O gay “da turma”


Disse uma vez que eu era “a bichinha da sala de aula”. Na verdade, era uma entre várias que geralmente ficavam sentadas perto da mesa dos professores, a ponto de a zoação entre os meninos do fundo passar dos xingamentos costumeiros para um significativo “vai pra turma lá da frente”. E todo mundo sabe que a escola é esse microcosmo de figurinhas sociais – o gordo, o popular, o CDF, o gay – que são pontos de referência da vida. E assim, entendi que o meu lugar de “o gay” era especial, para o bem e para o mal. O que permanece verdade até hoje…

DandoPintaSloganEssa percepção do “ser gay” vem pela maneira como “o diferente” é tratado. Eu sempre fui eu, sempre gostei mais de algumas coisas e menos de outras, então só fui entender que as pessoas olhavam para mim e enxergavam esse rótulo por causa das reações delas. Depois de um tempo cheguei à adolescência e os meus desejos confirmaram o óbvio, mas isso nunca foi justificativa para o tratamento diferenciado. E não estou falando em ofensas ou agressões físicas, embora isso tudo possa ser entendidos como uma violência também. Falo de uma mudança de atmosfera, particularmente evidente quando sou o único homem gay entre homens heterossexuais.

Há uma “dimensão erótica” nessa relação. É como se os héteros – talvez por julgarem que a heterossexualidade ou a masculinidade seriam obviamente coisas irresistíveis para um gay – estivessem constantemente “se mostrando”. Talvez seja apenas a manifestação de um desconforto masculino com a POSSIBILIDADE de ser o objeto de desejo ao invés do “predador”, não sei. Mas não foram poucos os episódios em que esses homens flertaram comigo, de brincadeira mesmo. Embora alguns deles, talvez, sob certas circunstâncias, de repente até se permitissem “viver uma experiência”, acho que essa postura revela muito mais uma falta de saber como tratar um “igual que é diferente” do que uma atração genuína. E essa dinâmica vai se retroalimentando.

Minha paranoia infantil era a de que em qualquer lugar que eu estivesse as pessoas sabiam da minha homossexualidade. Que qualquer risinho era por isso, que qualquer fofoca era sobre isso. Quando criança eu evitava os grupos de garotos para não ser zoado, não apanhar. Nunca soube jogar futebol, mas será que todos eles sabiam? Será que todos que erravam um chute eram chamados de viado? E ainda que fossem, será que comigo o que doía – e fazia eles repetirem com tanto gosto – não era o fato de isso ser verdade? E se de repente não existisse essa questão, será que eu teria treinado mais, passado a gostar do esporte e então ter me sociabilizado com os temidos “meninos da rua”? Não sei se realmente não gosto de futebol ou se não gosto porque foi algo “proibido” para mim. A questão é que eu tinha que me defender de alguma forma.

“Sair do armário” é parte desse processo. Um grito de resistência. É aquele momento tão especial na “vida gay” onde dizemos “sim, vocês tinham razão, eu SOU e eu SEI”. E de certa forma, nessa hora as coisas se encaixam. Os problemas, o risco de violência, a erotização, tudo continua igual, mas o indivíduo finalmente está no lugar social para o que foi empurrado a vida toda. E aí começa essa dúvida, essa dança estranha de “ser o que se é” ou “ser aquilo que dizem que a gente é”.

Quando estou entre homens heterossexuais existe uma tensão. Uma barreira que não existe entre meus amigos gays. Talvez seja porque há algumas experiências que só quem é gay conhece, talvez porque algumas coisas só quem é hétero conhece. O que são, afinal, aqueles apertos de mão com soco, dedo estalado, troca de dedo e afins? Qualé, brow? O fascinante dessa tensão é negociação entre nós. É como eu me coloco nesse papel de “olha, sou viado sim” para acabar com qualquer dúvida, para deixar claro que eles não precisam dizer, que brincadeiras homofóbicas não serão toleradas. E ao mesmo tempo, sinto que eles vão testando até que ponto podem brincar, que tipo de gesto ou palavra pode cruzar algum limite, seja o do desrespeito à minha pessoa ou deuzolivre o de eu achar que estão me dando mole!

Isso, é claro, em ambientes amistosos. Salas de aula, grupos de trabalho, esses lugares onde pessoas diferentes são obrigadas a conviver civilizadamente. Não dá para saber quantos ali não falariam comigo em outra situações. Alguns talvez até me matassem, sei lá. Além disso, a tensão nessa relação é completamente diferente daquela de um vestiário, por exemplo, onde as permissões e interdições de erotismo, vergonha e respeito são muito mais complexas.

No fim das contas, essa “barreira invisível” descortina a relação entre as próprias ideias de “hétero” e “homo”, essas identidades que são tratadas como essenciais mas que precisam manter suas versões opostas bem demarcadas, já que a “queda do muro” seria a morte de ambas.

Permita-se. Seja livre. Seja fabuloso.

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