O vespeiro de amazonas despertado por Trump


No último dia 21, aproximadamente 3 milhões de pessoas acompanharam a Marcha das Mulheres, uma iniciativa de se rechaçar a vitória de Donald Trump nas eleições para a presidência dos Estados Unidos e sua postura adotada ao longo da campanha.

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A Marcha protestou contra a linha ideológica apresentada como projeto de governo de Trump – que inclui a investida contra a legalização do aborto – e suas polêmicas declarações quando o assunto é a mulher. Um exemplo foi um vídeo de 2005, revelado pelo jornal Washington Post, em que Trump diz que gosta tanto da beleza que pode fazer qualquer coisa, até mesmo agarrar mulheres pela vagina. Em resposta, as participantes do ato usaram um gorro rosa que reproduz a imagem da genitália feminina, e o lema da marcha foi “pussy grabs back”.

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Num país em que a população vem sempre manifestando apoio incondicional a seus presidentes, o evento é marcante por deixar explícita a rejeição um projeto de governo tão regressivo, que ameaça não só mulheres, mas todos os grupos historicamente oprimidos ao longo da história americana, como negros, indígenas, gays, latinos e muçulmanos. Lembro do caso de Michael Moore, que foi bastante hostilizado em razão de suas criticas ao então presidente George Bush e ao neoimperialismo ianque apresentadas em seus documentários. Outro caso marcante é o de Madonna, que lançou em 2003 o álbum American Life e sofreu boicote apenas nos EUA, em razão à forte crítica ao american way of life e à política bélica de Bush.

 

Essas reações a presidentes conservadores nunca foram tão grandes quanto se tem visto em relação a Trump. Desde o Ocupy Wall Street, uma onda de reatividade pode ser notada na sociedade americana, num movimento ascensional, que se une e eclode em torno da vitória de Trump. A oposição ao conservadorismo tem crescido em forma de movimentos políticos, nas bases populares da sociedade, assim como no meio artístico mainstream, o que se reservava quase completamente à arte underground nos EUA. Mas o que a Marcha de 2017 ilumina é a posição dianteira que as mulheres têm assumido nas lutas por direitos civis e causas progressistas.

 

É claro que o feminismo americano nem sempre contempla mulheres de todas as classes, etnias e grupos sociais. Como quase tudo o que surge na sociedade americana, o feminismo de lá é, em grande parte, autocentrado, não engloba problemas que extrapolam os limites do território nacional, e até mesmo consegue ignorar questões referentes às mulheres negras e latinas, por exemplo. Isso, sem dúvida alguma, precisa ser revisto pelos movimentos feministas e suas lideranças. No entanto, é preciso reconhecer a força que a insurreição feminina tem representado no despertar da sociedade americana, sempre tão alienada em torno da imagem dos EUA como o país da liberdade e do sucesso. Isso não se restringe ao apoio à candidatura de Hilary Clinton, e nem a iniciativas apresentadas pela indústria do showbizness; apesar de muitas celebridades aderirem a protestos e manifestações políticas em geral, a natureza das mesmas vêm se apresentando originalmente popular.

 

A vitória de Trump representa um inegável recuo na história dos EUA, assim como uma grave ameaça aos países submetidos ao sistema econômico global. O retorno de um presidente conservador ao Capitólio legitima a onda retrógrada que tem atingido todo o ocidente, quase conferindo a ela o estatuto de regra geral e validando as tendências fascistas que temos testemunhado em micro e macro esferas, tanto dentro das relações pessoais quanto em níveis mais abrangentes como governos e lideranças políticas. O quadro geral é assustador. Mas a resistência a esse quadro também é real e inegável. O levante de milhões de mulheres que se sentiram insultadas pelo comportamento e pelo projeto de Trump, fazendo um antagonismo emblemático à cerimônia de posse, traz à luz um descontentamento geral e expõe uma ferida que não atinge apenas mulheres, mas todos os outros grupos oprimidos que, puxados pelas mulheres, não hesitaram em se posicionar contra tanto atraso. Num mundo construído por homens, ser mulher é, por si só, uma revolução. Apropriar-se dessa revolução em prol da coletividade é nosso papel. A restituição do matriarcado é parte fundamental da revolução e ela já começou.

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