Existe futuro para a “identidade gay”?

Existe futuro para a “identidade gay”?

Gente que pede foto mas não tem foto para mostrar. Gente que “não curte” tanta coisa que até para dizer um “oi” você se pergunta se tem que fazer alguma prova. Uma infinidade de contatos telefônicos salvos como “cara do App dia tal”, “fulano do bairro X” ou de acordo com preferências sexuais e tamanho de pinto. Os “migos” que curtem qualquer foto mas que nunca estão disponíveis para um café. A galera que está sempre à procura, seja de sexo, seja de validação, seja de amor. Gays de Direita vs Esquerdistas desconstruidex. Bichas crentes e drags pós RuPaul. Uma comunidade em que se entra por dentro, a partir de um desejo íntimo. Existe futuro para a “identidade gay”?

DandoPintaSloganÉ importante pensar em “gay” como identidade social. Independente de nossos desejos e práticas sexuais, existe uma estrutura social que diz que SOMOS – 24 horas por dia e forma inescapável – qualquer coisa definida por nossa orientação ou preferência sexual. Esse SER, essa transformação de alguma coisa em dado definidor da identidade de um grupo social inteiro, é o que produz tanto o preconceito quanto o sentimento de orgulho em relação à homossexualidade. É o que nos FAZ gays.

O caso é que ninguém pensa ou faz sexo o tempo todo. Entretanto, toda uma identidade social é baseada em uma manifestação de desejo sexual. Com isso temos todo o moralismo que cerca qualquer debate sobre o sexo e a sexualidade, mas a dor e a delícia do “ser gay” está nesse olhar do outro sobre nós. Os heterossexuais são definidos pela homossexualidade. Ela é o limite da “normalidade” – e do poder – hétero. São eles que precisam afirmar que “nasceram hétero” porque a “suspeita” da homossexualidade é uma ameaça à norma. É por isso que eles nos violentam e ameaçam, o que por sua vez passa a ser parte fundamental da subjetividade gay. Daquilo que percebemos como o nosso lugar no mundo. Aquilo que entendemos que SOMOS e precisamos ASSUMIR.

A dúvida sobre o futuro da identidade gay não está na prática da homossexualidade, já que o sexo entre iguais sempre existiu e sempre existirá, mas sim na manutenção de uma comunidade imaginária. Um grupo social que não é definido por características específicas ou por uma região geográfica, mas sim por um conjunto específico de experiências de exclusão e de negociações de pertencimento, em uma sociedade onde estabelecer relações parece cada vez mais difícil. Um grupo social que talvez vá atingir o seu melhor momento justamente quando conseguir sumir…

Ser gay não é fácil. Apesar dos avanços, os problemas continuam. Nesse texto estou radicalizando ainda mais o foco da coluna nos homens gays porque a discussão sobre o movimento LGBT – ou melhor ainda, ALGBTTTQI+ – é muito mais profunda e com recortes e especificidades que eu sequer conseguiria tangenciar. Mas de qualquer forma, não estar dentro “da norma”, seja no tocante à sexualidade ou à identidade de gênero, é precisar negociar o pertencimento na marra todos os dias. É se empoderar em discussões de internet porque muitas vezes esse é o único lugar onde se pode encontrar algum igual para debater ou para partilhar um problema, só para logo depois ver essa sensação de “poder” diminuir tão logo saímos da internet e andamos pelas ruas olhando para os lados, à espera do próximo ataque. É apontar a injustiça do preconceito e denunciar a desigualdade para pedir – em paradoxo – por respeito à diversidade!

Apesar dos pesares, o “gueto” a que éramos relegados antigamente ainda permitia alguma sociabilidade. No underground a experiência partilhada de exclusão e as memórias construídas em conjunto iam estabelecendo relações, amizades, namoros, associações, esse senso de comunidade, de causa comum, de um grupo político. Um segmento, sim, mas também uma irmandade. Não em sentido romântico, como se não existissem divergências, mas no senso de unidade. Algo que vem se perdendo na esteira dos direitos conquistados e dos avanços tecnológicos que estão reformulando os meios de interação.

É óbvio que a internet é uma coisa positiva. Se antes um jovem gay se sentia sozinho até que, de repente, entrasse escondido em uma boate e descobrisse um mundo novo, agora qualquer criança participa de grupos onde todos os assuntos são discutidos. Pro bem e pro mal, a coisa é mais rápida. Mas as relações parecem mais fugazes também, como se estivéssemos nos habituando a tratar com as pessoas apenas na base do “gosto” ou “não gosto” dos aplicativos, virando para o lado porque sempre vai ter outro perfil para um papo ou uma transa. É tudo “pra já” e estamos sempre sozinhos, porque o espaço de comunhão é um mundo virtual de memes da Gretchen e discussões sobre cantoras, o que obviamente não vai incluir todos os “tipos de gay” também, estimulando a criação de mais e mais subgrupos dentro de um segmento dentro de um nicho, tipo aquelas bonecas russas que sempre revelam uma menor em seu interior.

Bem, esse talvez seja o futuro de toda a sociedade individualista. De qualquer forma, nosso futuro parece estar garantido nesse equilíbrio bizarro entre gays orgulhosos de sua condição, gays que tentam negociar aceitação e os que simplesmente não se identificam com nossa cultura e “papel social”, apesar de não terem problemas com a própria homossexualidade. E claro, com os heterossexuais no outro extremo, sempre lembrando que somos iguais pero no mucho, já que a separação entre as duas identidades é necessária.

Apesar da ideia de que SOMOS alguma coisa, não é interessante que alguém precise sempre lembrar do nosso lugar?

Permita-se. Seja livre. Seja fabuloso.

Leia a Dando Pinta todas as quartas, aqui em Os Entendidos, e não esqueça de curtir a nossa página.

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Escrito por:

Fabricio Longo

Ator e cientista social, criador e editor-chefe do site. Apaixonado por antropologia, cinema e Coca-Cola, é a mente problematizadora por trás da coluna Dando Pinta. Morre de orgulho do legado desse espaço, e segue tentando não ser soterrado por uma montanha de bonecas Barbie e quinquilharias da Mulher Maravilha! Perguntas, críticas e cantadas no fabricio@osentendidos.com.br.

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