Nada é mais triste que um gay de Esquerda?


Uma vez eu disse que “Nada é mais triste que um gay de Direita”. Hoje quero voltar ao tema e de repente defender o contrário, talvez porque o clima político no Brasil e no mundo só possa ser definido como “triste” para quem é de Esquerda. E tudo bem, nessa polarização é evidente que um lado só “ganha” quando o outro “perde”, mas a tristeza de pensar nisso sob a ótica LGBT é que não existe chance de vitória. Existe o sistema, existe o poder e aqueles que o detém, e existem “os outros”, os eternamente excluídos. Gays são “de Esquerda” querendo ou não.

DandoPintaSloganNa verdade, um “gay de direita” é fácil de entender. As denúncias de que os gays só se preocupam com o próprio umbigo, são misóginos, transfóbicos e politicamente desarticulados não se explicam por alguma razão genética ou espiritual da homossexualidade, até porque nada em sexualidade pode ser tratado como essencial. Tampouco trata-se de um desvio ou problema, de “culpa” ou “maldade” desses indivíduos. A questão está na construção social do “ser gay” nas últimas décadas.

Como digo sempre, “gay” é um papel social que só existe em oposição ao de “hétero”. Eles se complementam. Não cabe discutir se há pessoas que se relacionam amorosa e sexualmente apenas com pessoas do mesmo sexo ou de sexo diferente, é óbvio que há. No mundo tem de tudo e o que conseguimos imaginar é sempre a ponta do Iceberg! O problema é SOCIAL porque é apenas no que concerne o trânsito das pessoas em sociedade que seus gostos e suas práticas são transformadas em estandartes de aceitação ou rejeição. E é nesse contexto, depois de todo o histórico de formação do movimento LGBT e da crise da AIDS que, nos anos 90, essas identidades começam a ser positivadas como nicho de mercado.

O problema não é o dinheiro. Frequentemente a crítica ao capitalismo derrapa para uma demonização do dinheiro e do consumo que é ineficaz, já que o sistema vigente é esse e é com essa realidade que se precisa lidar. É óbvio que o movimento LGBT – particularmente no que diz respeito ao G, os homossexuais masculinos – conseguiu legitimar algumas de suas pautas ao ser reconhecido como um mercado. Esse processo aconteceria independente de alguma vontade ou estratégia do movimento – que não possui um cérebro consciente arquitetando coisas, vale lembrar –  porque é relativo ao sistema capitalista como um todo. E muitas vezes é positivo sim, até porque quem precisa de alguma coisa não pode ficar esperando que a sociedade tenha algum arroubo de nobreza. O lado ruim é o que isso produz.

É ótimo sentir-se seguro, mas o verniz de inclusão acaba cegando as pessoas. A exclusão é a experiência definidora da identidade gay, da identidade negra ou do “tornar-se mulher” porque é ela que transforma em “minoria” um número incalculável de pessoas que sempre fez parte da malha social. Não é bonito ser um excluído e nem essa vivência vai necessariamente criar pessoas super conscientes, defensoras dos fracos e oprimidex, mas estar à margem pelo menos abre essa possibilidade. Pode sensibilizar o olhar. E na ciranda de gênero, classe, raça, educação, emprego, saúde e poder de consumo, os indivíduos vão ficando mais ou menos próximos de algum extremo. Aceitos ou rejeitados, “bons” ou “ruins”, Direita ou Esquerda. O que volta à nossa questão inicial.

É óbvio que tem gay, travesti, lésbica ou negro de Direita. Alguns não precisam nem ter uma situação econômica confortável para defender ideais neoliberais. No ambiente de disputa – tão natural e infelizmente tão temido – da militância, essas pessoas estão sendo utilizadas para demonizar o conceito de “lugar de fala” (quando, na verdade, o que se deseja criticar é o autoritarismo ou o silenciamento) ou, quando chegam ao poder, para defender a meritocracia e desqualificar como “vitimismo” qualquer eixo analítico mais tradicional à Esquerda.

De novo, no mundo tem de tudo. E é muito triste ver um gay de Direita. É triste porque mesmo que essa pessoa possa estar plenamente incluída no sistema e possa defender essa bandeira individualmente, uma parte indissociável de sua identidade estará SEMPRE à Esquerda. Mesmo que o sistema permita alguma liberdade, mesmo que o mercado impeça algum retrocesso. Ser gay é ser “o outro”, é ser “o negativo” através do qual um outro conceito se positiva. E enquanto esses rótulos tiverem validade, essa relação vai se manter. Uma relação, aliás, que permeia tudo que é definido como direito ou esquerdo, desde a linguagem e o uso das mãos até o posicionamento político mesmo.

Mas “tamos aí” né, num mundo cada vez mais conservador, “cortando gastos” em saúde e educação porque é mais importante que um país seja convidativo para os investidores. Uma tristeza. Daquelas que se sente no coração. Aquele, do lado esquerdo…

Permita-se. Seja livre. Seja fabuloso.

Leia Dando Pinta todas as quartas, aqui em Os Entendidos, e não esqueça de curtir a nossa página.

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