Migos, migas, migues, azamiga e os amigos gays!


A pegação de internet que virou melhor amigo. O amigo de escola que reapareceu em um chat. A paixonite frustrada que me tirou do armário. A menina antipática que se transformaria no meu relacionamento mais importante, especialmente depois do fim. A aluna perfeita que me chamou para ser seu padrinho de casamento. As amigas de infância da minha amiga que hoje falam comigo e não falam mais com ela. A cutucada que virou amor da vida. As fotos, os enterros, os nascimentos, as aulas, os trabalhos, as séries, as sessões de cinema… Os amigos.

DandoPintaSlogan“Friends” já virou uma espécie de “Chaves”, aquela coisa antiga que passa na TV e você ainda dá uma olhada e ri apesar de saber todas as falas. Mas não é exatamente da série que quero falar e sim de um verso da música tema, que acho o mais bonito, que diz “até no meu pior, estou melhor com você”. Acho que é uma das melhores definições de amizade que já vi e sem dúvidas o tipo de relação que procuro ter com as pessoas que considero minhas amigas.

É estranho que a gente seja tão bombardeado para conseguir namorados e amantes, enquanto às amizades é permitido um desenvolvimento mais natural. Talvez isso explique porque os relacionamentos amorosos costumam ter prazo de validade e as amizades são relações mais sólidas. É claro, existe todo tipo de dinâmica por aí, mas falo no geral mesmo. Dessa ideia tão óbvia e tão simples de que afinidades partilhadas, memórias construídas em conjunto e laços atados pelo tempo são “para a vida toda”, enquanto as paixões são – por definição – fugazes. É, de repente o grande segredo do amor é deixar acontecer naturalmente…

Voltando a falar de amizade e trazendo para o foco da coluna, basta dizer que há algo de especial nas amizades LGBT. A questão é que a amizade é uma relação formada pelo entendimento, por uma comunicação quase mística entre as partes. E isso é conquistado de formas variadas, mas sem dúvidas que passar por coisas em comum facilita o diálogo, o que no caso dos LGBT é essa mistura louca de dores e delícias que é tentar encontrar um lugar nesse mundo que é hostil mas que também é cheio de possibilidades. Tá, isso não quer dizer que basta alguém não ser hétero para ser uma pessoa incrível e todo mundo viver feliz para sempre e nem apaga problemas e escrotidões dentro da nossa comunidade. Não é esse o ponto. O ponto é justamente aquilo que nos transforma em uma COMUNIDADE, mesmo com todas as nossas diferenças.

A violência é real. O preconceito é real. Muitas vezes, a rejeição começa dentro de casa. Muitas vezes, a única família que podemos chamar de FAMÍLIA – com a boca cheia – é a “família escolhida” nas ruas da vida. Mas nem tudo é dor. Tem os amigos que amparam, que dão esporro quando necessário, que avisam quando somos trouxas. Os “migos” e “migas” e “migues” que quebram o galho se vacilamos no trabalho, que estudam junto mas que se precisar passam cola, que chamam para sair e bater bunda ou só chegam mais para conversar até amanhecer. Pessoas que reconhecemos como IGUAIS, seja pela história, seja pela política, seja pela moda, pela cor de cabelo, pelo som, pelos livros, seja pelo que for! Aquelas pessoas que, quando menos se espera, fazem parte da nossa vida e a gente nem percebe direito como. Rola uma telepatia que chamamos de piada interna e entregamos para a Deusa!

 Hoje comemoramos o Dia do Amigo e teremos aquela procissão de cafonices no Facebook. Tranquilo, para algumas pessoas esse texto é outra delas. O fato é que não interessa se você é a pintosa desconstruída ou o malhadão do Açaí, a amiga moderninha com um “pet gay” ou se o melhor momento do dia é quando o WhatsApp grita que aquele grupo de nudes e memes tem outra mensagem para você. Estamos conectados e isso é muito anterior à internet e suas tretas. Somos uma comunidade, uma “sociedade imaginária” criada pela nossa identidade sexual e pela forma como a “sociedade concreta” olha para nós. E com os amigos, encontramos nossa tribo.

As Spice Girls cantaram que “amizade nunca termina” e isso é verdade. Pessoas entram e saem de nossas vidas, brigas e desentendimentos acontecem, o tempo e a distância acabam com a convivência. Mas o sentimento fica. O que foi dividido permanece. É comunicado no olhar.

Permita-se. Seja livre. Seja fabuloso.

Leia Dando Pinta todas as quartas, aqui em Os Entendidos, e não esqueça de curtir a nossa página.

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