O golpe na representatividade


Não reconheço governo golpista! Aderi à campanha de colocar essa frase na foto do perfil em rechaço ao governo ilegítimo do presidente interino Michel Temer, porque o mesmo já chegou ao cargo através de um golpe de Estado e midiático. E nós, mulheres, temos muito a temer.

venus
A extinção de Ministérios como o das Mulheres, da Igualdade Racial e dos Direitos Humanos foram algumas das primeiras medidas de Temer. O que isso evidencia acerca do seu modus operandi de governabilidade? O desprezo que o presidente interino possui pelas políticas públicas de assistência às minorias. Enganou-se quem pensou que o retrocesso estacionaria nessas medidas assombrosas, pois, no anúncio dos nomes indicados para assumir os ministérios, pode-se tomar consciência de que Temer não indicou nenhuma minoria.

Reacende-se, então, o debate sobre representatividade nesse momento. É mais do que consenso que não é eficaz exigir nomes de pessoas que teoricamente representem minorias nos Ministérios, mas que possuem uma agenda política totalmente desvinculada de assistência às mesmas minorias. Em síntese: não adianta exigirmos nomes de pessoas negras que não pontuem o debate da questão racial ou mulheres que são completamente contrárias às questões de equidade. Representatividade de qualquer jeito não pode ser nossa reivindicação. Isso é um fato.

Mas é mais do que necessário que estejamos atentas e atentos à forma como essas indicações e a ausência de representatividade fazem jus ao modo como Michel Temer pretende governar e a quem esse governo servirá: homens brancos, ricos e até mesmo corruptos. As indicações escancaram o caráter misógino desse golpe. Um retrocesso imenso que dói na alma.

Enquanto alguns setores da esquerda discutiam a necessidade de posicionamento contra o golpe, a direita bem unificada derrubou Dilma Rousseff de maneira desonesta, um bando de homens brancos, velhos, sádicos e hipócritas deram um golpe em uma mulher cujo nome até hoje não apareceu em nenhuma lista referente aos esquemas de corrupção e abriram a porta para que um homem citado em duas delações da Lava Jato, cujo nome aparece em esquemas como receptor de propina, assumisse a presidência. E como se não bastasse tudo, a situação torna-se ainda mais preocupante quando se destaca quem é o novo responsável pela Secretaria Especial de Mulheres do Brasil, que toca políticas públicas de proteção à mulher.

O novo ministro da justiça, Alexandre de Moraes, o mesmo que protagonizou a fala misógina no episódio em que dois homens invadiram a bilheteria de um metrô em São Paulo e renderam a funcionária, uma jovem de 18 anos. Quando não conseguiram abrir o cofre, decidiram estuprar a menina, que foi amarrada e violentada no local. Alexandre, secretário de segurança de São Paulo na época, disse que não havia necessidade de mais segurança no metrô, porque o roubo não foi consumado.

Durante sua gestão no comando da Segurança Pública paulista, a ausência de transparência foi um marco além do sigilo que impôs sobre documentos e fontes das estatísticas de mortes violentas: houve crescimento no número de mortes cometidas por policiais dentro e fora do horário de serviço. Em 2015, a proporção de negros mortos em ações policiais foi de 72% em relação ao ano anterior, aumentando mais de 10%. Partiu de Alexandre também, a ordem de ações policiais em escolas ocupadas por secundaristas na luta contra seu fechamento e por merenda de qualidade. A política de juventude fica a seu cargo agora que comanda o Ministério da Justiça.

E, se por um lado temos Ricardo Barros como ministro da saúde, dizendo que terá de conversar com a Igreja sobre o tema do aborto, do outro lado temos o novo ministro da educação Mendonça Filho filiado ao DEM, partido que fez intensa oposição às políticas de educação desenvolvidas nos últimos anos, recorrendo, por exemplo, ao Supremo Tribunal Federal (STF) contra a implementação do ProUni, do Fies e da política de cotas para negros nas universidades federais. Houve também oposição quanto à destinação de recursos advindos da exploração do pré-sal para a Educação. É também um grande defensor da redução da maioridade penal. Há muito a temer.

Além de tudo isso, não vemos reportagens falando sobre as roupas de Michel Temer ou sobre as rugas em seu rosto, nem mesmo questionam a diferença de idade entre ele e sua esposa Marcela. Temer é a figura apresentada como o homem equilibrado, que sabe usar o plural, possui ao seu lado uma mulher bela, recatada e do lar, do jeitinho que a Veja gosta. É a imagem do homem que veio arrumar a bagunça que uma mulher fez. Os que bradavam contra a corrupção aceitam calados um bandido citado duas vezes em delação.

É preciso ter muita força e coragem para enfrentar o momento que estamos vivendo, a pressão deve vir do povo e a recriação do Ministério da Cultura mostrou isso. Com o anúncio da extinção do mesmo, ocupações e shows gratuitos em representações regionais do ministério mostraram a força da classe artística, a cultura é subversiva por natureza e seguirá resistindo até o fim. Dias de muita luta estão vindo com uma rapidez imensa. Serão dias de muito cansaço, mas nossa luta é incansável e do luto, fazemos verbo. Nossos direitos não são permanentes, aprendemos com Simone de Beauvoir que precisamos nos manter vigilantes durante toda a nossa vida. Estamos de pé e resistiremos. Derrota após derrota até a vitória final. Golpistas não passarão!

Previous Espelho, espelho meu, alguém LACRA mais que eu?
Next TODO ESTUPRO É COLETIVO

No Comment

Leave a reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *