Envelhecer e enviadecer…


Mudam as referências, mudam as dores, mudam as delícias. Saem as Spice Girls e entra o Fifth Harmony. A pegação, antes sob as sombras de bares e boates, agora se dá na tela dos smartphones. Casamento, anúncio de namoro no Facebook, ter um perfil no Facebook. Aliás, no Insta, no Twitter e no Snap. Coletivos LGBT nas faculdade, debate sobre inclusão trans e gritos por visibilidade de letras, identidades, sexualidades e afetividades. A AIDS quase como um mito. Novas gerações e novos jeito de SER, de ASSUMIR, de VIVER. O tempo não para.

DandoPintaSloganHoje eu fico mais velho. Ainda sou jovem, mas já está impossível de ignorar que toda uma nova geração está aí vivendo a vida e essa “questão gay” que me é tão cara, e de um jeito completamente diferente. É claro, tem aquela coisa básica de eu não ter mais a mesma disposição pra ficar a noite toda na balada ou não topar “passar perrengue” com programas improvisados e sem conforto, mas o que é mais interessante são as mudanças no sociedade mesmo, as que afetam a própria experiência do “ser diferente”.

Segundo consta, os millenials seriam uma geração “mais gay”. Obviamente que isso não é lá muito fácil de medir, então a questão é que os jovens estão mais dispostos a assumir identidades sexuais não-hétero. Ao contrário do que pensam os LGBTfóbicos, não porque a homossexualidade seja algo contagioso ou que as pessoas simplesmente copiem porque estão vendo na novela, mas porque o simples fato de o tema ser mais debatido já facilita que mais pessoas consigam se identificar melhor ou mais cedo, além de que a atmosfera de aceitação mais ampla traz mais segurança. E isso é muito significativo.

É claro que ainda há muita tristeza e violência. Muita gente morre ou é expulsa de casa apenas por ser LGBT. Muita gente é forçada a “se assumir” antes de estar preparada para isso porque “tem um jeitinho”. Muita gente anda pelas ruas com medo e se encolhendo quando escuta alguma piadinha. Nesse ponto, as “bolhas” formadas em nossas redes sociais – geralmente compostas de pessoas com gostos e opiniões afinadas conosco – geram uma falsa sensação de que “tudo está bem” só porque um amiguinho “tombou” ou “lacrou” usando saia na faculdade e viveu para partilhar a história em troca de alguns likes. Entretanto, ainda assim as coisas estão melhores.

Ontem recebi uma mensagem emocionante de uma senhora de 82 anos, negra, que elogiava um dos meus textos e traçava um paralelo entre sua vida marginal e a minha. Ao contrário das mensagens curtas – e ótimas, isso não é uma crítica – que recebo dos leitores mais jovens, ela escreveu um longo relato sobre sua vida e obviamente sobre grande parte do século XX. De como foi difícil buscar inserção sendo uma mulher negra de família pobre, que sofreu preconceito quando conseguiu se formar, quando se apaixonou por um homem branco, quando passou em concurso… Ela também falou dos amigos gays que passaram por sua vida e como as coisas eram difíceis para eles. Fiquei muito tocado porque mesmo eu que vivo de estudar essas questões ainda esqueço de como a minha trajetória foi “fácil” se comparada a dos que vieram antes de mim. Conversamos e falei para ela da minha esperança – aliás, a única FÉ que possuo – de que estamos sempre em transição, de que o amanhã será melhor do que ontem nem que seja porque o capitalismo não vai deixar um nicho de mercado sem ser explorado. Ela, vivida, não tem essa esperança. Melhor dizendo, tem medo da próxima onda de conservadorismo. De repente ainda mantenho uma ingenuidade juvenil, sei lá!

É que não dá para ignorar que a geração de hoje é diferente. Ainda me assusto quando vejo gente de 13 anos em aplicativo de pegação ou tretando Foucault na internet, já que nessa idade o que eu achava de mais erótico era essa foto da Madonna aí porque “nossa, o cara mostrou o pinto pra ela”! Depois veio a G Magazine e que odisseia para comprar uma revista! Lembro que andava uns dez quarteirões, comprava a revista, via as fotos, lia algumas matérias e depois jogava fora porque né, deuzolivre alguém descobrir que eu estava com uma revista gay! E isso não é nada, uma coisa super bobinha, mas que ilustra bem a diferença. Hoje está tudo aqui. Pro bem e pro mal, a informação, a pornografia, o debate, as teorias… Tudo à disposição de qualquer jovem em busca de respostas, o que é muito bom.

Hoje eu fico mais velho e sei lá quantas pessoas estão nascendo. Vai saber como será o mundo que elas encontrarão em quinze ou vinte anos, quando a galera que está se empoderando via internet e redefinindo o discurso político sobre sexualidade estiver efetivamente no poder. Certamente será um mundo diferente. Talvez a grande graça de envelhecer – e de “enviadecer” – seja justamente poder participar dessa mudança.

Permita-se. Seja livre. Seja fabuloso.

Leia a Dando Pinta todas as quartas, aqui em Os Entendidos, e não esqueça de curtir a nossa página.

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