GAY: Identidade borrada


Enquanto há quem diga “eu nasci assim, eu cresci assim” sem nem se chamar Gabriela, há quem diga que “se descobriu” em tal momento, quem “só curte” e quem é “fora do meio”. Tem gente que diz que “se curou” e outros que estão procurando essa tal cura. E claro, tem a galera que bate no peito, lacra, tomba, quer fazer a revolução do glitter e o escambau! Tem os que consomem e os que são consumidos, e os que querem consumir e não podem. Disputas, fetiches, interdições, apelidos bizarros em aplicativos de pegação. Alguns só não querem pensar nisso…

DandoPintaSloganOntem eu estava assistindo “Finding Prince Charming”, que é um reality show do canal LOGO – o mesmo de “RuPaul’s Drag Race” – vendido como “histórico” por ser o primeiro nesse formato estrelado exclusivamente por homens gays. A fórmula é conhecida, os participantes ficam confinados numa casa, participando de jogos e brigas enquanto tentam conquistar o grande prêmio: o coração do tal “príncipe encantado”.

Bem, para quem gosta, vale a pena assistir. Com ou sem críticas, é entretenimento. Só que não dá para deixar de notar o “tipo de gay” que participa do programa e, obviamente, para quem ele se dirige. Ali, temos uma seleção de homens extremamente parecidos, com vozes impostadas e dentes super clareados, profissões como “designer de interiores”, “esteticista” ou “dono de clínica de bronzeamento” e o principal, a vontade de encontrar uma “alma gêmea” porque a vida de promiscuidade “da cena gay” não interessa mais. E tudo bem. Tudo bem mesmo.

Já falei algumas vezes sobre relacionamentos, discursos moralizantes, padrões de beleza, nichos profissionais, etc. É só procurar aí no histórico da coluna. Para muitas pessoas, eu e outros militantes só sabemos criticar esse povo bonito e rico por inveja, recalque ou para caçar like nas rodinhas de esquerda, mas para mim a questão nunca foi apontar para os indivíduos e marcá-los como vilões. O que me interessa são os fenômenos sociais, o que se revela em uma escala maior. É por isso que evito falar em primeira pessoa nesse espaço, contar da minha vida ou utilizar pessoas como exemplo, exceto no caso de alguma celebridade ou de alguém que tenha “causado” muito.

Enfim, tudo isso para dizer que esse texto não é uma crítica ao programa, às pessoas que ele apresenta e representa e nem a quem assiste. O que me chamou a atenção foi ver, mais uma vez, o tipo de produção gerada atualmente quando algo é feito “por gays e para gays”. É claro que no caso estou analisando um reality show estadunidense, de um canal pago, o que cria um abismo social, cultural e econômico enorme, mas guardadas as devidas proporções a nossa realidade não é muito diferente…

Os problemas com “boys padrão”, endeusamento da masculinidade, racismo, afeminofobia, gordofobia, misoginia, lesbofobia e transfobia dentro da comunidade gay são reais, até porque essa “comunidade” não está à parte do mundo real. Ela é composta por todo tipo de gente, com todo tipo de trajetória. Não é POR ACASO que personalidades e veículos gays de sucesso não estão colocando na roda essas questões, e sim porque produtos como esse reality ou o do RuPaul, e mesmo as boates e aplicativos produzem uma IMAGEM SOCIAL do que é GAY. E sempre que se produz um ideal sobre alguma coisa, automaticamente são produzidos seus opostos. Toda a sorte de coisas e pessoas que NÃO SÃO.

É natural que militantes e pensadores de dentro e de fora do Facebook problematizem essas questões, ainda mais no contexto político da rede social em nosso tempo. Embora tenha gente que reduza a questão a simplesmente “por quem se sente tesão”, a identidade gay está em disputa. Seja entre os inúmeros indivíduos compulsoriamente estigmatizados ao demonstrar um “jeitinho”, seja por quem não vê em sua homossexualidade nada demais – nem como bandeira política, nem como motivo de orgulho. Há ainda os acadêmicos e os movimentos sociais, além de artistas e de empresários. Todos, o tempo todo, VIVENDO E PRODUZINDO essa identidade dentro da sociedade, até mesmo quando não pensam criticamente sobre isso.

A denúncia ao “movimento GGGG” é necessária, mas também é preciso entender que não existe uma “ditador gay” agindo conscientemente em nome de todo um segmento. Em geral, as pessoas estão tentando levar as suas vidas sem morrer e com um mínimo de conforto, negociando aqui e ali espaços de aceitação e interdição através de uma roupa, um comportamento, um discurso, etc. Um processo que muitas vezes não é consciente, e não falo isso para “inocentar” ninguém não, até porque não estou partindo de alguma acusação. Falo para sugerir que pensemos na ideia de uma “identidade gay” para além de nossos umbigos – eu sei, é difícil, nossa sociedade é muito individualista – e possamos entender que ela é CRIADA por cada pequena coisa que aceitamos ou recusamos como sendo “de gay”, desde música aos memes e programas de TV.

Abraçar uma identidade – mesmo uma identidade estigmatizada – é confortável. Dá a sensação de que encontramos nosso lugar no mundo, de que somos finalmente inteligíveis. Temos uma “tribo”. Mas se tem tanta gente que assume essa identidade e ao mesmo tempo a rejeita, se tem tanta gente que é “gay” apenas por sua sexualidade, mas que é excluída da cultura, dos lugares, das dimensões de desejo e linguagem do que é “ser gay”, a ponto até mesmo de não se encaixar no que a sociedade imagina quando pensa nessa palavra, temos um problema. Alguma coisa na pintura está borrada.

Permita-se. Seja livre. Seja fabuloso.

Leia Dando Pinta todas as quartas, aqui em Os Entendidos, e não esqueça de curtir a nossa página.

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