Entre primeiras-damas decorativas e sinhás: o novo velho Brasil patriarcal


É isso, regredimos. O golpe de 2016 não é apenas político, mas também moral. O projeto conservador está em prática política e economicamente, e o moralismo mais bolorento vem como artifício de sustentação desse projeto, e isso inclui apelar para o uso da mulher como peça funcional para o mundo dos homens.

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Nos últimos dias, vimos a manifestação disso nas figuras de Marcela Temer e Bia Dória, duas mulheres que agora não passam de primeiras-damas, servindo à construção da imagem da administração de seus maridos. Ambas personificam o tratamento da mulher como existentes apenas se incluídas em uma família tradicional. Para que seja reconhecida como indivíduo social, ser plenamente real e existente, a mulher deve estar a serviço do funcionamento dessa família, atendendo a todos os princípios estruturais do conceito.

Marcela Temer assume uma imagem de moça humilde com seu vestidinho que parece ter sido cosido à mão por sua avó para compor seu enxoval de casamento na década de 30 – distanciando-se completamente da imagem pré-golpe de mulher do vice, toda montada na Oscar Freire. Marcela se apresentou assim para lançar o programa Criança Feliz, do qual é embaixadora. Se a pec 241, que visa congelar por 20 anos investimentos em saúde, educação e assistência social não estivesse prestes a ser aprovada, poderíamos acreditar que o programa de Marcela Temer não é, na verdade, uma demagogia fajuta para dissimular o projeto de governo excludente do seu marido. A mulher do recém-eleito prefeito de São Paulo, Bia Dória, concedeu uma entrevista assumindo também o papel de primeira-dama de um mandato que se apresenta popular atrás de uma figura elitista, Jorge Dória. No caso de Bia, não há imagem construída em figurino pretensamente despretensioso: ela se autoconcedeu o título de “Evita Perón”, alguém “do povo”.

Surfando na onda do antipetismo, tanto o projeto golpista quanto essa releitura do Chiquinho Scarpa se aventurando na política prometem atender a uma demanda por uma “nova” política, que de nova não tem nada. O clientelismo típico do Brasil colonial – muito bem representado por Machado de Assis, em Dom Casmurro e muito bem interpretado por Roberto Schwarz – retoma o fôlego que, na verdade, parece nunca haver perdido. Se oferecem como a salvação do país, tentando esconder que trabalham para as elites e para o capital privado estrangeiro e nacional (no caso de Dória, o dele próprio). O modelo paternalista, que estabelece um centro em torno do qual orbitam os grupos sociais dependentes, completa seu quadro trazendo de volta a figura da sinhá: a mulher do coronel, que se apresenta como a grande protetora dos negrinhos que na verdade ela mantém sob regime de escravidão. A esse modelo Bia Dória parece atender bem quando conta com orgulho da assistência que prestou aos empregados de seu ateliê, a quem deu dentes e bom plano de saúde.

O assistencialismo não é novidade, mas a promessa neoliberal, que afirma que apenas o mercado é capaz de diminuir a pobreza – desde que o pobre mereça, é claro –, redistribuindo sua riqueza – desde que seu privilégio sócio-econômico seja mantido –, já que o Estado é incompetente e corrupto. É esse discurso que parece estar seduzindo os votos e o silêncio de grande parte da população brasileira nessas eleições e diante do golpismo. Nesse contexto, a figura da mulher independente, progressista e resistente aos ataques da oposição, personificada em Dilma Rouseff, está sendo substituída pela figura da sinhá, a mulher da família tradicional brasileira, a quem se atribui facilmente nobreza de espírito e humildade, numa sociedade em que jamais se negaria admiração a alguém da classe dominante. Mas que, na verdade, serve ao status quo patriarcal, para o qual não tem nenhuma outra função, e com o qual aprende bem a desfrutar dos privilégios de classe.

Sim, retrocedemos. Voltamos ao Brasil desigual, dividido em casa grande e senzala. Ao Brasil dependente do mercado internacional, ao estatuto de colônia. Mas também retornamos ao Brasil em que a mulher não existe como indivíduo, apenas como peça formadora da família tradicional e da sociedade de classes. Como acessório de seus maridos. Como óleo da engrenagem de um capitalismo em sua estrutura ultrapassado, até mesmo para o Brasil. Como primeira-dama decorativa. Como agregada dos dirigentes do patriarcado.

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