Pergunta de um gay para “ozétero”: Dá para PARAR com a LGBTfobia?


Um homem heterossexual foi morto à porrada em São Paulo porque tentou defender um gay e uma travesti – ambos em situação de rua – dos ataques de dois outros homens. Homens como ele, cisgênero e heterossexuais. Homens como os que arrancaram a orelha de um pai que abraçava o filho. Homens como os que atacaram dois irmãos gêmeos e mataram um deles porque pensaram tratar-se de um casal gay. Homens como o que atingiu um rapaz gay na Avenida Paulista com uma lâmpada fluorescente. Gente como a gente, como eu e você.

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O advogado que defende os assassinos diz que eles estavam embriagados e surgiu a história de que um deles estava nervoso, “descontando em todo mundo” porque descobriu ter sido traído pela mulher. Agora, os dois estão presos. A punição será exemplar. Crimes de LGBTfobia são altamente apenados no Brasil, já que o motivo é torpe. O problema, claro, está na subnotificação e na dificuldade de comprovar a motivação em muitos dos casos. Não é o problema desse último episódio, já que os vídeos e os depoimentos já construíram o caso, mas de qualquer forma fica a dúvida se o caso receberia atenção se a vítima fatal fosse a travesti que aparece correndo nas imagens.

Há quem chame essa dúvida de “vitimismo”, “mania de perseguição” ou até de “complexo de inferioridade”. Entretanto, ela é só outro produto da LGBTfobia em seu funcionamento perfeito. Como um mecanismo de opressão estrutural, estruturado e estruturante, esse tipo de ódio precisa habitar os corações e mentes de vítimas e de algozes, servindo de medo regulador para um e de justificativa para o outro. Afinal, é possível que uma pessoa LGBT que é discriminada ou que sofre uma agressão acredite que o motivo não seja a sua condição de “desviante”? E com um sistema social que precisa reafirmar o tempo todo essa hierarquia de poderes e valores entre personagens sociais, dá para culpá-la dessa desconfiança?

A LGBTfobia não está apenas em tiros, socos, chutes e lampadadas. Ela está no texto de jornal que “como quem não quer nada” insinua que um cantor gay morto precocemente poderia ser portador do vírus HIV. Ela está no grupo de donas de casa que vota para que um personagem gay (e negro) da novela seja eliminado da trama. Está no conselho de ética que sugere uma punição descabida para a quebra de decoro do único parlamentar assumidamente gay – e perseguido por isso 24 horas por dia – do congresso. Está na pergunta natalina sobre “as namoradinhas” quando a família inteira já sabe da verdade, assim como está também nessa interdição social que transforma desejo em segredo e exige que a sexualidade desviada seja assumida.

LGBTfóbicos são “gente como a gente” porque essa violência não é nenhuma anomalia. Ela é produzida diariamente, tanto nas piadinhas quanto nos xingamentos. A própria criação de uma ideia de sexualidade já transforma a diferença em um tipo de qualidade essencializadora, afirmando que SOMOS aquilo que DESEJAMOS. Daí para a definição do que é o modelo “normal” e o que deve ser julgado como “anormal”‘ é um pulo. Ou melhor, um soco.

É através da violência que aprendemos qual é “o nosso lugar”. A sociedade fica chocada quando um heterossexual é violentado pela LGBTfobia porque de todos os estigmas, esse é o único em que se corre o risco de escorregar. Homens que apoiam a pauta feminista permanecem homens, brancos que lutam contra o racismo permanecem brancos. No caso da sexualidade, há sempre a suspeita de que a defesa seja em benefício próprio. Mesmo que diversos comportamentos sejam estigmatizados como “de viado”, é impossível ter CERTEZA sobre as práticas e desejos de alguém. Então a suposta ameaça do desvio homossexual paira sobre qualquer pessoa, sobre qualquer filho inocente ou pai de família. E isso dá medo porque denuncia a fragilidade das relações entre certo e errado, entre moralmente aceitável e condenável. Uma denúncia que precisa ser reprimida a todo custo, até mesmo com a morte.

Talvez não seja possível parar com a LGBTfobia enquanto as identidades sexuais continuarem a ser produzidas e necessitarem de defesa. É o paradoxo da luta por igualdade, que precisa afirmar a diferença para buscar proteção à diversidade. Mas o problema da desigualdade é que a dor e a violência são incontroláveis. Elas estão aí separando famílias e elegendo políticos com discursos de ódio, transformando fronteiras em abismos e diferenças de opinião em ofensa. Assim, é lógico que cedo ou tarde a coisa se vira até contra quem não era alvo. Não foi a primeira vez e não será a última. Dá pra parar com a LGBTfobia? Não sei. Mas se não parar, ela vai nos matar mesmo.

E a vocês também.

Permita-se. Seja livre. Seja fabuloso.

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