TODO ESTUPRO É COLETIVO


Infelizmente ainda não são todas as pessoas que reconhecem o estupro como uma violência, já que são incapazes de reconhecer que há uma vítima envolvida. Nesse ciclo de banalização da violência sexual, as vítimas também aprendem que são responsáveis pelo que sofrem, e as bases do patriarcado cumprem seu papel em ensinar que as mulheres são sua propriedade e qualquer pessoa está autorizada a tomar parte delas.

venusOntem o mundo virtual foi arrebatado pela notícia de uma menina que foi estuprada por 33 homens, filmada e exposta. Por um lado, manifestações de repúdio ao ocorrido, e, por outro, pessoas defendendo os estupradores e apontando elementos da história da menina que justificassem a violação dela por 33 homens. A minimização da violência sexual cometida contra mulheres não é obra do acaso, assim como estupros não são casos isolados. De acordo com o Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2015, uma pessoa foi estuprada a cada 11 minutos no Brasil, no ano de 2014 (isso sem contar os casos que não foram reportados às autoridades), frequência que indica o quanto o estupro ainda é praticado como qualquer outra coisa própria do cotidiano.

Tal banalização de uma violência tem explicação nas nossas raízes culturais e na forma como determinados setores sociais refundam o patriarcado. No Brasil, temos forças conservadoras bastante ativas na política e na mídia. Forças que disseminam discursos de ódio que definem normas comportamentais, e também meios de se combater tudo aquilo que as ameaça. As manifestações dessas iniciativas são muitas: Gilmar Mendes soltou o médico estuprador Roger Abdelmassiha romantização do estupro na novela, Alexandre Frota confessando em rede nacional que estuprou uma mãe de santo; Jair Bolsonaro homenageando o torturador e estuprador Brilhante Ustra, depois de assediar Elen Page e de ameaçar a deputada Maria do Rosário de estupro corretivo, as inúmeras apologias ao estupro como forma de “crítica” ao governo de Dilma Roussef, os projetos de lei que praticamente transformam o estupro em sexo consensual. Esses são apenas alguns exemplos expostos em público que ajudam a montar a cena em que o estupro é permitido e que toda mulher pode ser violada, e a formar estupradores. Exemplos de como a oportunidade do estupro é oferecida pela própria construção social.

A violência cometida contra a menina em questão não é espontânea e pontual; é plantada e regada todos os dias, é o resultado de uma construção social que projeta lugares – os dos dominantes e os dos dominados – e que é ininterrupta. Esse projeto não escolhe seus contemplados: todos estão destinados a aprender a ser estupradores e todas estão destinadas a aceitar que são propriedade do patriarcado. Da mesma forma, esses todos são ensinados sobre qual é o lugar delas, e elas são ensinadas sobre qual é o papel deles. É claro que há eles que desaprendem a ser estupradores, assim como há elas que aprendem que são vítimas e não responsáveis. Mas não há como negar que, nessa lógica, estuprar é sempre um crime coletivo, assim como ser estuprada é uma experiência coletiva. Não digo com isso que não devemos considerar as proporções de cada crime e de cada experiência, porque não há padrão para a crueldade, e, obviamente, nem para o sofrimento. O que é preciso apontar aqui é que o crime é uma construção social, o que significa que, para combatê-lo, precisamos interromper o processo que o constrói.

Eu fui estuprada mais de uma vez: algumas vezes como protagonista do episódio, outras vezes sabendo que outra pessoa foi vitimada, o que me faz lembrar sempre que pode acontecer comigo de novo. Não há estupro que não seja coletivo. A menina envolvida no caso específico talvez nunca fale sobre o que aconteceu. E mesmo que um dia ela consiga, não podemos esperar até lá para falar sobre a cultura do estupro.

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