Por que brasileiros não falam sobre o HIV?


“Por que os brasileiros se ofendem quando pergunto se fizeram teste de HIV recentemente?”, foi a dúvida que Michael, um conhecido meu do Canadá, me apresentou pelo WhatsApp. De férias no Rio, ele rapidamente recorreu aos aplicativos de pegação para “conhecer pessoas” e se mostrou feliz com o interesse dos cariocas pelos gringos, mas ficou intrigado com essa nossa aparente vergonha em falar sobre DSTs com parceiros em potencial.

DandoPintaSloganDá para entender. Não é que a vida dos soropositivos seja alguma maravilha na América do Norte, muito pelo contrário, mas há uma cultura que trata a informação do status sorológico com mais naturalidade. Aliás, uma pesquisa básica nos perfis internacionais dos já mencionados aplicativos mostra a invisibilidade do tema no Brasil. Há estrangeiros que colocam a positividade ou negatividade como só mais um dado do perfil, outros que se declaram abertos ou fechados a conhecer soropositivos e os que especificam quais métodos de prevenção utilizam ou não. Já nos perfis brasileiros, reina o silêncio…

Segundo o meu amigo, as pessoas reagiram com indignação à pergunta, como se ele estivesse inferindo que elas “tinham cara” de ter alguma doença ou de serem promíscuas. É algo curioso, já que o menu de peitos sem cabeça na tela do smartphone parece viver muito mais o slogan “temos que pegar” do que o joguinho do Pokémon, mas sei lá, de repente o povo estava a fim de encontrar um príncipe estrangeiro e achou melhor fazer a linha. Enfim, moralismo, moralidades, estigma… Nada de novo sob o sol.

O fato é que não falamos mais sobre esse assunto. Quando a epidemia de AIDS foi chamada de “câncer gay” nos anos 1980, nasceu o estigma que associou eternamente a doença à homossexualidade masculina. Apesar dos pesares, a urgência da luta contra o HIV deu um novo fôlego ao nascente movimento político LGBT e é provável que sem essa causa muito do que já foi conquistado ainda não tivesse vindo. Entretanto, o vírus não escolhe vítimas, então há muito que não se pode falar em “grupo de risco para infecção pelo HIV”. Agora, falamos em “comportamento de risco”, e embora isso ainda seja utilizado para justificar preconceitos, é algo a ser pensado.

Uma polêmica bastante atual é a da proibição de que “homens que fazem sexo homens” doem sangue. O problema está justamente em considerar que o sexo entre homens é um “comportamento de risco” em si, mesmo que de repente a pessoa tenha um parceiro fixo e faça uso de preservativos, quando na verdade estaria mais exposto o indivíduo que faz sexo com várias pessoas – independente do gênero – e sem proteção. Além do mais, qualquer amostra de sangue deve ser testada, o que também denuncia o absurdo da proibição. Fora isso, quando analisamos a questão sob um viés sociológico/cultural, embora os homens gays estejam mesmo mais expostos ao contágio – seja pela sexualização exacerbada da identidade gay, seja pela construção predatória da sexualidade masculina ou seja porque a homofobia estimula comportamentos destrutivos – , eles também estão mais conscientes desse perigo porque a AIDS ainda é socialmente tratada como “questão gay”. O que, em contrapartida, faz com que muitos heterossexuais simplesmente não se preocupem com a possibilidade de contágio. Sem falar nos que se consideram imunes!

Mas voltando ao nosso mundinho, qual o motivo do silêncio? Na única vez em que falei sobre o assunto aqui na coluna, foquei justamente no estigma e na culpabilização, já que um comentarista em outro post tinha sugerido que “pegar AIDS” seria a consequência óbvia de fazer experimentações sexuais variadas. E é assim, dessa maneira belicosa e infantil, que tratamos de um assunto tão sério em nosso meio. Primeiro, com uma negação que parece tratar a possibilidade de infecção eternamente como um problema “do outro” e nunca “nosso”. Em segundo lugar, com essa psicose de vilã de novela que julga os comportamentos alheios, faz fofoca e decreta que alguém “mereceu” algum tipo de “castigo”por fazer sexo, ao invés de debater o assunto seriamente. E por fim, naturalizando a ideia de que perguntar a um parceiro sobre a saúde dele e – principalmente – discutir a sua, é uma coisa errada ou inconveniente.

De acordo com estatísticas da UNAIDS, enquanto a população geral tem uma taxa de infecção entre 0,4% e 0,7%, nos homens gays a proporção cresce para 10,5%. E isso é relativo apenas ao que é registrado. E enquanto o sexo com pessoas soropositivas em tratamento é praticamente livre de riscos – tanto pelos efeitos da medicação quanto pelo monitoramento – , o número incalculável de pessoas que sequer sabem que são portadoras representa um risco enorme, particularmente para os jovens que não cresceram vendo amigos e ídolos sucumbirem à doença e que só são lembrados dela, como algo quase inexistente, em campanhas engraçadinhas de Carnaval.

Entre amigos, namorados e parceiros eventuais, quantos soropositivos você conhece? Um, dois, dez… Não importando o número, ele é certamente menor do que a realidade. As pessoas não falam sobre isso. E embora elas não tenham que ser obrigadas a falar, o que é preciso combater é o preconceito que transforma o assunto em tabu. É o medo da rejeição, da culpabilização, do isolamento. E é esse mesmo preconceito que impede que tenhamos uma postura mais madura e sincera sobre o assunto em nossa comunidade, o que só contribui para que mais e mais pessoas sejam infectadas. E pior, para que se sintam sozinhas entre seus pares, igualmente isolados por uma cortina de invisibilidade.

No fim, o nosso “comportamento de risco” é o silêncio.

Permita-se. Seja livre. Seja fabuloso.

Leia Dando Pinta todas as quartas, aqui em Os Entendidos, e não esqueça de curtir a nossa página.

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