Por que queremos TANTO ser importantes para alguém?


A gente nasce e morre sozinho. Isso não impede a criação de laços entre as pessoas e nem o estabelecimento da rede de relações que chamamos de sociedade. É algo fundamental para a manutenção da vida como a conhecemos. Será por isso fazemos tanta questão de significar alguma coisa para “o mundo”, para “Deus” ou simplesmente para outra pessoa? Qual é o segredo da “satisfação”? Que tipo de relação “nos basta”? O que chamamos de “amor” tem lógica?

DandoPintaSloganNessa semana vi um texto intitulado “Eu também existo quando você não está solitário ou com tesão”. É ótimo, recomendo. Basicamente, ele faz uma provocação sobre as relações superficiais entre os inúmeros “amigos” conquistados em aplicativos e baladas que enchem a nossa lista de contatos e que só lembram de mandar um “oi” quando querem algo mais que uma punheta. Sem cafuné, sem Netflix, sem salgadinhos ou pote de Nutella.

É o tipo de texto certeiro, ainda mais na época das “relações líquidas” das redes sociais e com todo mundo caçando um “mozão” para chamar de seu. Quando olhamos para os LGBT, a questão é provavelmente ainda mais problemática, já que uma identidade social estigmatizada cria um abismo de isolamento e a busca por algum tipo de validação, e no caso específico dos homens gays há os problemas da sexualização e do machismo criando gerações de “felasdaputa”. É triste.

Entretanto, desabafos à parte, é preciso tomar cuidado com duas coisas: a valorização excessiva de relacionamentos amorosos – especialmente quando ela é usada para demonizar práticas sexuais – e a necessidade constante de colocar a nossa felicidade no outro.

Namorar é legal. Ter vontade de namorar não é ruim, embora seja uma coisa meio complicada porque depende de um fenômeno imprevisível. Sim, tem gente que “está procurando” e tem gente que foge disso “como o diabo foge da cruz”, mas qualquer relação – seja entre amigos, colegas de trabalho ou namorados – se estabelece na troca entre as pessoas. Química, afinidades, papos, memórias partilhadas, etc. “Querer namorar” é um desejo produzido pelo ideal romântico da nossa sociedade, pela construção social dos relacionamentos afetivos e sexuais como parte das “coisas que se deve ter para uma vida feliz”. Não tem “final feliz” sem príncipe. E independente dos formatos, de traições, de experimentos polimodernosos cult ripongas  ou de qualquer coisa, tem gente conseguindo chegar ao sacrossanto momento de colocar aquele “em um relacionamento sério” no Facebook. Alguns desses relacionamentos não duram nada, outros são extremamente sólidos. Nem todos são exibidos nas redes.

A questão é que o RELACIONAR-SE, esse “estar em relação”, fala justamente do processo contínuo de construir alguma coisa com alguém. É por isso que talvez esse “querer namorar” pareça tão difícil. É um pouco como querer fazer uma tatuagem sem ter escolhido o desenho, ao invés de procurar um desenho que dê vontade de tatuar. Mas claro, é uma vontade legítima. Não dá para prever quem será A PESSOA com quem vai pintar uma relação tão complexa, então o jeito é seguir tentando. Gente escrota vai ter em qualquer lugar e obviamente que “os vícios do meio gay” vão produzir situações ainda mais tristes de exclusão dentro da exclusão, mas fazer o quê? Se “é o que tem para hoje”, o caminho é tentar mudar as coisas nas atitudes e no debate e AO MESMO TEMPO seguir tentando. Tem gente que só quer sexo e aplicativos facilitam isso, beleza. Não dá para tirar onda de “carrasco moral” e dizer que quem quer algo diferente de você é algum pária social.  O lance é procurar quem queira.

O que nos conduz ao problema desses textos e talvez a uma das grandes perguntas filosóficas da espécie humana: Por que queremos TANTO ser importantes para alguém?

Fora as questões biológicas e sociais, estamos agora tendo que aprender a lidar com as transformações que moldam o nosso presente, inclusive na forma como nos comunicamos. Para algumas coisas servem os amigos, para outras o crush ou a pegação no fim de semana. Mas para aquela que só se resolve quando o outro – esse eterno mistério – corresponde às nossas expectativas, talvez a melhor coisa seja tentar não esperar nada. É difícil, talvez seja até impossível, não sei. Mas transformar a possibilidade de outra pessoa sentir alguma coisa em razão da nossa felicidade me parece uma aposta arriscada demais. E as reclamações e separações estão aí para mostrar que esse jogo é mesmo perigoso, então talvez a saída possível – não necessariamente a mais bonita ou romântica – esteja em buscar a satisfação em si. No clichê do “se amar”, em se orgulhar dos próprias conquistas, em seguir com os próprios projetos…

Quem sabe, de repente é assim que alguém fica verdadeiramente aberto a conhecer outra pessoa e a construir alguma coisa com ela. No caso, a morte ainda será uma experiência solitária, mas pelo menos teremos quem segure o caixão.

Permita-se. Seja livre. Seja fabuloso.

Leia Dando Pinta todas as quartas, aqui em Os Entendidos, e não esqueça de curtir a nossa página.

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