EECUN – Minhas definições de academia foram denegridas


Nesse último final de semana (sex, sáb e dom) rolou o Encontro Nacional de Estudantes e Coletivos Universitários Negros (EECUN), uma iniciativa inestimável de estudantes e coletivos negros universitários que foi produzido com resistência e a dedicação a um projeto coletivo. O evento começou na última sexta, dia 13 de maio – dia do “almoço” grátis da Sinhá Isabel, “redentoura” da branquitude escravocrata #sqn -, mas o que se comemorou lá foi o dia dos Pretos Velhos e o momento único de um auditório federal ocupado por estudantes negros de todo o país. Foi até difícil  “fechar a cara” pra falar de racismo diante daquela multidão linda e escurecida que formou a cena histórica, ainda em 2016, que ilustra o texto.

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Pessoalmente, foi doloroso e extasiante perceber que mesmo tendo passado por duas universidades em 7 anos de graduação, jamais sequer cogitei a possibilidade de participar de uma atividade dentro da academia onde no público quase não se visse brancos. Só nesse semestre houve dois seminários na minha faculdade debatendo o tema racial e ambos os palestrantes e o público eram brancos. Então, presenciar toda aquela galera reunida para debater negritude e seus dilemas numa instituição de excelência da supremacia branca desencadeou todo tipo de emoções.

O prédio da área de saúde que sediou o Encontro também teve enorme significância, pois abriga um prédio onde negros entraram, e ainda entram, mais para servir ou para serem objetos de estudo que para serem sujeitos do próprio bem estar. Saber disso e ver aquela multidão reunida e compartilhando das dificuldades que ainda nos atormentam quando ocupamos esses espaços da academia foi uma concreta afronta ao silêncio simbólico e instrumentalização de vidas negras encrustados naquelas paredes.

Foi enriquecedor poder finalmente encontrar, ao vivo, tantas “vozes” conhecidas pelas redes sociais. Nesse aspecto, a palavra Encontro não poderia descrever melhor o que acontecia durante e entre as escurecedoras atividades. Foi uma grande reunião nacional marcada pela ancestralidade. Pois certamente todos que entraram naquele auditório lotado saíram de lá assegurados de que os obstáculos pelos quais passamos não são individuais, mas sim estruturais e endêmicos na nossa mítica “democracia racial”. Diversos foram os relatos de alunos da graduação e da pós que conviviam com a “clara” sensação de não serem bem-vindos entre a intelectualidade; e tolhidos de abordar temas próprios ao nosso povo em suas pesquisas.

Nessa primeira edição acabei sendo egoísta e não convidando todo mundo, mas na próxima farei questão de levar meu pai, que sempre ocupou esses locais somente na condição de exceção; de levar a minha mãe que ainda não identifica na universidade um lugar para pessoas como ela; o meu irmão para ele conhecer quem se debruce sobre a indústria da moda para reafirmar criticamente a negritude; e  a minha irmã para ela contribuir para o debate sobre cotas no ensino médio. Se tem algo a ser destacado e celebrado foi a desconstrução do mito de que a militância negra não abarca a todos.

Tal como nos quilombos, era de se admirar toda a diversidade do nosso povo: casais negros gays e lésbicos eram mais fáceis de se ver que nas festas LGBT “para todos” que costumava frequentar; os closes e tombamento das não-binárias no bandejão também foram assimilados rapidamente; assim como o respeito a identidade das pessoas trans estampava os crachás. Também não foi difícil perceber a excelente recepção das mães e pais que trouxeram seus (e nossos) pequenos; a nada complicada convivência de todos os mais diferentes fenotipos da negritude; o diálogo entre os diversos campos do conhecimento; e a fortificante sensação de estar entre os nossos. De não estar “fora do ninho” numa instituição, ao menos teoricamente, do povo.

Terminados os três dias, a impressão que ainda tenho é de que nada mais poderá ser como antes e que dali todos saímos mais confiantes em soluções mobilizadas. E que os desafios podem ser muitos. Contudo, sem sombra de dúvidas, tanto espiritual quanto intelectual e comunitariamente não andamos só. Não apenas por termos uns aos outros, mas por termos aprendido a nos ver uns nos outros nessa jornada de (re)construção um conhecimento que nos contemple e não nos ignore, nos trate como “recorte” ou nos resuma a estatísticas sem vida interna e indiferentes aos abalos provocados pelas estruturas racistas.

Posso ter descoberto só agora o sonho de uma universidade menos branca e eurocêntrica, mas serei eternamente grato aos produtores que proporcionaram a tantos pretos e pretas a experiência única que pudemos vivenciar nesse final de semana. Mais do que nunca tenho a certeza de que denegrir o meio acadêmico pode ser algo tão revolucionário quanto prazeroso. E que vontade não nos falta e nem amparo. Tanto da ancestralidade quanto teórica.

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