Christina Aguilera – Mais que despida em “Stripped”

Christina Aguilera – Mais que despida em “Stripped”

Considerado um dos melhores discos da cantora Christina Aguilera, “Stripped”, que completa em Outubro 14 anos de lançamento, pôde finalmente libertá-la da imagem de boa moça cuidadosamente fabricada por sua assessoria, afim de manter-se igualada à Britney Spears, tanto musicalmente quanto esteticamente. Com este álbum, Christina deu seu grito de independência, provando ser muito mais do que a nova sensação do pop, confiante frente aos seus ideais sobre feminismo, auto-estima, valor moral e sexualidade, acertando as contas com o seu passado e com seus adversários.

“Stripped” inicia-se com flashes de notícias televisivas em voice-over à seu respeito e logo é cortada com a imponência de um órgão, criando uma atmosfera religiosa sobre o recitativo da cantora, que em tom de confessionário convida o ouvinte à conhecê-la mais de perto, por suas próprias palavras. Começa a desconstrução: Christina pede desculpas por mostrar sua verdadeira identidade, mas não se mostra arrependida por isso: “Desculpa se não disfarço/Desculpa vou ser eu mesma/Nunca mais vou esconder o que realmente sinto/De forma alguma”.

Empoderamento – Para que se compreenda o que motivou Christina a compôr “Can’t hold us down”, é importante relembrar o episódio ocorrido em sua apresentação no Video Music Awards em 7 de Setembro de 2000, exibida pela MTV americana, enquanto cantava “Come on over (All I want is you). Dividindo o palco com o vocalista da banda Limp Bizkit, momento hardcore em que ele canta “Livin’ it up”, Fred Durst provocou a ira dos roqueiros e foi convocado a dar explicações, declarando, sem embaraço: “Fiz pelo sexo, ela é gostosa”, o que a cantora veio a desmentir no programa “Diary of Christina Aguilera – A Girl’s True Confessions”.

As provocações continuaram com o rapper Eminem em músicas como “The real Slim Shady” e “Off the wall”, o bastante para que ela desse o troco em forma de música, contestando esse comportamento machista sobre a glória dada ao homem pelo número de mulheres que consegue levar pra cama, as tratando como meros objetos sexuais.

Não o bastante, a letra também questiona porque a mulher quando tem o mesmo comportamento é chamada de vadia. A música convoca as mulheres a se unirem contra essa idéia errônea de que homens são superiores, brigando por maior respeito. Christina não precisou citar nomes, mas fica óbvio sacar a quem ela se refere nos versos “É claro que isso não é homem pra mim/ Caluniando pessoas em nome da popularidade/ Triste saber que você conquista sua fama em cima de controvérsias/Mas agora chegou a minha vez de te dizer umas verdades”. Uma garota opiniosa e de fortes convicções incomoda. E ela estava apenas começando.

Christina segue dando seu recado na raivosa “Fighter”. Ao invés de abaixar a cabeça e sofrer pelo abuso moral causado por alguém que a entristeceu, ela prova o quanto a situação ruim conseguiu fazê-la mais forte e agradece por isso.

“Get Mine, Get Yours” e “Dirrty” são as duas canções que falam abertamente sobre sexo não-romântico, de apelo físico, por puro prazer e satisfação pessoal. Sim, Christina não estava mais interessada em esconder seus anseios, pela moral e pelos bons costumes, causando horror entre o público pela desconstrução do personagem inofensivo apresentado no início de sua carreira. Aquela loirinha magra agora era uma morena provocante de curvas e seios robustos, usando roupas sumárias. Ao fim de “Dirrty”, quase que prevendo o falatório, novamente, outro corte: Volta o órgão imponente, com Christina dizendo: “Desculpa, saiba o que quero/Desculpa, não sou virgem/Desculpa, não sou uma vagabunda/Não vou deixar que você me ponha pra baixo/Pense o que quiser”.

christina-aguilera-bg-stripped-9

Como era de se esperar, “Dirrty” recebeu críticas negativas pela superexposição sexual que julgaram desnecessária e oportuna para criar factóides. Por não ter sido bem compreendida, a fim de evitar o fracasso do lançamento do disco, a faixa “Beautiful” (Linda Perry) é lançada em sequência, dando à Christina a sua redenção pela mensagem positiva e de incentivo pela auto-estima. O vídeo-clipe produzido por Jonas Akerlund foi aclamado pelo público gay e transgênero por retratar a dureza de manter o ânimo frente às recusas sociais por ser contra os padrões normativos. A faixa também lhe rendeu o seu 3° Grammy Award na categoria “Melhor Pop Vocal Feminino”.

“Stripped” foi responsável por enterrar de vez o estilo pop-chiclete que a tornou famosa, a tirando definitivamente do rastro de Britney Spears. O maduro álbum possui influências fortes com a black music, mesclando gospel, hip-hop, rock e mostrou versatilidade e crescimento vocal de Christina, que fez colaborações frutíferas com Alicia Keys em “Impossible” e Linda Perry (ex-vocalista da banda 4 Non-Blondies), a revelando como boa compositora. “Stripped” contém letras biográficas, que exorcizam amargaruras com triunfo sobre a tristeza.

É possível inclusive notar referências a seus ídolos como Janet Jackson no discurso de “Underappreciated” se comparado a “What have you done for me lately” (vide “Control/1986”) ao não compreender o desinteresse do seu parceiro quando a relação cai na rotina, “Infatuation” por alimentar o estereótipo do amante latino engrossado por Madonna em “Spanish eyes” (vide “Like A Prayer”/1989) e a canção que acalenta a criança interior, afugentando fantasmas como observado em “The voice within'”, vai ao encontro de “Close My Eyes” da Mariah Carey (vide “Butterfly/1997”).

Christina entra em clima de catarse em “I’m Ok” ao finalmente poder falar sobre sua conturbada relação com o seu pai, na tentativa de encontrar paz na figura de sua mãe, que sobreviveu à violência doméstica. O disco se encerra com a esperançosa “Keep on singin’ my song”, com a cantora pontuando seus aprendizados e decisões que a farão permanecer na batalha contra as adversidades.

christina_stripped

No fim, “Stripped” serviu como um testemunho vivo (e sincero) de Christina, frente ao seu esforço em assumir o controle de sua vida, impondo limites e expressando suas opiniões sem se preocupar em agradar aos que estão à sua volta, mostrando o quanto evoluiu como artista e ser-humano. Passados 14 anos, o álbum permanece atualizado, se tornando uma referência para uma geração que ainda lida com velhos preconceitos que precisam ser diariamente derrubados.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *