O que os “jogos da diversidade” ensinaram sobre os atletas LGBT?


Os jogos olímpicos do Rio entraram para a história como os mais inclusivos de todos os tempos. Embora o número de atletas assumidos seja o maior já registrado (48), ele representa apenas 0,44% do total de participantes do evento, e os 14 países de onde vieram esses atletas ainda representam pouco em relação aos 206 que estiveram nas Olimpíadas. Além disso, a diferença entre mulheres (37) e homens (11) e entre esportes coletivos e individuais levanta questionamentos interessantes sobre o impacto da LGBTfobia e do machismo no esporte…

DandoPintaSloganO assunto foi matéria da revista Advocate. Apesar do escândalo do repórter inglês que expôs atletas gays depois de usar o Grindr como “armadilha”, é inegável que as Olimpíadas Rio 2016 foram medalha de ouro em diversidade. Entretanto, uma análise sobre os representantes dessa diversidade revela que os braços do preconceito são longos e atingem até mesmo os heróis que são considerados “deuses entre os mortais”.

Entre os países com atletas assumidos, a maioria é conhecida por ter legislação específica e amplo debate sobre os direitos LGBT, enquanto sabemos que 74 países ainda consideram as relações homossexuais ilegais e 12 punem a homossexualidade com a pena de morte. Outro dado que chama a atenção é a diferença entre gêneros, já que o número de atletas lésbicas é maior que o triplo de atletas gays, e as modalidades – futebol, basquete, rúgbi, hóquei sobre grama e judô para as mulheres, salto ornamental e hipismo para os homens – também revelam a força da discriminação. A questão não é quem tem habilidade ou gosta de fazer o quê, e sim quem PODE assumir sua identidade sexual e ainda manter uma carreira esportiva de sucesso. E isso é muito triste.

No Brasil, sabemos que o destaque dado ao futebol masculino funciona como uma censura contra jogadores gays. O país é machista e o futebol ainda é visto como uma das bases da identidade nacional, e essa identidade é viril. Nesse contexto, a figura do jogador assassino “pegador” de mulher que toda hora é fotografado com “Marias Chuteiras” ou que só namora com modelos e atrizes famosas é valorizada, enquanto os atletas que “dão pinta”, que são assunto de fofoca ou da mera “suspeita” da homossexualidade viram motivo de chacota e um “problema” para seus clubes, que precisarão administrar o impacto da homofobia não só nesses atletas mas também no time e na torcida. Isso para não falar na questão do patrocínio – fundamental para qualquer esporte – que talvez seja o lado mais cruel dessa história toda.

Sem dúvidas, paga-se caro pelo luxo de falar a verdade!

Essa diferença entre esportes coletivos e individuais também chama a atenção para o lugar do homem gay entre os heterossexuais – falarei mais sobre isso na próxima semana – e “espantalhos sociais” como o do “homossexual predador” eternamente à espreita para converter/assediar/atacar heterossexuais incautos e do caráter contagioso do estigma sexual. Para o time, para um esporte, para uma nação, ter um atleta assumidamente gay vira um problema. O colega gay poderia constranger seus companheiros de equipe simplesmente com sua presença no vestiário, até porque os homens não estão acostumados a ser encarados como objeto de desejo. Além disso, aos amigos que por acaso se mostrassem simpáticos a esse indivíduo, recairiam as suspeitas de algum interesse sexual ou afetivo escondido. Tudo isso porque o “ser gay” é entendido socialmente como uma traição ao ideal masculino mesmo que o indivíduo em questão não seja afeminado, fazendo com que o atleta gay vá contra a idealização de um “herói olímpico” que é essencialmente masculino, com todas as características de superação que fazem parte dos valores pregados pelo esporte.

E há também os esportes considerados mais masculinos, como lutas e jogos de contato, e os mais femininos, geralmente mais elitizados ou de viés artístico. Tudo seguindo a verdadeira “ideologia de gênero”, que é esse conjunto de práticas e violências que exigem que as pessoas se enquadrem em um ou outro gênero a elas designado e que pune severamente qualquer coisa enxergada como desvio da norma vigente. Afinal, é só através da demarcação daquilo que é desviante que a norma pode afirmar-se como padrão, o que explica porque o fim dessas estruturas jamais virá da generosidade dos incluídos e sim do clamor dos excluídos.

No fim das contas, é provável que os próximos jogos olímpicos sejam ainda mais inclusivos. Certamente que as diferenças aqui discutidas ainda persistirão, mas pelo menos nos países onde a questão LGBT já avança é natural que mais atletas sintam segurança para assumir. Ainda assim, só poderemos celebrar o espírito de respeito e união que os anéis olímpicos simbolizam quando nenhuma pessoa LGBT sentir que precisa se esconder para garantir um prato de comida ou sua segurança física e emocional.

Permita-se. Seja livre. Seja fabuloso.

Leia Dando Pinta todas as quartas, aqui em Os Entendidos, e não esqueça de curtir a nossa página.

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