Pai, o que você faria se tivesse um filho gay?


Nunca morei com meu pai. Exceto por uma briga que tivemos na minha infância e que fez com que não nos falássemos por um tempo, ele era uma presença curiosa aqui em casa: o cara que tomava cerveja com minha mãe, um amigo que perguntava da minha vida e que me dava dinheiro no natal e no meu aniversário, e que era irritantemente parecido comigo – apesar de ser tão diferente! E claro, teve aquele dia em que ele chegou de surpresa no meio da tarde e eu fiquei super sem graça porque tinha sido “flagrado” brincando de casinha… Ele sentou no sofá, olhou nos meus olhos enquanto eu tentava adivinhar seus pensamentos e perguntou “quem é essa?”, ao que só consegui responder uma coisa, com fingida naturalidade para esconder o medo: É a Barbie, pai.

DandoPintaSloganNão tinha essa noção na época, mas o episódio ressoa com uma longa problemática da figura do “filho gay”. Na verdade, a questão é mais ligada ao ideal de masculinidade em si e no quanto a figura do pai é importante como modelo do que seria “ser homem”, mas de qualquer forma há diversos registros dessa tensão. Desde o questionamento de “e se o seu filho for gay?” até o “como vou contar para o meu pai?”, passando pela ideia de que “é mais fácil” contar para a mãe porque uma reação negativa do pai é esperada e/ou compreensível.

Quando denunciamos os efeitos danosos do machismo, é comum a acusação de “perseguição aos homens”, como se o problema estivesse no gênero masculino ou até mesmo no comportamento “masculinizado”. Não é isso. O problema da frágil construção da masculinidade está justamente na negação da afetividade e no quanto esse embrutecimento – seja “verdadeiro” ou de fachada – é prejudicial à sociedade e aos próprios homens, que além de terem suas relações com o sexo, a sexualidade, as mulheres, os outros homens e até os filhos afetadas, ainda precisam lidar com um sem número de expectativas massacrantes virtualmente impossíveis de serem satisfeitas.

Se a homossexualidade ainda é colocada como o  grande “fantasma”, como o grande desvio em que um “homem normal” não deve incorrer, é fácil compreender a relação conflituosa entre os gays e a figura do “pai” em nosso meio patriarcal. Se para todo menino essa presença masculina é apresentada como um herói, há também a cobrança para que um dia se possa exercer esse papel para alguém, de forma que corresponder ao lugar definido para “o homem” passa a significar ser motivo de orgulho para o pai ou até mesmo para Deus. E nesse contexto, o “filho gay” é sempre uma decepção, ainda que a tendência atual seja a de uma flexibilização desse tipo de cobrança.

Vivemos eternamente em transição, e no caso da identidade gay estamos partindo da gênese do movimento político – nascido após a definição dessa identidade e de anos de repressão – para uma normalização desse lugar social. Não que já seja possível falar em “aceitação”, visto os casos alarmantes de LGBTfobia ainda registrados no mundo todo, está claro que o segmento LGBT é parte da sociedade, e isso faz com que o debate sobre nossas questões possibilite um maior entendimento entre os indivíduos LGBT e suas famílias. Ainda assim, entre relatos trágicos de pais que expulsam ou até matam seus filhos, teorias acadêmicas e tentativas pseudo-freudianas de “explicação” da homossexualidade através da ausência paterna e músicas dos Pet Shop Boys, filhos LGBT precisam conviver com a possibilidade de que a identidade sexual venha a significar uma decepção para seus pais, embora agora a coisa esteja mudando um pouco de foco…

Com mais e mais famílias LGBT, emerge a questão de como os filhos lidam com pais gays e mães lésbicas e como esses pais administram a construção muitas vezes traumática de suas identidades com as novas gerações. No caso específico dos homens, é sempre essa relação de inferioridade em relação ao ideal masculino, já que muitos pais gays se veem confrontados com a ideia de que a homossexualidade poderia atrapalhar a função de “modelo masculino”, ainda que o modelo atual seja mais aberto. Ainda assim, é evidente que a conquista de direitos civis nas últimas décadas vem possibilitando que mais indivíduos LGBT que desejam ter filhos consigam realizar esse projeto.

No fim da contas, espera que essa relação seja sempre de amor. Então, não há espaço para o preconceito. Dessa forma, a tendência é de que a associação entre homossexualidade e inferioridade vá diminuindo, fazendo também com que a relação entre o “ser gay” e o “ser homem” seja menos conflitante, pelo menos nesse aspecto das relações entre a expectativa e a realidade. Até porque, todos os pais precisam entender que um filho é uma pessoa singular, com sua própria trajetória, e que não veio ao mundo apenas para satisfazer anseios egoístas.

Nesse domingo, pais e filhos celebrarão o dia dos pais. Para algumas famílias, não será uma data feliz por causa das marcas da LGBTfobia. Pensar nisso é fundamental para que cada vez mais a resposta à pergunta que dá título a esse texto seja apenas “continuaria amando-o do mesmo jeito”.

Quanto a mim, tive sorte. Quando enfim a minha mãe falou com meu pai sobre minha homossexualidade, ele disse que já imaginava e que isso não lhe dizia respeito; que só queria que eu fosse honesto e feliz 🙂

Permita-se. Seja livre. Seja fabuloso.

Leia Dando Pinta todas as quartas, aqui em Os Entendidos, e não esqueça de curtir nossa página.

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