Os aplicativos são o novo cenário da “tragédia gay”?


A notícia é assustadora e causa horror justificado: três homens gays da cidade de Uberlândia (MG) foram assassinados depois de marcar encontros através de aplicativos de relacionamento. Não é a primeira vez. Quando as atenções do planeta estavam voltadas para a perseguição homofóbica na Rússia, foi divulgado que os aplicativos eram usados por grupos radicais para preparar emboscadas contra jovens gays. E claro, se vez ou outra esse tipo de coisa ganha repercussão, é porque provavelmente a quantidade de casos ocorrendo sem notificação é muito maior! Entretanto, não é exatamente disso que falarei hoje.

DandoPintaSloganJá virou  até piada. Na era das redes sociais, todo mundo sabe que evitar a parte de comentários de qualquer notícia é mais saudável, a não ser que se queira ver o pior da humanidade despejado em frases grosseiras, preconceituosas e mal escritas. Mas como tudo, serve de experimento sociológico, e dentro do que essa coluna discute eu sem dúvidas recomendo a leitura dos comentários em qualquer notícia de sites LGBT. Não vou dizer que o G1 perde, mas olha…

Muitos textos da coluna saíram desses espaços. Quando o assunto são gays afeminados, frases como “essa bicha não me representa”, “é por isso que não somos respeitados” ou o clássico “nada contra, mas” são comuns, enquanto notícias sobre homens másculos e sarados costumam ser acompanhadas de variações de “quero” e “delícia”. Homofobia internalizada, discriminação, racismo e falocentrismo à parte, certamente que as reações mais chocantes são as de notícias de estupro – fetichizando a violência ou até assumindo a vontade de cometer um crime – e de casos como o de Uberlândia, quando a chuva de moralismo termina efetivamente culpando as vítimas.

Ah, mas nem todo mundo faz isso. É óbvio que não! Acontece que ao invés de apontar generalizações ou contar causos maravilhosos sobre o amigo do amigo que nunca foi assim ou assado, como costuma acontecer na internet, o movimento necessário é justamente o de não pessoalizar as coisas. Se um comportamento se repete diversas vezes, com pessoas diferentes, em lugares diferentes, é lógico que ele serve para uma análise social. Ao contrário do que muitos parecem defender, ninguém nasce “pronto”, então conceitos e opiniões vão se formando e sendo reformuladas de acordo com o meio. Quando pensamos em um grupo social – o gay, por exemplo – focamos nas experiências comuns dentro de um limite de tempo ou espaço geográfico e político, o que é uma forma de entender questões gerais que – aí sim – afetam a formação dos indivíduos. Ou seja, se você ou seu vizinho não fazem alguma coisa, ok. Tem gente que faz.

Tudo isso para dizer que não há porque buscar justificativas e desculpas para as mazelas da comunidade gay. Cada caso é um caso, mas a construção histórica, social e política da nossa identidade ainda faz com que algumas experiências sejam comuns, e por isso mesmo ainda somos percebidos como um grupo. É nesse contexto que as diferenças são transformadas em disputas dentro da própria comunidade, até porque suas fronteiras indefinidas admitem pessoas muito variadas. Assim, há quem lute pelo direito de casar, há quem lute pelo direito de transar. No fim das contas, o que todo mundo quer e precisa é respeito, e ele precisa vir não só do “mundo hétero” mas também rolar entre nós.

Aplicativos podem ser perigosos e problemáticos sim, mas isso não é inerente a eles. Uma ferramenta é apenas uma ferramenta. Pro bem ou pro mal, eles agora fazem parte da vida social gay na maior parte do mundo, o que é ainda mais radical para as gerações que já nasceram conectadas. Problematizar usos e discursos é necessário para que se consiga compreender o fenômeno e definir linhas de ação necessárias ou desejáveis, de acordo com o tipo de sociedade que esperamos construir. Por isso mesmo, não faz sentido acusar ou culpabilizar os usuários por coisas como a homofobia que sofremos no dia a dia, o estereótipo da promiscuidade, a associação entre homossexualidade e DSTs, o suposto colapso das relações afetivas ou, como no caso de Uberlândia, da própria morte.

É um discurso perigoso porque estigmatiza e porque reproduz os preconceitos que ajudaram a demonizar a homossexualidade, a colocá-la em seu papel trágico de inferioridade. Além dos discursos religiosos e científicos, é nessa “moral social” que o nosso lugar de desvio foi inscrito. Na ideia de que nossas práticas, desejos e afetos são vergonhosas, de que só devem ocorrer sob as sombras, e de que a doença e a violência são castigos – considerados justos – que definem nossos destinos. Aliás, é por isso que tantos filmes e livros que tratam da homossexualidade terminam em tragédia. Embora muitas vezes se esteja apenas retratando a realidade, há também a produção de uma mensagem de que é esse o nosso lugar, e é essa mensagem que alimenta a rejeição “do lado de lá” e pior ainda, dentro de nós.

Como sempre, vale a máxima do “deixa os outros”. É importante se cuidar, e quem não gosta de fazer certas coisas não é obrigado, mas também não vale tratar alguém que foi vítima como culpado da sua desgraça.

Permita-se. Seja livre. Seja fabuloso.

Leia Dando Pinta todas as quartas, aqui em Os Entendidos, e não esqueça de curtir a nossa página.

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