Escândalo


Fui estuprado aos 10 anos pelo meu tio. Desculpe a franqueza, mas depois de tantos anos só me resta falar sobre. Durante esses últimos 19 anos pensei e repensei sobre isso, mas sempre tentando não pensar. Não sei como é para outras pessoas que tiveram essa triste experiência. Pra mim, aquela sensação de impotência volta de forma cíclica. Vem no meio de uma reunião de trabalho, em um dia de folga e até no sexo. Vira e mexe me volta a memória daquele momento horrível de ser violentado, de não ser levado em consideração em nenhum momento.

Recentemente, minha tia reapareceu na minha vida me tratando no feminino e com meu antigo nome nas redes sociais. Acabei transbordando e lá na borda saiu o que nunca pude dizer: fui violentado pelo seu ex maridão bostão.

Descobri que esse cara estuprou outras pessoas, uó. Percebi que a perversidade humana não tem hora pra acabar. Foi horrível constatar que para a família tradicional brasileira eu não passo de uma farsa. Alguém que foi muito violentado na infância e por isso tem “transtorno de gênero”.

É, a gente tem essa mania de criar caminhos perversos para patologizar o outro e assim continuar acreditando no que quiser, preferimos acreditar em virgem grávida do que na autonomia de um #transvivo. Um apego triste a velhas ideias que nos impedem de ver e aceitar o outro. Isso me lembrou quando me descobri sapatão e minha família entrou numa de acreditar que o maior perigo da humanidade era a sapatão da rua que eu tava ficando, que tinha “droga envolvida” que ela me oferecia. Ai meo deos, outro dia tava drogado na boate e tive uma crise de riso ao lembrar disso. O fato é que acreditamos que a sapatonice está fora de nosso sangue, as drogas estão nos becos escuros e os homens opressores estão na cadeia. Ah, c jura….

Consultei advogados, um ficou do lado do estuprador inclusive, nada me dá vontade de seguir por esse caminho da “justiça”, aliás esse caminho me deprime, não quero me desgastar mais. Minha vontade é apenas falar sobre isso com pessoas que não entrem numa de “você acha que pode ser homem porque foi estuprado”, como se minha (linda) identidade trans fosse consequência de uma violência, fruto da pior coisa que já me aconteceu.

Posso escrever textos, posso fazer anos de análise (como fiz), tudo isso ajuda. Mas ainda tenho um negócio na garganta, uma vontade de gritar que não foi minha culpa, uma necessidade de expor essa situação por tanto tempo oculta. Alguém disse que família é lugar de amor, mas isso não é regra, e agora, vamos ser sinceros? Ser menina na família tradicional brasileira é um perigo, minha gente. Os homens são criados para serem violentos e as mulheres criadas para serem submissas, a merda tá pronta pra acontecer e ela tem nome: cultura do estupro.

Acreditamos na imbecilidade que homens são mais fortes e devem proteger as mulheres frágeis, só que não atentamos para a parte 2 desse discurso que é: desigualdade entre os gêneros gera violência direta e indireta contra mulheres e aos corpos considerados femininos porque desigualdade de poder é a violência em si.

Olha, se você já passou algo parecido ou quer me dar um abraço, a gente pode se encontrar e falar sobre essas experiências. Eu e as mulheres do coletivo A REVOLTA DA LÂMPADA* estamos organizando um evento no Parque do Ibirapuera, em frente ao MAM, no domingo dia 21, às 15h**. Sabe, eu preciso sentir que isso acontece com outras pessoas também, em especial mulheres, eu preciso fazer algo sobre isso, mas eu não tenho forças pra lutar sozinho, quem sabe juntas/os tenhamos forças pra dizer o indizível, pra suportar o insuportável e ainda assim nos arriscarmos rumo ao encontro, ao abraço. Afinal, a cooperação é a nossa maior arma contra o machismo.

Eu não nasci frágil e mesmo depois de tanta violência me tornei um homem forte. Eu sou tão forte que choro em público e exponho minhas dificuldades para que essa má-água corra para outros mares e se transforme em políticas públicas pelo direito das meninas, mulheres e comunidade Trans.

Ser menina, ser #transvivo … estar aqui falando sobre uma violação das minhas vísceras. Sabe, não dói no útero, dói na alma. Ainda bem que não ando só, meu bando A REVOLTA DA LÂMPADA estará comigo e você pode estar também. Quebrar o silêncio pode abrir novos caminhos pra mim e para nós! VEM!

Em especial, agradeço aos advogados Carol Gerassi e Luís Arruda pela escuta e carinho. 

 

 

*O coletivo A REVOLTA DA LÂMPADA  luta pela liberdade de todo corpo. Várias pessoas diferentes militam juntes: lésbicas, gays, mulheres, pessoas negras etc.  Porém, para esse evento, apenas eu (#transvivo) e as mulheres do coletivo estão na organização.  

**Evento no Facebook para o evento aqui.

 

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