Existe futuro para o “Mercado LGBT”?


Tem Nike® do Orgulho e Doritos® arco-íris. A Skol® patrocinando a parada de São Paulo e agências especializadas anunciando “cruzeiros gay” no programa do RuPaul, que é originalmente exibido em um canal LGBT. As festas abundam, mulheres trans aparecem em campanhas de shampoo e maquiagem. Boates tradicionais e guetos underground fecham as portas. Publicações não se sustentam, canais do YouTube encerram suas atividades e são prontamente substituídos por novos. Temos personagens LGBT mas poucas séries LGBT. Um nicho em expansão antigamente hoje some entre a normalidade e ações oportunistas. Estamos sendo incluídos ou apenas apagados?

DandoPintaSloganAh, o paradoxo da luta por igualdade… Gritar a diferença na tentativa de acabar com a discriminação. Alcançando esse ideal, repensar a maneira como entendemos e construímos nossos conceitos de identidade. Se um dia formos efetivamente iguais perante a lei e os costumes, o sonho do respeito à diversidade terá se realizado ou seremos normais não por causa do respeito e sim por uma normatização do que é considerado aceitável?

Esse é um debate complicado porque mexe com as estruturas essenciais do “ser LGBT”. Aliás, não é uma discussão nova, já que pelo menos em termos políticos a tensão entre aceitação e assimilação sempre fez parte daquilo que entendemos como Movimento LGBT. A problemática é que essas identidades foram socialmente definidas como desviantes em relação a um modelo ideal – o heteronormativo – e, portanto, quando são entendidas como parte normal/natural da sociedade, perdem a razão de ser. Algo complicado para as milhões de pessoas que tiveram suas personalidades e identidades construídas pela força simbólica desses rótulos e, obviamente, para as inúmeras organizações políticas e negócios que vivem dessa diferenciação.

Há quem deteste pensar que causas sociais precisem dialogar com algo tão opressivo como o sistema capitalista, mas essa é a nossa realidade. Talvez o sistema se transforme, talvez ele seja essencialmente ruim, talvez venha a grande revolução ou talvez ela seja pior ainda. O fato é que agora, no mundo em que vivemos, o sistema é esse. E desde a sua formação, NENHUMA causa social avançou pura e simplesmente pelos nobres ideais que carregava sem alguma articulação com o mercado. O racismo é a mais evidente prova disso, já que embora a igualdade entre negros e brancos tenha sido conquistada no papel e de acordo com variados interesses econômicos, a discriminação contra a população negra ainda é gigantesca. Obviamente que isso não tira o mérito dos heróis que se envolvem apaixonadamente com essas causas. É parte do fazer político que se pense em estratégias para a conquista de demandas, então esse diálogo com o mercado precisa acontecer. Afinal, não dá para esperar uma situação ideal para demandas concretas e urgentes, então a gente faz o que pode. Entretanto, é preciso lembrar sempre das relações de poder.

Os anos 1990 foram cruciais para a popularização do conceito de Pink Money porque depois das lutas das décadas anteriores o movimento LGBT conseguiu firmar-se no imaginário social. Muita gente odeia, muita gente ama, mas todo mundo sabe que estamos aqui. Com isso, explodiram as ofertas de produtos e serviços para o segmento – particularmente o gay – e a discussão se essa exclusividade era mesmo uma forma de criar espaços seguros de sociabilidade ou apenas um novo jeito de nos segregar. Nos anos 2000 vieram as primeiras conquistas concretas e a demanda do casamento igualitário emergiu como bandeira principal do movimento, o que faz algum sentido quando pensamos nessas identidades ligadas ao desejo e à afetividade, mas obviamente não contempla os projetos e os problemas de todos os LGBT. Assim, o abismo que já existia entre os “tipos de LGBT” considerados aceitáveis e os mais marginalizados aumentou. Se algumas pessoas conseguiam bons empregos e relações duradouras “““mesmo sendo LGBT””” porque alguns LGBT “““preferiam””” permanecer no gueto, na promiscuidade?

É por essa lógica que chegamos ao momento atual. Existe a sensação de que estamos incluídos e de que “o pior já passou”, o que faz com que muitos dentro da comunidade se acomodem nessa suposta segurança. Politicamente já podemos observar as consequências disso na fragmentação dentro do movimento, já que questões da população trans e tensões raciais são tratadas como coisas secundárias. São criadas as “minorias das minorias” enquanto uma “minoria menor ainda” se delicia com a fantasia de assimilação vendida em qualquer produto arco-íris quando, na verdade, a hierarquia entre “hétero/certo” e “homo/desviante” persiste. E persiste não pela valorização ou proteção de nossa história e nossa cultura, o que seria positivo, mas através da violência que ENSINA qual é o nosso lugar nesse sistema.

Nesse contexto, não é de espantar que o chamado “Mercado LGBT” esteja em crise. Para muitos dos nascidos nos últimos 20 anos a ideia de alguma coisa pensada para esse segmento parece desnecessária ou até ofensiva, e grandes empresas vivem bem com a repercussão eventual de apoios em datas comemorativas e nada que seja contínuo ou efetivamente impactante para esse público. Claro, qualquer ação afirmativa é bem vinda e ainda que o objetivo possa ser lucro, se fez o bem, que mal tem? Só que não dá para comprar o pacote da inclusão quando ainda tem tanta gente perdendo a vida apenas por ser quem é. Precisamos, então, entender que nossos papéis como consumidores e como pessoas LGBT podem e devem se intercalar, e exigir que o mercado que já nos explora perceba que atender às nossas necessidades é o melhor negócio.

Permita-se. Seja livre. Seja fabuloso.

Leia a Dando Pinta todas as quartas, aqui em Os Entendidos, e não esqueça de curtir a nossa página.

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