Bolsonaro e a cultura do estupro


O Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu nesta última terça-feira (21) aceitar duas denúncias contra o deputado Jair Bolsonaro (PSC-RJ)  por incitação ao estupro e por injúria contra a deputada Maria do Rosário (PT-RS). Mais uma vez, o episódio em que o deputado disse que só não estupraria Maria do Rosário porque ela não merece, volta à cena e sua legião de fãs brota dos lugares mais longínquos da Terra para defendê-lo usando a justificativa de que Bolsonaro nada tem a ver com a cultura do estupro, já que possui um projeto de lei que promoveria a castração química para estupradores.

venus

 

De que adianta ter um projeto de lei que supostamente pune de forma correta estupradores e fazer apologia ao estupro? É incoerente até mesmo pra uma figura como Bolsonaro, conhecido por seus discursos de ódio contra mulheres, negros e LGBTs. Um deputado cuja arrogância é tão grande que exalta torturador em votação num processo de impeachment contra uma mulher que foi uma das vítimas do Coronel.

Não consigo acreditar na incoerência nos discursos dessa legião de fãs que o defendem cegamente e procuram justificativas para as atrocidades desse homem, que legitima ações que desumanizam minorias. O próprio já afirmou que se um filho apresenta tendências homossexuais, é só agredir a criança que a agressão a consertará. Se fosse brasileiro, o atirador do massacre de Orlando votaria no Bolsonaro.

Com o caso tenebroso do estupro coletivo vindo à tona, os seguidores do deputado exaltaram novamente o projeto de lei 5398/13 que usa a castração química como condição para o condenado por estupro voltar à sociedade. Isso não funciona, porque estupro não é o caso de uma libido excessiva que precisa ser controlada com castração, é quase como patologizar o abuso, e estupradores não são doentes. Estupro é relação de poder, é crime de ódio, é misógino, além disso, sabe-se que o Estado é burguês e as punições são diferentes de acordo com raça e classe.

Homens também são estuprados… Por outros homens, isso mostra o quanto esse tipo de crime está ligado a um poder que emana do patriarcado e Bolsonaro participa da manutenção desse poder quando exalta torturador, defende pastor estuprador e diz a uma mulher que não a estupra por ela não merecer, subentendendo que existem outras mulheres que merecem, além disso, ninguém garante que o estuprador após a castração não usará de outros meios para estuprar mulheres, como Ustra fazia inserindo ratos nos órgãos genitais de suas vítimas.

Crimes como roubo, tráfico ou furto têm motivações diferentes do estupro. A desigualdade social é o fator a ser combatido nesse caso, por isso, não é correto afirmar que existe incoerência no movimento feminista que é contra a redução da maioridade penal. Incoerente é se dizer contra a cultura do estupro e votar em Bolsonaro, ser conivente com um governo golpista cujo ministro da educação discute sobre a mesma com um estuprador ou ser contra a inserção dos estudos de gênero na educação.

Precisamos reeducar a sociedade e só então, não precisaremos mais punir. Uma sociedade que culpabiliza uma menor de 16 anos e enxerga como uma brincadeira um homem de 21 assediar uma repórter é uma sociedade que necessita de uma reeducação com urgência. Bolsonaro é réu no STF e essa vitória é nossa.

Previous Por que queremos TANTO ser importantes para alguém?
Next Pepeu Gomes e sua fase rockstar nos anos 80

No Comment

Leave a reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *