Não há nada de errado com os “garotos de Ipanema”


Corpos moldados durante o ano todo desfilam em sungas minúsculas sob o sol do verão carioca. Sob bandeiras do arco-íris vende-se de tudo. Açaí, massagens, as festas mais badaladas da estação e sexo, muito sexo. Fofoca, hedonismo, superficialidade… Tudo isso está lá. Para uns, é a ilustração perfeita do que existe de pior na comunidade gay. Para outros, é sonho e motivo de inveja. Mas se existe algum problema, será que ele está naquele espaço ou naquelas pessoas? Dá para julgar os “garotos de Ipanema”?

DandoPintaSloganEsse texto é uma resposta – ou talvez um complemento – a outro, publicado pela Revista Lado A e que pergunta “o que há de errado” com essa “tribo”. É um tipo de texto que repercute facilmente porque o “alvo” escolhido é controverso, e entre os que amam e os que odeiam, o julgamento rapidamente vira polêmica. E tudo bem, esse tipo de tensão entre grupos e correntes percebidas como opostas dentro de um mesmo segmento é normal, nenhum debate político avança sem essa dinâmica. O errado, a meu ver, é eleger algo ou alguém como um “espantalho” – ou Judas – e acabar criando uma nova categoria de exclusão sem debater o problema real.

Aqui na coluna eu já falei bastante desses assuntos e reconheço que, seja por escolha estilística ou política, é fácil reduzir explicações complexas a estereótipos que funcionem como exemplo. Assim, o que provavelmente fala sobre “homens cisgênero assumidamente gays que são produto cultural da aparente liberação conquistada pelo Pink Money nos anos 1990 e que enxergam seu poder de consumo e o capital sexual de corpos padronizados de acordo com um ideal de hipermaculinidade heteronormativo e muitas vezes racista que acabam por reproduzir estruturas de opressão dentro do subgrupo oprimido a que pertencem” é resumido simplesmente por “garotos de Ipanema”.

É preciso enxergar essas camadas.

A crítica à nossa geração de “crianças mimadas que cresceram ouvindo que eram especiais” e que hoje são adultos narcisistas é pertinente, mas quando falamos da comunidade LGBT e especificamente do segmento gay, existe um recorte. Outras questões entram na rodinha. Independente da sexualidade, todo o mundo capitalista está vivendo essa era individualista e de valorização extrema do escapismo, já que as dificuldades enfrentadas pela humanidade só pioram e a quantidade de produtos e experiências para mitigar isso só cresce. Entretanto, quando o foco é a comunidade gay – especialmente aquela que domina o imaginário social do “ser gay”, que é a norte americana, com seus valores e demandas importadas para a maior parte do globo – temos especificidades. O escapismo e o hedonismo não são novidades para esse grupo porque a busca de meios para lidar com uma realidade angustiante é a própria base de sua formação. Então, se for para pensar criticamente sobre esses hábitos, não faz sentido usar o moralismo para estabelecer hierarquias de “certo” e “errado”. É preciso levar em conta como a percepção de uma unidade política dialoga com a nossa diversidade de demandas.

Nos anos 1970 a briga era para existir, para amar livremente, para fazer sexo sem culpa. Na década seguinte, tudo virou de pernas para o ar porque a epidemia de AIDS colocou a comunidade gay no olho do furacão. Embora o terrível estigma sobre a doença permaneça até os dias de hoje, a necessidade de uma articulação social sobre o tema pavimentou todas as conquistas das décadas seguintes, fazendo com que a partir dos anos 1990 gozássemos de um clima de mais tolerância e do reconhecimento como nicho de mercado em um sistema de consumo. E agora, apesar de esse mesmo sistema servir para impedir que tudo seja perdido, vivemos com a sensação de que o pior já passou e de que podemos relaxar na praia que ninguém vai puxar nosso tapete. Uma sensação FALSA. Tomar banho de sol, tudo bem. Relaxar enquanto grupo fragilizado, nunca!

Pessoas ainda morrem apenas por ser LGBT. Um ator foi alvo de xingamentos porque uma foto sua beijando outro homem foi explorada de forma sensacionalista pela mídia. Um menino foi assassinado pela própria mãe. Isso pra falar apenas das coisas que repercutiram mais nessas duas semanas de 2017. Vem muito mais por aí. Nos EUA, semana que vem começa o governo Trump e sabe Deus o que isso vai significar para a população LGBT daquele país e do mundo, ou como a onda conservadora vai quebrar nas próximas eleições brasileiras! Nenhuma conquista está plenamente segura, não importa o quão privilegiados alguns de nós possam ser.

É lógico que é importante discutir as relações de poder dentro da nossa sigla. O machismo, a misoginia, a transfobia, o racismo, a hierarquização entre afeminados e masculinizados, os abismos de classe representados por espaços como Ipanema ou boates como a The Week. Eu mesmo já fiz muito isso e sustento a posição de que não existe opressão contra quem se encaixa no padrão. O que acontece é que esse “padrão” é relativo, então faz sentido colocar um “macho branco sarado de Ipanema” como modelo padrão em relação a um “gay negro afeminado da periferia”, só que também precisamos lembrar que as identidades LGBT – da forma como são entendidas e construídas em nossa sociedade atualmente – estão sempre em relação de inferioridade com o modelo heterossexual. Assim, na hora em que a coisa aperta, até o “gay limpinho” mais machão é reduzido a VIADO, pois é a homossexualidade em si que é tratada como ofensa.

Tem gente que faz fofoca, só quer saber de droga, sexo e selfie? Tem. Também tem gente que quer casar, que lacra tudo no empoderamento e até gay fã de futebol. Pode ser em Ipanema, pode ser na padaria. Essas coisas podem parecer estranhas para quem não curte, mas não são ESSENCIALMENTE erradas ou problemáticas. Problema é quando alguém usa de seus gostos, hábitos e privilégios para humilhar os outros. E embora não se possa “passar a mão na cabeça” de quem faz algo assim, também precisamos entender que existe uma relação de violência que potencializa esse tipo de disputa dentro de um grupo marginalizado.

Não há nada de errado com os garotos de Ipanema. Errado é que alguém sinta que só tem algum valor se seguir uma cartilha e não botar um pé pra fora da faixa de areia que lhe PERMITEM ocupar.

Leia a Dando Pinta todas as quartas (até 01 de Março desse ano) aqui em Os Entendidos. Não esqueça de curtir a nossa página.

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