Será que ele é?


Olha a cabeleira do Zezé, será que ele é? Aliás, “Será que ele é?” dá nome a um filme justamente sobre o que acontece quando alguém “suspeito” de ser gay é “arrancado do armário”. “Tu é gay que eu sei”, cantavam os meninos que riam me dizendo “essa Coca é Fanta”. To be or not to be. Em sendo, assumir. Não assumindo, viver sob a sombra da desconfiança. O sexo como segredo. A intimidade publicamente devassada. Em pleno 2016, ainda isso?

DandoPintaSloganApesar de toda a beleza institucional dos jogos olímpicos e de sua mensagem de união entre os povos, a LGBTfobia não respeita períodos festivos ou dias santos. Nos jogos do Rio, as conquistas de atletas LGBT – assumidos ou não – tem sido celebradas pela comunidade, mas nem mesmo a consagração mundial é capaz de livrar os homossexuais da perseguição que é a “pedra fundamental” do nosso lugar social marginal. Aparentemente, o ódio é universal.

Sem dúvidas, o caso mais chocante é o do jornalista britânico Nico Rines, que usou aplicativos como Grindr e Tinder para descobrir atletas gays na Vila Olímpica e expô-los em artigo – já deletado – para o “Daily Beast”. Denunciada por Amini Fonua, nadador e gay assumido, de Tonga, a história repercutiu pela crueldade, já que ser um atleta assumido ainda é um problema no ramo esportivo, que depende basicamente de patrocínio. Além disso, alguns dos competidores expostos pelo artigo são de países onde a homossexualidade ainda é considerada crime. Entretanto, independente desse agravante, o desrespeito à privacidade cometido pelo jornalista já é um absurdo por si só, e exceto pelo possível afastamento do veículo atual, sua impunidade já pode ser dada como certa.

Mas de onde vem essa sanha de descobrir o outro?

O problema está na origem da própria conceituação da homossexualidade. Mais do que simplesmente a classificação de uma preferência por práticas ou afetos homossexuais, a ideia de uma “sexualidade dissidente” é relacional. Ela define a homossexualidade através da heterossexualidade, como “diferente”, o que obviamente não demorou para descambar em “desviante”, “errada” e “anormal”. É por isso que o estigma ainda é experiência essencial das identidades não-heterossexuais. Mais do que o amor, do que o sexo ou mesmo da autoaceitação, é através dessa diferenciação negativa que se define o lugar social dessas sexualidades e, consequentemente, a subjetividade dos indivíduos cujas identidades são formadas ao redor dessa definição.

É nesse contexto que a homossexualidade é transformada em segredo. Ela é temida no seio da família tradicional porque pode se manifestar em qualquer filho ou filha “diferente”, o que por sua vez faz com que as pessoas LGBT cresçam com essa sensação esquisita de estar escondendo alguma coisa que é simplesmente parte de sua intimidade. Ou pior, sintam-se forçadas a esconder!

A heterossexualidade é compulsória. Ela é presumida desde que os gêneros são designados aos fetos. É por isso que o preconceito é mais cruel com as pessoas trans, com gays afeminados e lésbicas masculinizadas, já que são esses os indivíduos que vão contra o teatro social do gênero. Independente da sexualidade – já que a sociedade prefere fingir que as crianças não demonstram impulsos sexuais – , é nos comportamentos considerados “masculinos” ou “femininos” que somos entendidos como “homens” ou “mulheres”, com o desejo por pessoas do sexo oposto presumido e estimulado como “o caminho normal”.

Assim, o “ser LGBT” é construído como uma decepção. Como motivo de vergonha, como alvo de violência. Somos xingados porque alguma coisa em nosso “jeito” dá a entender que somos “anormais”, e enquanto lutamos para crescer e entender nossos corpos e nossas mentes, somos também pressionados a ASSUMIR o nosso “desvio” porque não basta simplesmente ser. A sociedade quer que nós ADMITAMOS que temos consciência de que SOMOS LGBT, mesmo antes de qualquer experiência sexual. O importante é DEFINIR, já que a estrutura social NECESSITA dessa definição para sustentar suas categorias de poder, de valor e de importância.

É por isso que a bissexualidade é invisibilizada. É por isso que as pessoas ficam loucas quando escutam falar em homens que fazem sexo com homens mas não se identificam como gays ou em mulheres heterossexuais que se relacionam com homens gays. Qualquer coisa “fora da caixinha” parece absurda, simplesmente porque ameaça a ordem social vigente – por enquanto, já que tudo está sempre em mudança.  É por isso que somos estimulados a “desconfiar” de quem se diz hétero ou nem fala nada sobre a própria sexualidade mas “dá pinta”, seja uma pessoa próxima ou alguma celebridade. É por isso que ficamos curiosos. Para descobrir, para classificar, para ter CERTEZA, esquecendo de que na verdade esse assunto só diz respeito a quem partilha da intimidade daquela pessoa.

Das colunas de fofoca que disfarçam nomes em enigmas ao caso do jornalista que expôs os atletas, o que vemos é a produção de um discurso sobre a sexualidade que ainda trata a identidade LGBT como um crime. Algo que levanta suspeitas, que merece denúncia. Uma coisa que nos atiça, como se os desejos alheios fossem um bem público. Como se fizesse sentido querer saber sobre o sexo dos outros quando não se terá algum contato sexual com a pessoa. E assim seguimos, procurando “sintomas” que possam responder o que alguém é ou deixa de ser.

A pergunta que fica é “pra quê?”!

Permita-se. Seja livre. Seja fabuloso.

Leia Dando Pinta todas as quartas, aqui em Os Entendidos, e não esqueça de curtir a nossa página.

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