Precisamos falar sobre Liniker


Liniker canta. Sua voz é poderosa e doce. Usa batom, brincos e saias. Sua pele é negra. Liniker já se definiu como “negro, pobre e gay”, no masculino, mas identifica-se como uma pessoa não-binária. De qualquer forma, seu corpo é político. Sua arte tem essa potência.  Ainda assim, apesar do sucesso, Liniker vem sofrendo ataques que questionam sua identidade de gênero. O fato de seu corpo ser parte do produto vendido em seus discos gera revolta. Uma revolta que, curiosamente, não parece atingir pessoas brancos com discurso semelhante…

DandoPintaSloganDá para entender quando ativistas LGBT ou estudiosos em Gênero e Sexualidade pegam alguém como Liniker como exemplo ou caso de pesquisa – aliás, é o que estou fazendo nesse texto. Afinal, além de ser um artista que desafia as normas de gênero – e que capitaliza com isso – , Liniker é também um artista que virou notícia em inúmeros portais precisamente por isso. Ou seja, sua carreira é um fenômeno que serve para denunciar o fascínio da sociedade com o assunto. E só. O que não dá para entender – e que é francamente imperdoável – é que tenha gente indo até as redes de Liniker para xingar, fazer ameaças e “piadas”. Primeiro porque ele não pediu opinião, segundo porque não precisa de permissão para viver e ser quem é.

Não falarei sobre a solidão do preto gay. Esse lugar não me pertence e espaços como o Tumblr “Bicha Nagô” ou a coluna “Enegrecendo” aqui do site dão conta do assunto com a profundidade que eu jamais conseguiria. Outras questões pertinentes, como a fetichização do homem negro e cobrança de uma masculinidade exacerbada, validada pela prática sexual no papel de ativo, também são discutidas, então recomendo fortemente a leitura.

O que quero é fazer uma comparação.

No começo do ano, viralizou uma foto do ator Bruno Gagliasso usando um vestido. Apesar das manchetes que falavam em “desafio às normas de gênero” (inclusive em sites LGBT), a foto não era de nenhuma ação política e sim de uma “festa dos trocados” onde a BRINCADEIRA era ter homens vestidos de mulher e vice versa. E tudo bem, isso não é problema e nem desqualifica declarações e ações do ator em apoio à causa LGBT. Só denuncia o problema hierárquico entre as definições de “hétero/homo” e “masculino/feminino”.

Na época, escrevi um texto pensando a questão em relação ao comediante Paulo Gustavo, dizendo basicamente que embora todo apoio seja positivo e digno de agradecimento, é preciso tomar cuidado para não ultrapassar a linha da adoração e acabar reafirmando posições de poder. Quer dizer, é lógico que é louvável quando alguém enxerga além dos próprios privilégios e ajuda em uma causa que não é sua, mas exagerar no aplauso envia a mensagem de que essa pessoa é – de fato – SUPERIOR e está – magnanimamente – auxiliando os INFERIORES. É uma linha tênue, mas está lá.

Fora essa questão de “hétero bondoso versus bicha necessitada”, comparar o episódio do Gagliasso com os ataques sofridos por Liniker adiciona o preconceito racial à mistura. Afinal, se o galã hétero branco de olho azul coloca um vestido por zoeira e isso é suficiente para fazer ecoar gritos de “cabô transfobia”, porque será que um gay negro que se apresenta SEMPRE com roupas e acessórios considerados femininos é xingado, problematizado e acusado de ser fake? Vamos lá, vamos pensar juntos, PORQUE SERÁ? Pois é!

Nesse contexto, não é de espantar que tantos homossexuais e transexuais negros estejam rejeitando os rótulos LGBT, pelo menos no que diz respeito aos movimentos sociais. Diga-se de passagem, se os grandes espaços de pegação da “geração rede social” são os aplicativos, fica fácil ver o racismo declarado como gosto ou mascarado na fetichização, e “no lado mais sério do arco-íris” as coisas não ficam melhor, visto o apagamento das contribuições negras para a nossa história. Ao que parece, o “verniz de aceitação” emprestado por meia dúzia de conquistas ou nichos de representatividade é suficiente para que a comunidade LGBT esqueça que ser “minoria” é estar do mesmo lado que TODAS as minorias.

É lógico que isso não significa que se espera que alguém seja uma pessoa melhor ou pior apenas por causa de sua sexualidade. Essa “comunidade” que tem como rito de entrada o desejo obviamente inclui todo o tipo de pessoa, com as mais variadas origens, preocupações, falhas, religiões e problemas. Então é lógico que racismo, misoginia e transfobia também são problemas nossos, internos e externos, mas é bom lembrar que além de serem posturas criminosas e lamentáveis, são também posições que ajudam a esfacelar um grupo que PRECISA lutar unido.

Com o cenário político atual, eu não apostaria que direitos concedidos à caneta há alguns anos já estivessem garantidos, então aqueles que não querem admitir e enfrentar o próprio racismo poderiam pelo menos pensar nisso. E sobre Liniker, que tal deixar a pessoa cantar em paz?

Permita-se. Seja livre. Seja fabuloso.

Leia Dando Pinta todas as quartas, aqui em Os Entendidos, e não esqueça de curtir a nossa página.

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