O que faz um “ícone gay”?


Oscar Wilde, Judy Garland, Lady Gaga, Cazuza, Martha P. Johnson, Jean Wyllys, Elke Maravilha… O que faz um “ícone gay”? Como um artista, um político ou ativista – seja LGBT ou não – se transforma em símbolo, especialmente de uma comunidade tão diversa e tão sofrida? E o que a história desses ícones revela sobre essa identidade social? Nossos ídolos ainda são os mesmos? E se não são, o que mudou nos últimos anos? Tem receita para se imortalizado em memória, verso e canção? Se tiver, WE BETTER WORK!!

DandoPintaSloganSe a rejeição é a “marca fundadora” da experiência gay – já que o problema não é amar ou desejar ninguém e sim a maneira como OS OUTROS julgam essa identidade sexual – , fica evidente que a história de muitos “ícones gays” tem um quê de tragédia. O próprio Oscar Wilde, conhecido pelo estilo exuberante, terminou condenado a fazer trabalho forçado como punição por seu seu crime de amar outro homem, e pode-se dizer que ele teve mais sorte do que os sodomitas do tempo da inquisição. E isso, antes que a sexualidade e especialmente a homossexualidade fossem compreendidas da maneira que são hoje.

Não é por acaso que o “evento fundamental” do nosso movimento político é a revolta de Stonewall, um quebra-quebra motivado pela perseguição policial aos LGBT da Nova York dos anos sessenta. A possibilidade de exercer uma “identidade desviante” com alguma liberdade hoje em dia veio depois de muito sangue e muito choro. Inclusive nas ações de pessoas heterossexuais que embora não tenham feito nada de específico em prol dessa luta, terminaram por ser “adotadas” como representantes da nossa cultura por causa de suas trajetórias pessoais de exclusão ou porque suas produções artísticas se comunicavam de maneira especial com essa comunidade.

Estereótipos – sejam bons ou ruins – existem por alguma razão, então é impossível pensar na indústria do entretenimento sem pensar no exército de coreógrafos, maquiadores, autores, atores e estilistas que a moldaram, muitas vezes encontrando na arte a única via de expressão de uma identidade oprimida. As divas do passado, especialmente as atrizes e cantoras, foram os veículos dessas dores enquanto falavam também da condição feminina. É um dado interessante porque ao mesmo tempo em que essa idolatria permite a identificação e oferece uma válvula de escape, também reafirma o lugar de poder de quem CONSEGUE falar sobre isso, ainda que através de códigos cifrados em paetê.

É óbvio que esse papo de divas, plumas e estilistas não interessa a todos os gays, até porque essa tensão entre “discretos” e “pintosas” não é coisa da nossa época e sim uma disputa discursiva em toda a história da homossexualidade sobre respeito e inclusão e sobre as estratégias para obtê-los. Mas os holofotes serviram para uma parcela dessa comunidade em formação enquanto outra só conseguia agir secretamente, até porque a homossexualidade – considerada doença ou proibida por lei em muitos países – só passou a ser discutida e afirmada politicamente para o grande público quando a década de luta pela liberação sexual foi brutalmente interrompida pela epidemia de AIDS.

Nesse momento dramático já tínhamos ídolos políticos e demandas definidas, mas a crise revelou muitos heróis e aliados enquanto a opinião pública estigmatizava qualquer coisa relacionada aos LGBT. Foi quando pessoas estabelecidas – como Elizabeth Taylor – ou que estavam começando – como Madonna – arriscaram tudo para chamar a atenção para uma crise de proporções globais, mas que no caso dos gays ainda tinha o sabor amargo de uma nova onda de preconceito.

Agora, a sensação é de tranquilidade porque podemos casar e porque tem gay na novela, mas todo dia tem LGBT morrendo por crime de ódio no Brasil das Olimpíadas e nos Estados Unidos do RuPaul. Não dá para fingir que a violência LGBTfóbica é uma exclusividade de países islâmicos ou da África infectada pelo cristianismo. Ela é diária e está próxima, se dá através da política, através dos discursos de ódio, das piadas sem graça. E é por isso que apesar da lista de ídolos e ícones LGBT ter cada vez mais pessoas LGBT ocupando seu espaço de direito, “botar a cara no sol” ainda é privilégio. Quantos cantores, atores, políticos e atletas ainda estão “no armário”? Por que essas pessoas sentem – ou sabem – que se falarem sobre sexualidade podem colocar em risco suas carreiras? Ninguém deve ser forçado a assumir nada, mas será que se a coisa fosse mais fácil esse movimento não seria natural?

Nesse contexto, a voz dos que podem se dar ao luxo de dizer “EU SOU” ganha ainda mais valor, e a dos aliados segue tendo importância fundamental. Entre cantoras, militantes, políticos e vítimas de violência que emprestam seus rostos para a luta, parece que a estrada para “além do arco-íris” fica um pouco mais suportável, um pouquinho mais alegre. Não é para isso que servem as pessoas que nos inspiram?

Permita-se. Seja livre. Seja Fabuloso.

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