Orgulho de ser “diferente”…


VERGONHA. A cada ameaça, das veladas como “piada” às assumidas em punhos cerrados, tentaram me cobrir de vergonha. Tentaram me convencer de que EU era uma vergonha. Para mim, para o mundo, para Deus, para minha família. Uma vergonha por estar à margem, por ser “anormal”. Vergonha simplesmente por não ser igual a “eles”, o que é estranho porque não lembro de ter expressado esse desejo. E se eu tivesse vergonha justamente de ser “normal”, já que tantas atrocidades são aceitas como coisas naturais? Ser diferente é motivo de ORGULHO.

DandoPintaSloganNinguém é igual. Somos todos humanos e não é por acaso que esse argumento é um dos preferidos entre os reacionários que tentam a todo custo demonizar as demandas das minorias. Afinal, se somos todos humanos, qual a justificativa para a criação de leis ou de benefícios para negros, para mulheres e para os LGBT? Não temos uma constituição que atesta que somos iguais e a justiça contra qualquer crime? O problema, como qualquer integrante das tais “minorias” sabe, é que essa “igualdade” precisa sempre estar entre aspas.

Nós falamos de sexo, de sexualidade, de identidade de gênero. Aí a galera discute, grandes teorias acadêmicas florescem, uma coleção maravilhosa de gírias e memes e zoeiras entra para o vocabulário e meia dúzia de coisas empacam décadas no sistema político para um dia, com sorte, saírem do papel. É a tal desigualdade que pede isso, não por causa de uma ou outra diferença física entre os animais da espécie humana, mas por causa da diferença que é produzida socialmente. Por causa da diferenciação que transforma alguma coisa em qualidade e alguma outra em defeito.

Na tentativa de entender – e de explicar – o nosso lugar no mundo, medimos e comparamos cérebros e hormônios, cruzamos saberes como a psicologia com o achismo da vovó e agora lacramos em nossas bolhas do Facebook, enquanto desconstruimos qualquer coisa disputando likes e vigiando quem pega quem. O lema “eu nasci assim” ainda é usado por muitos para tentar convencer ozétero de que ninguém escolhe ser LGBT porque ninguém escolheria ser alvo de exclusão. Além do mais, não temos controle sobre o nosso desejo. E é verdade, os mistérios que formam a nossa subjetividade, ainda mais nessas coisas mais primárias, ainda são muitos. Entretanto, não é um lema que sirva para explicar a construção social dos gêneros, então politicamente não serve mais como argumento estratégico.

Gênero e sexualidade são essenciais ou são essencializados? O meu pênis sempre esteve aqui, mas não lembro de quando me entendi como homem. Quando tomei consciência, algumas coisas que consideramos “de homem” já me haviam sido ensinadas. Minha mãe mantinha meu cabelo curto e dizia que o xixi era para ser feito em pé e que se alguém me batesse na rua eu deveria bater de volta, ao invés de chorar ou correr para contar para ela. Na lista do “não pode” estava qualquer coisa “de menina”, não porque eu corresse o risco de virar uma menina mas porque eu poderia virar uma “bichinha”. Depois eu comecei a entender o que isso tudo significava, até porque a rua nunca se constrangeu em me chamar de “viado”, mas geralmente eu passava meus dias desenhando ou brincando com o He-Man e não fazendo sexo com outros meninos, e mesmo assim eu ERA viado. Independente do que eu estivesse fazendo ou sentindo, a qualquer momento do dia, as pessoas tratavam a minha suposta sexualidade como a marca definidora do meu ser.

Hoje que eu vivo de falar sobre isso, sou obrigado a questionar se SER é a mesma coisa que SER TRATADO COMO SE FOSSE.

Independente de nossas histórias de vida ou de estratégias políticas, tem de tudo no mundo. Gente que considera que “nasceu gay”, gente que “se descobriu” mais tarde, gente que mantém práticas homossexuais e se identifica como hétero, gente que se identifica como gay ou lésbica sem nunca ter feito sexo, pessoas que simplesmente não fazem sexo, outras que fazem mas não se envolvem afetivamente, etc. Há quem se identifique com um gênero independente de seu genital ou de sua sexualidade, e há quem acredite estar quebrando essas barreiras porque pintou a unha.  No fim das contas, o que SOMOS ou o que DIZEMOS QUE SOMOS só importa para a nossa paz individual. Lá fora, o que conta é COMO SOMOS TRATADOS.

E somos tratados como diferentes, como anormais, como motivo de piada, como alvos de tiro, porrada e bomba. Essa diferenciação negativa afeta não apenas a experiência do “ser LGBT”, mas também o que significa “ser hétero” e o quanto alguém vai lutar para manter essa “superioridade”. Mas é essa diferenciação, também, que abre uma janela para que sejamos nós os “melhores”. Não por causa de alguma hierarquia social bizarra, mas porque temos a chance de olhar para os que sofrem conosco. E sim, fazer parte de alguma minoria não isenta ninguém de ser escroto, mas pelo menos  se pode alimentar essa esperança.

Olhando para o NORMAL, transbordo de ORGULHO por ter sido, a vida toda, DIFERENTE.

Leia Dando Pinta todas as quartas, aqui em Os Entendidos, e não esqueça de curtir a nossa página.

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