Além do arco-íris, uma perfeita ilusão…


Uma das músicas mais marcantes do clássico “O Mágico de OZ” (1939) diz que “além do arco-íris há uma terra onde os sonhos que ousamos sonhar viram realidade”. As palavras são cantadas por Judy Garland no início do filme, quando o tom de sépia da filmagem é usado para mostrar a realidade sem graça de que sua personagem, Dorothy, deseja escapar. O contraste com a explosão em Technicolor do mundo de OZ dá a certeza de que, de fato, tudo é possível naquele lugar mágico. E não por acaso, esse filme e essa música acabam virando ícones da cultura gay que vivia sob as sombras naquela época…

DandoPintaSloganJá falei aqui sobre o impacto da série “Queer As Folk” – a versão americana – na minha vida. É datada e muito panfletária, mas em 2001 foi bastante revolucionário ver assuntos gays (infelizmente já com pouco destaque para outros segmentos) discutidos num programa de TV. E foi justamente a época em que “saí do armário” e comecei a frequentar boates, fazer amigos, namorar, etc. Mas enfim, o que quero comentar é sobre um momento na terceira temporada da série, quando a liberdade na área LGBT ocupada pelos personagens está ameaçada pela candidatura ao cargo de prefeito de um cara abertamente LGBTfóbico. Um cenário que não parece tão distante da nossa realidade.

Na série, um personagem comenta – com as imagens em preto e branco – que ver as ruas patrulhadas por policiais repressores é como “assistir O Mágico de OZ de trás para frente”, já que as cores da alegria tinham sumido dali. Depois, quando a ameaça é derrotada, temos uma cena de celebração em P&B que vai sendo colorida aos poucos, com uma enorme bandeira do arco-íris tremulando sobre todos. Uma alegoria. Uma alegria. Uma cena que parece cada vez mais fantasiosa, enquanto mais e mais notícias sobre a onda de conservadorismo varrem o mundo.

Donald Trump como presidente dos Estados Unidos ainda parece algo surreal, mas já é a realidade. As conversas de “Bolsonaro 2018” animadas por isso estão crescendo, e ainda que ele talvez não seja eleito, o simples fato de alguém considerar essa possibilidade já é preocupante. Piores do que essas figuras tão escandalosas são os inúmeros poderosos que pensam exatamente da mesma forma e não falam nada. Qualquer leitura superficial nos comentários de notícias sobre estupro, racismo ou LGBTfobia dá uma mostra arrepiante do que pensa uma enorme parcela da população, especialmente quando acredita estar livre de qualquer vigilância ou punição. Muitos gritam que “o mundo está chato” por causa das demandas dos movimentos sociais por um mínimo de respeito, mas a verdade é que a fome de matar e de tripudiar sobre os “indesejados” nunca pareceu tão grande. E nesse contexto, o maior perigo para qualquer grupo social minoritário é uma falsa sensação de segurança.

Também já falei sobre isso. Sempre que se discute a falta de engajamento político dentro do meio LGBT falamos apenas em belas ideologias sobre união, mas a verdade é que as conquistas sociais em nossa sociedade operam também através das relações econômicas. Não cabe discutir se isso é essencialmente positivo ou negativo, é simplesmente parte da equação. Assim, é provável que o próprio mercado dê conta de proteger os nichos que explora, o que não quer dizer que todo e qualquer direito conquistado esteja seguro. Afinal, as demandas do mercado podem mudar.

É comum ver reações horrorizadas sobre tragédias do passado. Quando falamos em direitos civis e revemos as histórias dos movimentos negro, feminista e LGBT, nos perguntamos como era possível que a sociedade aceitasse coisas como a escravidão, a lobotomia de mulheres “histéricas” ou o assassinato de pessoas não-heterossexuais. O que acontece é que nada disso é coisa do passado, salvo por um ou outro método considerado mais arcaico. Todo dia tem gente morrendo por causa de raça, de gênero, de sexualidade, de classe, de tudo isso junto. E nossos dias seguem normalmente, como se coisas tipo o nazismo fossem mesmo anomalias e não um produto da maneira como vivemos. Como se essas coisas não estivessem vivas e governando grande parte do planeta.

Não sei se existe alguma solução ideal para a causa LGBT. As críticas à política de identidade são pertinentes, mas quando pensamos no ambiente político atual é preciso tratar das coisas como elas estão sendo praticadas, então uma “união plena” entre todos os oprimidos é algo impossível. Dessa forma, talvez a solução esteja em procurar os pequenos pontos de encontro em que causas, identidades e demandas diversas precisam se fortalecer contra inimigos comuns.

Um prefeito que colore os muros de cinza pode parecer piada, mas tem muita gente disposta a apagar o arco-íris.

Permita-se. Seja livre. Seja fabuloso.

Leia Dando Pinta todas as quartas, aqui em Os Entendidos, e não esqueça de curtir a nossa página.

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