A internet acabou com as cantadas ou mesmo com um “oi, tudo bem”?


Você acorda e dá aquela olhadinha básica no celular. Afinal, durante a madrugada sem tem alguém de um grupo compartilhando alguma coisa e de repente tem alguma novidade sobre o trabalho ou a faculdade, nunca se sabe. Na galeria, uma bunda e três paus. Como essas fotos foram parar ali? E mais importante, essa bunda é de quem? Chegam as notificações. “Me come agora”, “rola real”, “a fim de uma mamada antes do trabalho”… Sério, não são nem 9 da manhã!

DandoPintaSloganHomens gays são hiperssexualizados. É lógico que estamos longe de passar pelo que enfrentam as mulheres, ainda mais quando são trans e/ou negras, ou pelos negros em geral, mas somos hiperssexualizados. Em parte, isso ocorre pela criação machista da masculinidade e de uma sexualidade predatória nos meninos, além da relação de inferioridade que transforma em coisa disponível tudo aquilo que é feminino ou simplesmente “não masculino”. Junte-se a isso o fato de que as identidades sexuais são definidas por práticas e desejos relacionados ao sexo, e fica fácil entender como o “personagem social” do LGBT é percebido majoritariamente como um “ser sexual”.

Mas a gente pensa, né? Dá para melhorar isso aí!

Atualmente, argumenta-se que os aplicativos e as redes sociais estão acabando com espaços clássicos da cultura gay como bares e boates. Não há o que fazer quanto a isso, já que essas tecnologias chegaram para ficar, mas a situação também não é tão drástica. Há pessoas que não curtem essas plataformas e logicamente a interação ao vivo é diferente, sem falar que o preconceito ainda faz com que muita gente recorra a espaços underground como parques e cinemas pornô, saunas e banheiros públicos, sem contar quem frequenta por curtir mesmo. De qualquer forma, nesses espaços é comum que as pessoas sejam mais atiradas, a coisa é olho no olho ou mão naquilo, aquilo na mão. Na internet, não é bem assim.

No caso dos aplicativos, é claro que tudo depende do perfil. Enquanto algumas pessoas já colocam logo que estão ali só para sexo e que não querem enrolação ou mesmo perguntar o nome – e tudo bem com isso – , há pessoas que colocam nome e sobrenome, foto de rosto e que até escrevem com todas as letras que estão ali para conversar ou encontrar algum relacionamento. Seja isso possível verdade ou não, não é porque elas estão usando um “app de pegação” que é adequado mandar um foto pelado antes de pelo menos um “oi” ou, melhor ainda, de saber se a pessoa está interessada em receber algo do tipo. E não, não importa o quão maravilhoso é o seu corpo ou parte dele!

Em redes sociais como o Facebook isso é ainda pior, já que os perfis ali são mais pessoais e a princípio o espaço não é para sexo/namoro e nem é limitado ao público gay masculino. Nessa rede o assédio é mais criminoso, pois há homens que enviam fotos e mensagens explícitas para homens gays, apenas por achar que “viado gosta disso”, mas também para mulheres – especialmente as trans – e drag queens, para lésbicas e até para crianças de qualquer sexo ou idade.

A questão, como sempre, não é a ferramenta e sim o uso que se faz dela. A separação entre o mundo virtual e o real é cada vez mais discutível, já que grande parte das nossas interações é mediada de alguma forma pela internet. Em uma sociedade individualista – pro bem e pro mal – e com tudo na palma da mão, é preciso pensar sobre esse formato de relação também, especialmente quando fazemos parte de um grupo social marcado por fragilidades específicas.

Ah, tem problema querer transar, curtir, gozar ou ser mais direto? Claro que não. O problema é tentar fazer isso com quem não está na mesma sintonia. O que não falta são perfis, grupos, festas, sites e até listas de e-mail para conhecer gente que tope qualquer coisa, das mais tranquilinhas às mais hardcore, então não há porque cismar justo com quem não deu confiança. E se a onda é “conquistar quem é difícil”, que tal tentar começar com um “bom dia” e perguntar se a pessoa está bem, o que gosta, etc? De repente ela vai mandar nudes e topar altas loucuras dali a um ou dois dias, mas prefere uma abordagem inicial menos agressiva. Nunca se sabe.

Permita-se. Seja livre. Seja fabuloso.

Leia Dando Pinta todas as quartas, aqui em Os Entendidos, e não esqueça de curtir a nossa página.

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