Quando homens cis amam mulheres trans…


Texto do colaborador Mario Henrique Alves dos Santos*

É muito difícil um homem cis assumir publicamente uma relação amorosa com uma transexual ou travesti, por questões óbvias de choque social. Mesmo com tanta informação e as mudanças tão rápidas em termos tecnológicos e sociais, a sexualidade ainda continua um tabu quase que insuperável pela sociedade, e digo isto pensando em todas as partes do mundo e não apenas aqui em São Paulo.

Hoje observo que há algumas questões que são absolutamente estranhas ao mundo dos homens, de valores e de conceitos rígidos, inalteráveis, conservadores. O universo falocêntrico é algo tão imperioso que a mudança de sua função desestrutura todo o ambiente, desorganiza o modo como funciona a vida cotidiana, faz o homem perder e entrar em descrédito perante ao que é fixo e o que é estável. Hoje casado com uma transexual percebo os olhares, as falas, as discussões, os encantos e desencantos, o desrespeito, as cartas que são deixadas na mesa quando almoçamos em algum lugar, os olhares atravessados e cortantes quando estamos no transporte público, as cabeças desejantes, nas ruas, bares, nas buzinas dos carros, nos lugares e espaços. Noto com muito pesar que a transfobia recai sobre mim, e sentindo o peso disso tudo penso algo peculiar: a vergonha a ser suportada faz com que quase todos os homens cisgênero  não assumam relacionamentos com trans. Amar se torna muito mais pesado, é uma escolha que vai depender muito de nossa hombridade.

Quando me perguntam sobre quando foi que me identifiquei como gay, respondo que “nunca”. Não tive isso. Psicanaliticamente dizendo meu objeto de desejo ainda continua sendo a figura feminina, isto é exatamente o que confunde muita gente. Se eu gostasse de homem procuraria um sujeito masculino e não feminino. Eu amo minha esposa e não sei o que seria de mim sem ela, pois vejo nela a mulher que desejei.

Sei que muitos homens cis que já saíram e se envolveram com mulheres trans abdicam da exposição por humilhação social. Sentem uma vergonha profundamente dilacerante e infelizmente o que experimentamos é apenas uma parte do que as pessoas trans vivem cotidianamente.  O padrão quer a todo momento colocar em cheque nossa sexualidade, por isso assumir publicamente atração e amor por uma trans é custoso, apesar de haver exceções. Perder as regalias masculinas é uma escolha dificílima. Quando se coloca publicamente esta opção a estranheza ronda os olhares das pessoas, e pensar que o homem é um pervertido sexual é apenas o início do pilar de suposições que fazem a respeito de nós. Comecei a perceber também que abandonar esta condição impregnada na carne requer muita disposição e luta.

Quando não assumem, esses homens em sua grande maioria seguem relacionamentos extraconjugais ou utilizam da prostituição para realizar seus desejos. Por esta razão as mulheres trans são tão procuradas nas esquinas das cidades, como corpos abjetos “desejantes” que ficam nas valetas da exclusão. A minha experiência é que amar uma transexual é algo que me mantém inteiro. Escolhi lutar na contramão. Minha concepção de masculinidade não se diminui e sim me fortalece, não por conta do meu esclarecimento, mas por conta da luta travada aos padrões e paradigmas sociais. Isso faz com que eu me sinta pronto para amar independente da forma. Gostaria de ser exemplo para outros homens cis. Não apenas para os homens heterossexuais, mas especialmente para os que escondem outras possibilidades nas esquinas, na violência, nas masturbações e dúvidas corroídas pela heteronorma. O destino dos homens cis que sentem desejos reprimidos por travestis e transexuais será sempre o submundo, a não ser que encarem a luta LGBT como sua também. Temos pessoas suficientes para lutar, só estão demasiadamente imersas atrás de um conservadorismo brutal.

Será que agora estamos entendidos?

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