irracional difundido ainda nos primeiros anos da epidemia com o moralismo contra infecções e doenças sexualmente transmissíveis, além da burrice. Afinal, uma pessoa soropositiva em tratamento é praticamente incapaz de infectar alguém, além de ser geralmente mais consciente em relação às práticas mais ou menos seguras para o outro e, especialmente, para si. Sem contar que ninguém é obrigado a pegar ou a utilizar um tipo de camisinha no tratamento, e as do posto estão disponíveis para qualquer pessoa, então seu uso está longe de ter esse poder de comunicar classe social, status sorológico ou práticas sexuais.

Não é mais simples conversar com o parceiro? Tudo bem que carnaval é oba-oba, mas já que rola intimidade para um entrar no outro, não é um papo que vai matar alguém, né?

A vida é curta e para pessoas LGBT pode ser mais curta ainda. Além da violência física, a violência social e simbólica aumenta a nossa fragilidade em relação a certas doenças e ainda dificulta nossas relações. As campanhas de prevenção podem não ser as mais atraentes, mas pelo menos podemos gozar (opa!) de tratamento eficaz e gratuito em todo o território nacional, o que é MUITO melhor do que a situação em diversos países desenvolvidos. Não é através de mais separações, estigmas e rejeições que daremos conta desse problema filosófico de vivenciar uma identidade construída como negativa em oposição a um modelo ideal. Então vista-se. De generosidade, de consciência, de ORGULHO.

Permita-se. Seja livre. Seja fabuloso.

Leia a Dando Pinta todas as quartas, aqui em Os Entendidos, e não esqueça de curtir a nossa página.

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