Maria Bethânia saúda fim-de-ano com o disco “Dezembros”


Em 1986 Maria Bethânia retornou à companhia onde gravara o seu primeiro compacto simples, ao qual se destacou pela interpretação de “Carcará” (João Vale/José Cândido) no espetáculo “Opinião“, substituindo a cantora Nara Leão. Insatisfeita com a gravadora Polygram pelo descaso e fraca divulgação do álbum “A Beira e o Mar“, baseado no show “A Hora da Estrela“, inspirado no livro de Clarice Lispector, ela assina com a RCA-Victor. “Dezembros” era o nome do seu novo disco. Não tinha a força dramática de um “Pássaro Proibido”, não havia pano político, nem oposição, nem protesto. Bethânia estava mais leve, mais serena, mais romântica.

No alto dos seus 40 anos, ela parecia ter baixado a guarda e se deixou levar por um momento de maior tranquilidade, de como quem atingiu a maturidade e a consciência de que a vida tem ritmo próprio e é preciso deixá-la seguir seu curso, mesmo com tantas desilusões e adversidades. Para isto, contou com o apoio do irmão Caetano Veloso como diretor artístico e do produtor Guto Graça Mello, a fim de dar o formato mais adequado para que retornasse com louvor às paradas de sucesso.

As Canções…
Inicialmente um tema instrumental composto por Tom Jobim, feita sob encomenda para ingressar na trilha sonora da minissérie de mesmo título: O bolero “Anos dourados“. Só deu tempo de ganhar letra após o seu fim, por Chico Buarque. À Bethânia foi dada a chance de interpretá-la, pela primeira vez. A música possui clima nostálgico, com sentimentos que se confundem entre a ansiedade, a incerteza e a saudade, que se afloram ao ver a fotografia ao lado do seu grande amor.

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Também recebeu da cantora Marina Lima a inédita “Doce espera“, que posteriormente apareceria em seu próprio repertório no álbum “Virgem” (Polygram/1987). Bethânia nunca soou tão pop em um arranjo feito por Lincoln Olivetti envolto com sintetizadores e pelas guitarras do fiel parceiro, Robson Jorge. A letra que também lida com a expectativa de um segundo encontro fala em tesão, momento em que a ala feminina da MPB arrepiava, abordando temas considerados “tabu” sem o menor pudor. A faixa ganhou vídeo-clipe produzido pelo programa dominical “Fantástico”, gravado inteiramente em Salvador, com passagens por pontos turísticos, enquanto Bethânia passeia de barco pela Baía de Todos Os Santos.

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Na sequência, surge “Errei sim“, sucesso de Dalva de Oliveira gravado nos anos 50. Na época, o conturbado fim do relacionamento com Herivelto Martins, a roupa suja era lavada aos ouvidos do público. A música foi uma resposta à ofensiva “Caminho certo“, ao qual o ex insinuava que a cantora o traía com seus amigos. A réplica foi composta por Ataulfo Alves em sua defesa. Bethânia finalmente pôde realizar o desejo antigo de gravar um tema deste autor em momento oportuno, onde homenageava uma de suas intérpretes favoritas.
Trancham” também foi uma composição nova escrita especialmente por Gonzaguinha. De visão otimista, de como quem deu a volta por cima da tristeza, o samba festivo reafirma a esperança em um futuro mais feliz com fé e confiança de maneira “tranchã”: Categórica, decisiva e exata. O que foi, já se foi.
Quero ficar com você“, do mano Caetano foi eleita para ingressar a trilha sonora da novela global “O Outro“. Expressando desejo, a concretização deste relacionamento que a fez querer estar perto deste ser amado visa construir a durabilidade feita de “momentos bons e momentos maus“, resistindo atribulações.
Gostoso demais“, de Dominguinhos e Nando Cordel definitivamente foi o maior sucesso que impulsionou as vendas de “Dezembros”. Foram 500 mil unidades garantidas, antes mesmo de ir para as lojas.  A linguagem coloquial, simples,típica do interior na frase tô com saudade de tu” também denota o seu apreço pelo estilo sertanejo em pureza e simplicidade.
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Chegou o momento de admitir que o amor chegou ao fim. Não há mais saída, nem alternativa. A fuga do sofrimento nos versos da dolorida “Sei de cor” (Celso Fonseca/Ronaldo Bastos) como “Vou me iludir que é um sonho/Viro a cabeça para o outro lado/E vou sonhar que logo mais/Você já vem“, denota uma negação de que o sentimento acabou. Inclusive, esta canção foi  escolhida para ser tema da novela “Direito de Amar”, escrita por Walther Negrão. Leo Gandelman comparece fazendo um belo solo de sax.
Homenagem à Mãe Menininha do Gantois
MenininhaDoGantois-MariaBethania
 (Foto: Raimundo Silva/Agência: O Globo)
Se em “Sei de cor” Bethânia lidava com a perda de um amor, era vez de lamentar a perda de sua mãe espiritual, a ialorixá Mãe Menininha, que havia falecido em 13 de Agosto de 1986 de causas naturais aos 92 anos. Conhecida por sua luta contra a discriminação e a intolerância religiosa, ela dirigia o terreiro de origem Ketu localizado no Alto do Gantois, no bairro da Federação em Salvador -Bahia.
Foi Vinícius de Moraes, em 1970, quem apresentou a cantora à mãe-de-santo, estreitando relações com as práticas do lugar. Em sua homenagem, Caetano compôs  “Estrela do Meu Céu” com o apoio de Toninho Horta. Em reconhecimento ao seu legado, a letra se encerra, selando um compromisso: “A vida deve tanto à sua vida/Que cantar será vida eterna”.
O disco volta a ganhar clima de festa com levada de ijexá: “Yorubahia“, dos compositores baianos Jorge Portugal e Roberto Mendes. A música exalta as tradições afro-étnicas e culturais do seu estado de nascimento, usando dialeto típico como “nagô“, “gege” (ou candomblé jeje) , “ilê” (casa) e “alabê” (tocador de atabaque).
Encerrando a audição do disco, Bethânia recebe das mãos de Milton Nascimento uma composição inspirada em sua interpretação para “Na primeira manhã” (Alceu Valença), do disco “A Beira e o Mar”, que o deixou bastante emocionado. É possível ver no encarte do disco o bilhete escrito à mão, explicando as motivações que o levaram escrever, junto a Fernando Brant, sobre o ofício de cantar, da relação do artista com o palco e da paixão pela arte. Divindo as vozes juntos, Bethânia e Milton se unem nos versos que definem o comprometimento com o cargo que exercem: “Eu só sei que há momento/Que se casa com canção/De fazer tal casamento/Vive a minha profissão”.
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Passados 30 anos do seu lançamento, “Dezembros” se comparado com seus  trabalhos atuais , não foge do estilo já conhecido da artista em cantar aquilo o que seu coração sente, sem a preocupação de seguir modismos para se manter na crista da onda, fazendo concessões em nome do comércio.
Não houve desvios nem perda de identidade: “Dezembros” ainda é um disco que é a cara de Bethânia, com a sofisticação familiar dos arranjos, sempre rebuscados, com os compositores que gosta de ouvir. É pra ser escutado como quem encerra o expediente com a sensação de dever cumprido, sem pendências. Como quem avalia o fim-de-ano com balanço positivo, fortalecendo os passos com os abraços dos amigos. Tem clima de retrospectiva, mas com o olhar visando novos horizontes e outras oportunidades.
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