A sexualidade da Mulher Maravilha é totalmente diferente da nossa!


O mundo nerd – aquele, supostamente “descolado” – está de novo em polvorosa porque um personagem do alto escalão é oficialmente queer. Sim, queer, porque até a mesmo a definição de bissexualidade não dá conta de explicar o que seria a sexualidade – essa ideia do desejo como agente formador do conceito de “eu” – de alguém que vivia em um mundo onde só existe um sexo, o feminino. É o caso da Mulher Maravilha.

NerdandoA notícia veio através de uma entrevista de Greg Rucka, atual roteirista dos quadrinhos da heroína. Perguntado se a Mulher Maravilha poderia ser identificada como “queer” e recebendo como definição do termo que são pessoas que se relacionam – não exclusivamente de forma romântica ou sexual – com outras do mesmo gênero, ele afirmou que SIM. Entretanto, seguiu dizendo que “é mais complicado que isso” e que pensar em Themyscira – a ilha paraíso onde vivem as amazonas e onde nasce a princesa Diana – sem considerar que o amor e a sexualidade fariam parte dessa sociedade não faz sentido. E completou que as amazonas não olham umas para as outras e dizem “olha, ela é gay” simplesmente porque esse conceito não existe.

O fato da sexualidade da Mulher Maravilha ser discutida e declarada oficialmente é muito importante. Primeiro pelo que a personagem representa, não só como ícone feminista mas também como defensora da igualdade. Ela é inegavelmente a heroína mais popular do mundo, o que também é expressivo entre os públicos feminino e LGBT. Além disso, é a próxima aposta da DC para o cinema, com seu filme solo previsto para Junho de 2017, depois de décadas de planejamento e disputa em uma indústria que não considera heroínas como um investimento seguro.

A inevitável polêmica vem de duas problemáticas: o machismo no meio nerd e nossa própria definição essencialista de sexualidade.

Dizer que a Mulher Maravilha é bissexual é válido, mas reduz uma experiência mais complexa de afetividade e erotismo a uma definição que só faz sentido para nós. Ok, ela é um personagem fictício criado dentro da nossa sociedade, mas o exercício de imaginação acerca de sua mitologia exige que a gente “abra a mente” para aceitar que sua sexualidade é simplesmente diferente. “Queer” é provavelmente o termo mais apropriado porque fala justamente da relação entre o meio e a formação da subjetividade, tanto no tocante às práticas sexuais e afetivas quanto às identidades políticas e de gênero.

Dentro das edições especiais da linha Sensation Comics, Diana oficializou um casamento lésbico. Quando Superman comenta que nunca tinha pensado nisso, mas que ela (tão generosa) obviamente seria a favor dessas uniões, ela responde que vem de um lugar onde só existem mulheres e que, portanto, o “casamento gay” para elas é “apenas casamento”. Essa é a chave para entender a coisa toda!Mulher Maravilha gay 2

“Homossexual” é uma categoria relacional. Ela existe em oposição à categoria “hétero”. As duas se opõem e complementam. A hierarquia social entre uma e outra vem depois disso. Se “hétero” é quem se relaciona com pessoas do outro sexo, fica estabelecido que existem pessoas que se relacionam com o mesmo. Portanto, que um “hétero” é, também, alguém que não se relaciona com pessoas do mesmo sexo. Assim, antes de qualquer moralização sobre quem seria “normal” e quem seria “anormal”, fica também definido o que é um “homossexual”. E posteriormente, identidades sociopolíticas dentro da homossexualidade – gay, lésbica, bi.

Outra questão apontada por Rucka é que o evento inicial da história da Mulher Maravilha – a chegada de Steve Trevor, primeiro homem a pisar em Themyscira – não pode servir para reduzir o heroísmo da personagem ou simplificar tudo em uma relação romântica. Diana, que diferentemente das outras amazonas nasceu e cresceu na ilha, já ansiava por conhecer o mundo, até pela missão divina das amazonas de promover a paz. O possível interesse romântico e/ou sexual em Steve não é um problema, mas não serve para justificar que ela abandone seu lar e sua imortalidade. Aliás, essa é uma das maiores preocupações em relação ao filme da heroína, que tem Gal Gadot no papel principal e Chris Pine como Trevor.

O “chorume” machista nas páginas nerd não surpreende, embora sempre entristeça. Para muitos, a confirmação de que Diana teve relacionamentos com mulheres é outro reflexo da agenda feminista, da “ditadura gay” ou do “politicamente correto”. É lamentável, porque além de ser ilógico imaginar que essas relações não existissem naquele cenário, é um tipo de preconceito que não tem NADA a ver com o que a Mulher Maravilha representa, tanto no mundo dos quadrinhos quanto – especialmente – no mundo real.

É provável que a personagem tenha um boom de popularidade quando o filme estrear. Ela já foi celebrada como um dos pontos altos de Batman v Superman: A Origem da Justiça, que marcou sua primeira aparição nas telonas. Dificilmente esse debate chegará aos cinemas, mas será interessante que nos quadrinhos ela eventualmente tenha outro envolvimento com uma mulher, já que a narrativa de que depois de Steve Trevor ela teria passado a se relacionar exclusivamente com homens corrobora a ideia de uma heterossexualidade compulsória, que estaria “adormecida” apenas porque não havia homens disponíveis. Será outra polêmica que vai dividir opiniões, mas se há alguém capaz de enfrentar o julgamento retrógrado do Mundo do Patriarcado, sem dúvidas, é a Mulher Maravilha!

Afinal, ela cresceu livre da estupidez de nossa sociedade. 😉

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