Gays, cultura do estupro e “cultura do estupro gay”…

Gays, cultura do estupro e “cultura do estupro gay”…

Todo homem é um estuprador em potencial. A frase é polêmica porque afirmações generalizadas são perigosas e porque nenhum “inocente” quer carregar a culpa por um crime. A questão é que não somos inocentes. Não quando pensamos em como são tecidas as noções de masculinidade, de poder e de dominação em nossas vidas. É por isso que um estuprador não é uma exceção e sim o produto de uma doença social. Uma doença que também atinge os gays.

DandoPintaSloganO problema é a masculinidade. Não o fato de alguém “dar pinta” ou não, se sentir bem agindo de um jeito ou de outro. O que existe de essencialmente ruim na masculinidade como conceito social, da forma que é construída e vivenciada em nossa sociedade, é a ideia da SUPERIORIDADE masculina. Do poder associado aos signos definidos como “masculinos” tais como a força, a agressividade, a falta de sensibilidade… E o direito de EXERCER esse poder.

Com o debate sobre a Cultura do Estupro em alta, surgiu a questão de como os homens gays são afetados por ela. É um questionamento que faz sentido, especialmente quando pensamos nas narrativas de muitos dos contos eróticos e vídeos pornográficos produzidos para o segmento. É um tal de “passivo destruído por cinco caras” pra lá, “paizão rasgando novinho” para cá, além de casos onde o estupro – ainda que simulado – é o protagonista, inclusive nos títulos, que chega a assustar! E por outro lado, há os casos de violência sexual contra pessoas LGBT, motivada por LGBTfobia. Acredito que esses dois caminhos partam do mesmo princípio, que é essa construção opressora da masculinidade. Esse é um ingrediente essencial da chamada Cultura do Estupro e da forma como ela afeta as mulheres e a sexualidade feminina, mas penso – e obviamente que todos podem discordar – que na subjetividade gay a adoração pelo “ideal masculino” muda a dinâmica.

Apesar de ser gay, continuo a ser um homem cisgênero. Quando estou sozinho na rua e vejo um grupo de homens se aproximar, tenho medo de ser assaltado ou de sofrer um ataque homofóbico. A ameaça de violência física é bastante concreta para mim. A de violência sexual, nem tanto. Eu sei que o estupro pode ser parte de um ataque contra mim, mas não tenho a relação de perigo iminente disso que as mulheres tem. Não sou “fortão” nem nada, mas a ideia que outra pessoa vá conseguir dispor do meu corpo contra minha vontade me é alienígena, e esse é um privilégio masculino. Tenho noção de que não gozo das mesmas oportunidades e da aceitação social vivenciadas por um homem adequado aos padrões sociais de masculinidade, ainda mais se ele for heterossexual. Entretanto, embora possa ser vítima de violência especificamente por ser gay, não sou tratado da mesma forma que uma mulher.

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Quando analisamos a “atração” gay por estupro, dominação ou situações de violência, é preciso tomar cuidado para não recriminar experimentações saudáveis da sexualidade. O tabu sobre o sexo e a sexualidade é responsável por muitas das proibições que moldam os nossos fetiches, e embora possa ser positivo investigar as razões por trás das nossas fantasias, ninguém é obrigado a isso. O que é essencial em qualquer situação é o respeito ao limite do outro, que é a questão principal do estupro: o consentimento. Nas práticas sadomasoquistas, o consentimento é a chave. Investigar os próprios limites é uma escolha e ainda que alguns possam “olhar torto” e querer problematizar o que faz alguém desejar alguma coisa, as escolhas são pessoais. No caso da pornografia, “o buraco é mais embaixo”.

Repito que a questão é a masculinidade porque ao contrário do que acontece na violência contra a mulher, a erotização entre gays não está exatamente no domínio sobre o corpo do outro. Há fantasias sobre “levar ferro para aprender a ser homem” que são relacionadas à homofobia e cenários de estupro ou sedução do homem hétero ou machão, como uma espécie de “vingança social” pela exclusão. Essa subversão de poder, inclusive quando causa dor ou valoriza a virgindade ou a juventude dos passivos, é totalmente relacionada à Cultura do Estupro mas difere dela na idolatria pelo ideal masculino. Mais do que um ódio ao feminino – ou ao efeminado – existe esse exagero de qualquer coisa que possa ser entendida como máscula, incluindo a brutalidade. Além disso, a sexualização masculina estimula uma postura predatória, que no caso de homens que se relacionam com homens não encontra o “freio” da castração filosófica feita nas mulheres. Isso sem falar no fato de que a identidade gay é um selo social que toma uma prática ou preferência sexual como pedra fundamental, o que também vai contribuir para a sexualização – tanto individual quanto social – dos indivíduos assim identificados.

Possivelmente, a solução para o problema do estupro – em qualquer situação – esteja em mostrar que “ser homem” não significa o mesmo que violentar ninguém. Seja essa violência física, sexual, psicológica, moral ou institucional.

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Escrito por:

Fabricio Longo

Ator e cientista social, criador e editor-chefe do site. Apaixonado por antropologia, cinema e Coca-Cola, é a mente problematizadora por trás da coluna Dando Pinta. Morre de orgulho do legado desse espaço, e segue tentando não ser soterrado por uma montanha de bonecas Barbie e quinquilharias da Mulher Maravilha! Perguntas, críticas e cantadas no fabricio@osentendidos.com.br.

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