Censores em ação, Robert Darnton


Censores em ação, de Robert Darnton e publicado no Brasil pela Companhia das Letras, busca analisar em três períodos históricos como os Estados influenciaram o fazer Literário por meio da censura, mas, antes de se deter necessariamente nos momentos que ele acompanhará, o autor nos diz que é necessário ter em mente o que seria a censura, para não cairmos em generalizações. Ele retoma essa mesma questão, ao final do livro, a fim de fazer um arremate nas ideias desenvolvidas no correr do texto.

Estante2censores em açãoDaniel, mas por que falar de um livro sobre censura na literatura?

Para além do óbvio, que é o fato dessa coluna ser sobre literatura e não apenas livros, há também que a relação entre Literatura e Estado ajudam na formação da nação, na instrução e no desenvolvimento de uma tradição que está intrinsicamente vinculada à maneira de pensar das pessoas.

É isso que acompanhamos, por exemplo, na terceira parte do volume, que trata sobre o modo como trabalhavam os censores no período da União Soviética, que me pareceu ser um jeito bastante interessante de aliar exemplos vistos nos outros dois períodos analisados anteriormente pelo autor, a saber: a França dos Bourbon e a Índia Britânica.

Na primeira parte, vemos como a Censura pode ter uma face positiva. Na época dos Bourbon havia toda uma estrutura de avaliação do texto por censores que davam a autorização real para que a obra fosse publicada. Havia outras maneiras de se publicar um texto? Havia. Mas, ter o privilégio de ser publicado com a chancela real era algo que muitos autores queriam, assim, muito mais do que censurar, tinha-se ali a questão do poder publicar.

No entanto, obras que sabidamente não receberiam as chancelas reais de publicação nem eram enviadas aos censores reais para avaliação do texto, estas eram logo encaminhadas para fora, como a Holanda, por exemplo, a fim de serem publicadas e depois contrabandeadas para o interior da França. No geral, essas obras eram de cunho político-satírico ou eróticas.

O mais interessante é perceber que todo esse problema com o conteúdo de obras clandestinas fez crescer o crime de contrabando e pirataria como movimento de “contra-censura” e no qual muitas pessoas importantes e mesmo que deveriam evitar tal coisa, se juntassem à prática.

Já na Índia Britânica, em teoria, não havia censura. Como mostra Darton, ao citar os documentos de publicações anuais do país, havia um volume muito grande de publicações, a maioria vista como menores pelos ingleses que colhiam informações sobre elas.

Contudo, são essas publicações menores que ajudaram a criar um sentimento nacionalista entre as pessoas, que acabou ocasionando, junto a outros elementos, levantes contra a Coroa Real Britânica, fazendo com que os Ingleses passassem não só a prestar mais atenção no que era publicado, como também a manipular os conceitos de sedição.

Então temos a censura na União Soviética, que alia a permissão do Estado para as publicações como uma eterna vigilância daqueles que estão inseridos em todas as etapas do meio editorial, criando o clima de tensão que já conhecemos das nossas aulas de história sobre os países em que governos ditatoriais assumem o poder.

Confesso que em muito das descrições feitas por Darton me lembrei do que se fala sobre a nossa Ditadura Militar.

Porém, o que é interessante em todo o processo instalado nesse terceiro período é que a censura seria como o poder, a forma como o poder está associado ao pensamento de Foucault. A censura é risomática, não está unicamente numa relação vertical e descendente, ela é também vertical e ascende e foge por tangentes.

O ponto chave aqui é que, a censura assume ares de negociação, como visto no período Bourbon, em que ser influente e ter amigos influentes, ajudavam no processo de permissão da publicação e que também era assegurado pelas informações colhidas pela polícia soviete, a Stasi.

Voltando agora para a resposta que eu dei a pergunta feita no início desse texto, que fala sobre o papel que a interferência do Estado na Literatura faz com o povo sob domínio desse Estado, temos que o gosto e a visão de mundo e mesmo o que nos impele a ir contra o que está instituído perpassa pela ação do Estado no fazer Literário, por mais que não tenhamos acesso diretamente ao que é publicado.

Por exemplo, imagino que muitos que me leem neste momento não tenham lido Homero ou Platão, e mesmo desconheçam integralmente a história de Bento e Capitu, mas, ainda assim, essas histórias estão em nossa memória literária e moldam a sociedade de certa maneira, como tentava mostrar Vasques, em sua história da literatura, A Poeira da Glória.

Para além disso, ela nos mostra como, socialmente, nós pensamos a Literatura, o Mercado Editorial e permitem mapear os nossos gostos literários.

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