Faz sentido ter uma “identidade gay”?


Algumas coisas parecem não fazer sentido. Bicha crente, bicha que defende o Fidel, bicha que é contra o capitalismo, bicha racista, bicha misógina, bicha transfóbica, bicha heteronormativa, bicha que não gosta da palavra bicha, bicha que defende a palavra bicha… É aquilo, o que é estranho para uns pode ser perfeitamente compreensível para outros. Então talvez o problema esteja em esperar uma coesão entre os gays, como se a orientação sexual fosse – de fato – o passaporte para algum mundo místico onde todos pensam, agem e principalmente, sentam sentem igual.

DandoPintaSloganA identidade é múltipla. Assim como a própria carteira de identidade amarela com o tempo, vence ou implora para ser trocada quando fica impossível ligar a foto à pessoa, a forma como nos identificamos socialmente, como somos percebidos ou nos apresentamos, também varia. Dá até para dizer que somos principalmente alguma coisa, seja por afinidade, vivência, whatever, mas mesmo a pessoa mais entediante do mundo não é a mesma o tempo todo, em todos os lugares ou em todos os momentos da vida. E isso vira problema quando pensamos em identidades sexuais.

Não precisamos discutir se desejo ou orientação sexual muda. Ainda que uma pessoa siga a vida inteira desejando e praticando uma única coisa, isso só fala sobre o que ela deseja e pratica no momento exato em que está fazendo alguma dessas coisas. Pode até ser que, dada essa estabilidade, a gente possa imaginar que ela nunca vai desejar ou praticar outra coisa, mas por mais provável que isso possa ser, será apenas uma possibilidade.  Confuso, né? Eu sei.

O problema é que a ideia de identidade sexual é uma invenção, a utilização de uma definição específica para transformar um desejo ou uma prática na essência do indivíduo. Nós só viramos “os gays” porque somos tratados dessa forma, como uma nova espécie. Um segmento social definido por práticas sexuais, orientação afetiva, meia dúzia de comportamentos considerados “de gay”, uma produção cultural que pode ser catalogada sempre que essas práticas ou certos temas são representados e fim. Não existe uma marca física, um tom de pele ou país de origem. Somos parte de uma comunidade imaginária que existe em paralelo às vidas que levamos no mundo “normal”, e sustentamos a nossa diferença apenas por existir, então é justamente o conceito de uma “identidade sexual” que mantém a diferença entre “hétero” e “homo” que é a chave da hierarquização entre os dois rótulos.

Existe bicha de tudo quanto é jeito porque ser bicha é só mais uma coisa dentro de um todo enorme. Cada pessoa é um universo em si. Então tem gente que é ateia e curte signos, tem pobre neoliberal, tem de tudo. Pro bem e pro mal, desde que o mundo é mundo. Lógico, dá para esperar um pouco de coerência quando se compromete a defender esta ou aquela causa, mas em geral as nossas paixões e pensamentos se apresentam de forma mais complexa. E quando falamos em identidade, é preciso lembrar que elas se apresentam com mais ou menos valor de acordo com a necessidade.

Eu sou um homem cis gay. Sou branco, sou brasileiro, sou carioca, sou ator, sou escritor, sou formado, sou estudante… Sou muito mais e tudo isso é parte de mim, sem que nenhuma dessas coisas possa me definir singularmente. Então aqui, em um texto de uma coluna sobre homossexualidade masculina, estão acionadas e combinadas as identidades gay, masculina, de escritor, de cientista social, de blogueiro, etc. Amanhã, na faculdade, estará a minha identidade de estudante. Se rolar algum flerte, pode ser que a identidade gay precise se manifestar também. E se rolar algum caso de homofobia no campus ela vai se manifestar com força, assim como as identidades de militante, de imprensa, de vítima ou de apoiador e de qualquer outra que se faça necessária. Isso tudo, antes do meio-dia.

O problema com uma identidade sexual é que ela só tem valor enquanto fazemos sexo. É só ali, naquele momento íntimo, que ela realmente é. No mais, esse conceito precisa de outras identidades para ser vivido como tratamos “gay”, “lésbica”, “bissexual”, “assexual” e afins. Dizer que uma identidade é construída socialmente não significa dizer que ela é falsa ou que pode ser revertida, e sim que a própria formação do nosso entendimento do que somos é relacional. Estamos sempre em relação. No caso das identidades homossexuais, infelizmente a relação é de inferioridade em relação a um modelo considerado “correto”, então temos a vivência marcada pelo estigma, pelo medo da rejeição e da violência, mas também a pulsão erótica e uma infinidade de pessoas e lugares que ajudam a comunicar esse pertencimento. Isso sem falar em todo um movimento político, uma bandeira e uma parada. Existe o ORGULHO. E talvez seja aí, nesse momento de virada em que um xingamento é transformado em grito de guerra, que faça sentido acionar uma “identidade sexual”.

Faz sentido ter uma identidade se não for para defendê-la?

Permita-se. Seja livre. Seja fabuloso.
Leia Dando Pinta todas as quartas, aqui em Os Entendidos, e não esqueça de curtir a nossa página.

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