George, de Alex Gino


George, de Alex Gino é o primeiro romance de temática LGBT publicado pelo selo Galera Junior, do Grupo Editorial Record e nos conta a história de George, um menino que se sente preso em seu corpo. George é uma menina e, assim, o autor de uma forma bem leve, nos apresenta uma criança transexual e sua jornada em mostrará mãe, principalmente, que ele, na verdade, é uma menina.

Estante2Ao longo de suas 142 páginas, acompanhamos a maneira como George encontrou ser a ideal de contar a “mamãe” que ele é menina, que é participar da peça do colégio no papel de Charlotte, a sábia aranha de “A menina e o porquinho”, romance infantil de E. B. White.

Porém, entra em questão que Charlotte é uma “menina” e que por isso deveria ser interpretado por uma menina e, só por isso, já que mesmo a professora de George, a Sra. Udell, crê que George é um dos melhores e mais dedicados que fizeram o teste, que o menino não é escalado para o papel.

Nesse meio tempo ele tem que lidar com a melhor amiga, que consegue o papel, com os meninos que fazem bullying com ele e com a mãe que descobre que ele guarda revistas de meninas e pensa que ele é gay.

A melhor parte da história é o apoio que Kelly, a melhor amiga, dá a George. A princípio somente por acreditar que ele realmente é o ator perfeito para o papel de Charlotte e que interpretação não deveria ter muito a ver com se quem interpreta é menino ou menina e sim sua capacidade de dar vida à personagem. Todavia, ao perceber o que George realmente quer com isso e como o fato dela acreditar ser menina é realmente é algo importante para ela (George) ela embarca nessa crença e o ajudará a conseguir o que tanto almeja.

Há muitas coisas legais nessa história e para saber se George conseguirá fazer a sua mãe perceber que ela é uma menina e se ele conseguirá interpretar Charlotte, bem como outras coisas incríveis que acontecem, tem que se ler o livro. Todavia, é importante deixar claro que não há uma discussão sobre transexualidade. É um livro para crianças, logo todas essas reflexões mais profundas, dados estatísticos são meio que deixados de lado, concentrando-se na personagem e o que ela deseja ser e como as pessoas a veem.

O fato de ser usado uma peça de teatro pra falar da questão de identidade é muito legal, porque desconstrói nesse momento lúdico a ideia de masculino e feminino. Durante toda a leitura eu fiquei pensando, “Charlotte é uma aranha. Não interessa muito se é uma aranha fêmea, é uma aranha. Um animal.”; logo poderia ser interpretada por qualquer um. Ninguém fica pensando em quem interpretará uma arvore, por exemplo. O lance é que questionar isso, põe em questão em primeiro lugar o fato de que no processo de personificação faz de animais e seres inanimados mais que criaturas que podem sentir, falar e interagir com as outras personagens, mas as fazem carregar em si os discursos do que é masculino e feminino e dos papéis que eles têm em nossa sociedade.

Isso é quebrado quando a própria Kelly traz a informação que, no período de Shakespeare, homens faziam o papel de mulheres e que se havia beijo em cena, dois homens que estariam se beijando, muito embora as pessoas não levassem isso em consideração, já que para elas ali seriam as personagens e não os atores.

Eu gostei bastante do texto, ainda mais por desde o início ele causar aquele estranhamento por sempre se referir ao George como ela. Isso se mostrou como uma sensibilidade por parte da construção da voz do narrador incrível, já que muito se fala em se referir às pessoas trans, independente delas terem feito a cirurgia de redesignação ou não, como elas se percebem enquanto sujeitos. É lindo ver isso sendo feito no romance.

Olha, eu super indico esse livro e não só pras crianças, mas pra qualquer pessoa. Primeiro por ser uma leitura muito legal mesmo e depois, porque a gente nem tem que ficar com frescurinha por ser livro pra criança. Livros pra criança são incríveis e todo mundo também devia ler, nem que seja de vez em quando.

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