HOMONORMATIVIDADE: Orgulho ou preconceito?


Olha o palavrão! Falar em “heteronormatividade” não é novidade entre os que debatem sexualidade porque ela está em todo lugar. O mundo é heteronormativo, o que significa que a heterossexualidade é produzida e promovida como ideal, colocando tudo que não é hétero à margem. Porém, “conforme as experiências e direitos queer são mais aceitos, um policiamento de expressões sexuais e de gênero dentro dos espaços LGBTQ também vem crescendo”. Olá, “homonormatividade”! Tá boua?

DandoPintaSloganAqui na coluna eu já falei muito em heteronormatividade e, graças ao recorte desse espaço, especificamente de “gays heteronormativos”. Basicamente, eles são os homens cisgênero gays brancos que “se dão ao respeito”, seja através de um comportamento discreto e masculinizado, da recusa em levantar bandeiras, seja através de uma conduta sexual sadia – ainda que homo – ou seja através do casamento ou da manutenção de uma relação monogâmica. Enfim, qualquer coisa que possa ser utilizada – conscientemente ou não – para mimetizar a normalidade heterossexual a ponto de conquistar ou negociar novos graus de aceitação.

Repararam as palavras em itálico? Elas estão em destaque porque logicamente que esse conceitos são relativos. Primeiro porque se estivermos analisando as relações de poder na hierarquia social não existe cenário em que alguma coisa HOMO vá ser considerada mais normal ou aceitável do que uma coisa HÉTERO. Essa relação está na base dessas classificações. Em segundo lugar, quando falamos em condutas e trajetórias estamos falando de pessoas, de escolhas, de possibilidades, então independente do valor atribuído a uma ação ou outra, há diferenças. Tem gente que quer casar e tem gente que quer fazer pegação grupal no banheirão do shopping. ““Haja o que hajar””, as duas práticas irão continuar.

Ou seja, falar em heteronormatividade NÃO é um crítica individualizada a quem é branco ou decidiu viver para sempre com o amor da sua vida. Falar nisso, como falar em qualquer tipo de normatividade, é analisar como são estruturados os valores que POSSIBILITAM as opressões. É claro que um indivíduo que tem noção de seus privilégios de gênero, raça e classe e que se acha melhor do que os outros ou que ESCOLHE discriminar alguém é um escroto. A questão é que para os tantos outros que não são, a NORMA faz esse trabalho. Todos somos tão normais quanto podemos ser, mas aqueles que são mais acabam reforçando, automaticamente, o quão menos é o restante.

É o que acontece com a homonormatividade.

Outro tema recorrente nesse espaço é o “ser gay”. Uso essa expressão porque no fim das contas a minha vida sexual e a de quem lê não vem ao caso, o que estamos pensando vai além do sexo, é uma IDENTIDADE. As práticas e desejos sexuais podem fazer parte dela, mas como em geral não estamos fazendo sexo em público ou o tempo todo, é na vida em sociedade que as vivências e os comportamentos que são entendidos como “de gay” acontecem. E “gay”, como qualquer definição, delimita através de um processo complexo o que pode e o que não pode ser assim chamado. É por isso que não dá para dizer que todo homossexual é gay ou mesmo que todo gay é homossexual. Desde a própria criação do nosso entendimento contemporâneo da sexualidade como algo tão definidor da identidade individual existe o debate se bastam os desejos (com ou sem prática) ou as práticas (com ou sem desejo) para dizer que alguém É – ou seja, que alguém VIVE rótulo – homossexual ou homoafetivo. E só depois disso, através da difusão histórica, política e principalmente econômica do termo gay é que começamos a pensar nesse imaginário social que a ideia de homonormatividade analisa.

Quando pensamos em representação de mídia, há “tipos de gays” que aparecem e outros não. Politicamente há muita disputa entre afeminados e masculinizados porque, uma vez que “gay” só existe em uma relação de inferioridade ao modelo “hétero”, a tensão entre o enfrentamento e a assimilação estão na gênese da própria identidade política. Entretanto, embora exista uma outra hierarquia porque um tipo de homossexualidade é apresentada como mais legítima/desejável/respeitada do que a outra, as duas são representadas. O que ainda está longe de acontecer com negros ou pessoas trans, por exemplo. E é por isso que as rachaduras na “comunidade LGBTQ” estão cada vez mais evidentes.

É ótimo que existam os Bears para valorizar corpos não magros dentro da comunidade gay. Porém, esse grupo também é acusado de hipervalorizar um ideal de masculinidade excessiva e de ter baixíssima representatividade negra. Com as Barbies explodiu a cultura fitness na busca de uma “imagem saudável” após o choque inicial da epidemia de HIV/AIDS, mas a ascensão do Pink Money transformou esse modelo em marca a ser consumida, colocando homens sarados em praticamente todas as propagandas direcionadas ao público gay. Racismo, machismo, misoginia e transfobia fazem parte da coisa, não há como negar. Mas ainda que algum subgrupo, alguma prática ou uma bandeira possam ter surgido inocentemente, cedo ou tarde o capitalismo encontrará uma maneira de transformar tudo em nicho de mercado e de exploração. E para isso, será preciso pensar em como VENDER os valores ali contidos. Um processo que exige a definição de padrões que sejam mais atraentes para o sistema dominante, o que em nossa cultura SEMPRE significa mais masculino, mais branco, mais cisgênero, mais heteronormativo.

Nesse contexto, não é de espantar que tantos LGBTQ estejam rejeitando essa identidade política em favor de questões que lhes sejam mais caras, como a racial para tantos negros. É claro que indivíduos LGBTQ também reproduzem opressões machistas, racistas e transfóbicas, tanto em grupo quanto individualmente, mas quando a própria representação do que é “ser LGBT” não consegue contemplar algo além de “homem cis gay branco”, o problema começa na identificação.

Infelizmente é preciso negociar nossa aceitação. Só não dá para pedir que alguém se orgulhe dos nossos preconceitos.

Permita-se. Seja livre. Seja fabuloso.

Leia Dando Pinta todas as quartas, aqui em Os Entendidos, e não esqueça de curtir a nossa página.

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