O vídeo do tal “Caio Lima”, exposição e passivofobia…


Mais uma vez, um vídeo de sexo viraliza no twitter. Hoje, felizmente, a transa exposta é consensual. A divulgação do vídeo, obviamente que não é. E é claro, entre pedras e piadas, a opinião recorrente é que quem se deixa penetrar e filmar vale pouco, MERECE a exposição. Nada de novo, exceto pelo vídeo da vez não ser “de ninguém”. Não se vê o rosto do suposto Caio Lima e não existe consenso sobre quem ele seria, se cantor gospel ou “youtuber famosinho”. Aparentemente, a graça está no sexo mesmo…

DandoPintaSloganO caso é clássico da nossa era de realidades virtuais. Se está na internet, é verdade. E agora qualquer “Caio Lima” deve estar sendo alvo de chacota, tanto pela exposição sexual quanto pela maior ameaça à masculinidade, a pecha de homossexual. Ainda pior, passivo. E para completar o ultraje, gemendo gostoso para deixar claro que aquela transa estava ótima.

É nesse “ainda pior”, nessa escala de quão repulsivo um comportamento parece à sociedade, que mora a nossa tragédia.

É o machismo que precisa desqualificar tudo que é definido como “feminino” para se sustentar. Isso é logicamente danoso às mulheres, mas também atinge os homens gays ao alimentar a homofobia e consegue afetar até os homens cis heterossexuais, obrigados a viver com o medo constante de “escorregar” com algum gesto ou demonstração de sentimento, sob risco da perda do status de superioridade.

Nossa sociedade é falocêntrica – olha o palavrão! – , o que significa que TUDO gira em torno do pênis. Mais do que a figura masculina em si, é no pênis, no órgão, que o discurso sobre o sexo é construído. Se o pau é grande, se é grosso, se tem veias, se está duro, se o gozo é forte, espesso e com jatos potentes. O pau penetra. Precisa penetrar, rasgar, arrombar, conquistar, viciar. O macho viril, bom de cama, está sempre pronto para meter e meter gostoso. E quem é penetrado, seja homem ou mulher, é a “presa”, a conquista, o buraco. O homem penetrado perde duplamente seu poder, já que além de gay, é passivo.

O tal vídeo, seja de Caio, Pedro, Mathias ou João, mostra um homem que geme ao ser penetrado por um pênis grande. Há quem aplauda, claro, mas o tom jocoso das piadinhas e o fato de quase sempre ele ser colocado no feminino entregam a inferioridade atribuída à posição passiva. O ativo, que nem um nome inventado ganhou, só recebeu elogios. É o passivo que está sendo alvo de fofoca e da própria divulgação do vídeo, geralmente acompanhada de comentários espantados sobre “como ele aguenta”. Há também o fato de ser uma transa bareback (sem preservativo), o que faz com que os “juízes da internet” tornem-se também especialistas em infectologia e sintam-se autorizados a sugerir que aquelas pessoas – repito, sequer identificáveis, o que também não justificaria – seriam “putas cheias de AIDS”. Ou seja, além de preconceitos sobre o sexo e sobre o HIV, o que se vê é a reprodução do modelo heterossexista que divide comportamentos entre “afeminado” e “masculinizado”, e que promove a hierarquização entre esses extremos com lógica masculinista. Tem até ativo dizendo que “passivo tem mais é que morrer”, obviamente por um sentimento afeminofóbico que dá vontade de perguntar “vai comer quem?” só para tentar entender a doideira.

Outra questão é que o vídeo existe e está sendo divulgado nas redes sociais sem a permissão dos participantes. Afinal, ainda que um deles possa ter enviado o arquivo para algum contato ou até publicado em alguma rede, a partir do primeiro repasse essa relação se perde. A justificativa triste e moralizante é de que “quem se expõe sabe das consequências”, o que é um tipo de juízo moral que não é novidade entre os gays, já que a sexualidade não coloca ninguém à parte do meio social. Mas claro, entristece.

Em maior ou menor grau, toda pessoa LGBT já sofreu censura à sua orientação sexual ou identidade de gênero. Assim, o sonhado esperado é que fôssemos um pouquinho mais tolerantes em relação ao sexo e às suas infinitas manifestações. Não é essa mesma comunidade que está “desconstruindo os padrões de beleza” (risos) com meia dúzia de festas com sexo liberado e ensaios de nu artístico com filtro do Instagram? De onde vem, então, o choque e o escárnio com um vídeo de sexo que nem mostra nada de diferente? Por que o “Caio Lima” vira notícia?

O melhor dessa história é o que ela esconde. Aliás, é o melhor do vídeo também.

Permita-se. Seja livre. Seja fabuloso.

Leia Dando Pinta todas as quartas, aqui em Os Entendidos, e não esqueça de curtir a nossa página.

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