Cuidado com os App!


Cuidado com os Apps! É o que pede o relato de um rapaz do Rio de Janeiro que circula pelo Facebook, narrando os momentos de terror sofridos por ele depois de ter sido drogado e quase assassinado por um homem que conheceu em um aplicativo de pegação. No comentários da postagem e dos compartilhamentos, além das justas mensagens de apoio à vítima, há também as já esperadas que colocam a culpa nele, no problema de  “sair por aí caçando rola” e é claro, “nesse bando de viados” em geral. Afinal, o que seria de uma notícia sobre gays sem aquela homofobia nossa de todo dia, néam?

DandoPintaSloganNão faz muito tempo que falei sobre o risco de demonizar uma prática social/sexual em nossa comunidade. Basicamente, dizer que alguma coisa é MAIS problemática POR SER utilizadas por gays é reproduzir o tipo de pensamento homofóbico que justificava a criminalização e a patologização da homossexualidade até mais da metade do século passado, e em países desenvolvidos como a Inglaterra. E logicamente não é algo muito diferente do que ocorre em regiões marcadamente intolerantes como a Rússia, os domínios do Estado Islâmico ou a África cristianizada.

O problema não são os gays, os homens ou a humanidade. O problema é a LGBTfobia.

Esse não é o primeiro relato de uso de aplicativos para a prática de violência. Também não será o último, já que gostando ou não essa forma de comunicação está inserida em nossas vidas e especialmente no segmento gay. Recentemente, foram os assassinatos em Uberlândia e o serial killer de Londres. Na Rússia e no Irã, o uso de aplicativos por grupos homofóbicos para a localização de vítimas já foi amplamente documentado, além das ameaças oficiais em regiões onde a homossexualidade ainda é criminalizada. Além disso, temos os casos de chantagem e extorsão, os de exposição e as recorrentes notícias e pesquisas que ligam o uso de aplicativos ao aumento de práticas sexuais de risco e de contaminação pelo HIV e outras doenças sexualmente transmissíveis. Mas de novo: o problema não são os app.

Teve assaltante usando o Pokémon GO para atrair pessoas e tem “boa noite cinderela” e estupro no Tinder, assim como motoristas de Uber assediando passageiras. Há pouco tempo me pediram para fazer uma lista de cuidados com os aplicativos, mas a verdade é que a única coisa 100% segura em relação a eles seria não usar. E aí um assalto ou agressão poderia vir na hora de comprar pão ou a caminho do trabalho, já que o problema são as pessoas.

É claro que muitas coisas problemáticas na identidade gay contemporânea são concentradas ali. Afinal, temos a promessa de sexo fácil na palma da mão e isso faz com que muita gente despeje seus preconceitos ali. É fácil esquecer que um perfil, por mais descamisado e sexualizado que possa ser, sempre esconde uma pessoa. Uma pessoa com sentimentos complexos, que podem perfeitamente ser apenas tesão ou a vontade conhecer um grande amor, mas também uma enorme carga de auto-ódio e de homofobia. O atirador que matou 50 pessoas na boate de Orlando não utilizava o Grindr? Esse fato foi utilizado na época para tentar desqualificar o teor homofóbico desse crime de ódio, mas apenas porque o “mundo normal” que supostamente aceita as sexualidades “não-hétero” prefere não discutir o valor estruturante da LGBTfobia e como ela PRODUZ incidentes do tipo.

Jogar a culpa nos aplicativos seria o mesmo que jogar a culpa na boate por concentrar gays! Se somos um alvo fácil dentro de uma boate ou através de nossos perfis virtuais, a pergunta que precisa ser feita é porque precisamos de meios e de ambientes específicos para buscar interação entre nossos pares.

Depois da liberação sexual dos anos 1970 e da luta contra a epidemia de AIDS nos anos 1980, a agenda política (que se tornou) LGBT buscou um tipo de inclusão liberal que funciona bem dentro do sistema capitalista, desde que se possa pagar por ela. Há quem ache isso lindo, há quem ache péssimo, mas de qualquer forma está aí. E para fins práticos, no dia a dia, é ótimo poder consumir alguma coisa “feita especialmente para você” ou ir a um lugar protegido conhecer pessoas razoavelmente parecidas com você. Esse não é o problema, a não ser nos casos em que os homossexuais ficam tão descolados de uma reflexão sobre sua condição política que acabam por reproduzir LGBTfobia e outros preconceitos. Manja gay bolsominion? Então.

O que precisamos questionar é a ideia de que valemos menos do que um modelo “normal”. Por mais que o mercado e meia dúzia de gente bem intencionada realmente desejem nos incluir, a hierarquia entre “hétero” e “tudo que não é hétero” está na base da própria definição da sexualidade. E enquanto isso existir, vai existir a LGBTfobia, já que seremos sempre o “outro” que ameaça a posição hegemônica de quem se sente “superior”. E como não é possível (e nem desejável, já que o sistema precisa dessa relação de disputa) efetivamente nos exterminar, vamos sendo atacados de diferentes formas para saber do “nosso lugar”.

Um app é apenas um app, usa quem quer. Para muitas pessoas, eles são a única janela para um mundo proibido, o único meio de expressar sua sexualidade. Todo cuidado é pouco, mas isso é com qualquer coisa. No nosso caso, o maior cuidado precisa ser com o ódio.

Permita-se. Seja livre. Seja fabuloso.

Leia Dando Pinta todas as quartas, aqui em Os Entendidos, e não esqueça de curtir a nossa página.

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