Nós odiamos a The Week?


Era uma festa com drags do RuPaul e aquele público montadíssimo no glitter, descontruidex. Por acidente, já que a casa tradicional teve um problema, o evento foi parar na pista pop – e secundária –  do templo máximo do bate-estaca-bombado-sem-camisa-aditivado. Uma emergência. Foi preciso “tirar da cartola” um novo espaço para não cancelar o evento. Aconteceu no Rio, mas poderia ter acontecido em qualquer lugar. Assim como a “guerra” que se revelou…

DandoPintaSloganQuem é mais e quem é menos intolerante? O mar de descamisados que nem olha para os que se empoderam com maquiagem ou os tombadores de opressão que suspiram com desdém por estar naquele espaço? Como um espaço, uma marca, vira sinônimo de um tipo específico de gente que causa atração ou repulsa? Quando que em meio a um todo estigmatizado surgiu “bicha theweekeira” como categoria de acusação, a ponto de isso ser transformado até mesmo em tema de pesquisa?*

Categorias, classificações, hierarquias, tudo sempre em relação. Identificar-se como parte de uma “tribo” passa pelo entendimento daquilo que não se é, pela rejeição – violenta ou não – do “outro”, do oposto. Como a noite e o dia, enxergamos o mundo em extremos binários e as tardes que se virem para encontrar um jeito de pender para um lado ou para outro, de acordo com alguma escala qualquer! É assim que a tal “guerra” se instaura, ainda que os perdedores estejam em ambos os lados, já que trata-se de uma guerra de fodidos. De sujos falando dos mal lavados!

Sim, ética é importante. Seria lindo se o mundo e particularmente a comunidade LGBT fosse mais inclusiva, se a diversidade fosse não apenas respeitada mas também celebrada, e que padrões opressores de beleza e consumo não tomassem tamanha importância em nosso meio. Entretanto, esses problemas ultrapassam as nossas invisíveis barreiras arco-íris. São estruturais, sistêmicos. É óbvio que um indivíduo pode tentar entender a mecânica por trás de conceitos e preconceitos e tentar desconstruí-los, mas para além de uma “polícia dos desejos” que é ineficaz e cria uma barreira de comunicação, o que precisa ser discutido é a produção desses abismos hierárquicos em âmbito social. Tudo bem, o sexo, a moda e a música também são parte disso, mas seja pelo motivo que for, sempre vai existir quem curta mais isso ou aquilo. O que não pode continuar é a hierarquização, por mais “automática” que ela seja.

Tem gente que acha melhor problematizar os efeitos de diversos estímulos em nossa cultura, tem gente que acha melhor fazer esforço para adequar-se um ideal qualquer. Tem gente até que já nasce “ideal”, sem ter culpa nenhuma de ser rica ou “bonita”. Essas trajetórias e esses cenários vão construindo nossas subjetividades e formando “gostos” e “opiniões”, moldando nossas visões críticas do mundo, mas os extremos da “bicha pão com ovo” e da “bicha theweekeira” revelam apenas o quanto as doenças de nossa sociedade individualista servem para minar as alianças necessárias para vencê-las. É o sistema funcionando em sua melhor forma. Em sua mais perfeita estrutura.

Não sei se existe uma solução perfeita para esse problema. Na verdade, é provável que a coisa mais respeitosa a fazer seja simplesmente aceitar as diferenças e entender que nossa “comunidade”, com suas fronteiras redefinidas a cada dia, sempre será heterogênea. É importante problematizar a nossa relação com o mercado porque ainda que o nosso reconhecimento como nicho possa servir para algumas pautas, evidentemente não vai contemplar todas, e isso vira um problema quando cria um imaginário social específico sobre o “ser gay” que é excludente. O problema não está no “universo perfeito” da The Week ou de qualquer outro lugar semelhante, mas no poder dessas representações de PRODUZIR a nossa identidade social.

Para além do sexo ou do amor, é nessa “arena social” que se define o que é “gay”. Por isso existe a disputa. Desde os primórdios do movimento LGBT – ou seja, desde a invenção dessa identidade como parte do teatro social – existe a tensão entre “discretos” e “afeminados”, “assimilacionistas” e “revolucionários”. Dependendo do momento histórico e dos lugares, cada uma dessas forças vai funcionar de maneira mais potente nas estratégias do movimento político, e isso nos move. As pessoas dizem querer evitar conflitos, mas eles são parte do corpo político. As coisas precisam ser confrontadas de vez em quando, até para que seja possível “separar o joio do trigo” e apontar as condutas, as falas e os lugares que são potencialmente perigosos.

É mesmo uma “guerra de fodidos” porque no mundo LGBT, com todas as suas idiossincrasias, disputas e desuniões, somos sempre “um contra o mundo”. Não importa a nossa “tribo”, o nosso grupo dentro do grupo. A relação social que estabelece a heterossexualidade e a cisgeneridade  como norma coloca TUDO que é “não-hétero” e “não-cis” no mesmo saco. Brigamos, apontamos, criticamos, tretamos, damos like, dislike, transamos, recusamos, curtimos, não curtimos… Mas é no amô. Por que contra uma bancada de políticos fundamentalistas, um atirador ou neonazistas à brasileira, com suas lâmpadas fluorescentes, somos o alvo.

A gente não briga, discute. E mesmo que seja chato, volta disso melhor. Mais forte.

Permita-se. Seja livre. Seja fabuloso.

Leia a Dando Pinta todas as quartas, aqui em Os Entendidos, e não esqueça de curtir a nossa página.

 * “Consumindo lugares, consumindo nos lugares: homossexualidade, consumo e produção de subjetividades na cidade de São Paulo”, de Isadora Lins França. Imperdível.

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