Nosso amor vai tombar com o seu ódio!

Nosso amor vai tombar com o seu ódio!

OPINIÃO. sf (lat opinione) 1 Maneira de opinar; modo de ver pessoal; parecer manifestado sobre certo assunto. 2 Asserção sem fundamento. 3 Juízo ou sentimento que se manifesta em assunto sujeito a deliberação. 4 Capricho, teimosia. * PRECONCEITO. sm (pre+conceito) 1 Conceito ou opinião formados antes de ter os conhecimentos adequados. 2 Opinião ou sentimento desfavorável, concebido antecipadamente ou independente de experiência ou razão. 3 Sociol Atitude emocionalmente condicionada, baseada em crença, opinião ou generalização, determinando simpatia ou antipatia para com indivíduos ou grupos. * ÓDIO. sm (lat odiu) 1 Rancor profundo e duradouro que se sente por alguém. 2 Aversão ou repugnância que se sente por alguém ou por alguma coisa. Antôn: amor, afeto.

DandoPintaSloganPor que odiamos o diferente? Essa talvez seja a pergunta mais importante da história da humanidade, uma vez que a onda de horrores despejada todos os dias nas redes sociais não é muito diferente das páginas sangrentas da Bíblia ou de relatos históricos anteriores a ela. Vida e morte, guerra e paz, felicidade e tristeza, certo e errado, o bem contra o mal… A norma e o desvio!

O pensamento humano é baseado na classificação. Em geral, ela é feita através da oposição de conceitos de forma binária, quase sempre seguindo para uma hierarquização entre “positivo” e “negativo”. É claro que isso funciona quando precisamos decidir entre pular de um penhasco ou descer aos poucos por uma trilha, mas quando pensamos sobre coisas mais complexas – como a vida em sociedade – é preciso considerar a diversidade como uma possibilidade. Entre o preto e o branco há (pelo menos) 50 tons de cinza.

No caso dos LGBT, o ódio funciona como a marca da separação. É fácil de entender que exista preconceito contra uma identidade social que é definida através da sexualidade, da prática do sexo, já que vivemos em uma sociedade moralista. Quando o assunto é identidade de gênero, também é possível compreender porque qualquer coisa diferente de “homem” e de “mulher” vira anomalia, uma vez que esses dois extremos foram apresentados como os únicos possíveis e justificáveis. O que acontece é que o ódio, a separação e o estigma são anteriores a isso. Elas são a própria ferramenta que permite qualquer interpretação errônea ou maldosa, porque através da definição desse “outro inimigo” é que os indivíduos – ou grupos de indivíduos – se colocam como “certos”, “ideais”, “normais”.

É preciso “malhar o judas”, massacrar, violentar. O preconceito, a negação de direitos e a violência precisam se repetir parar marcar quem são os inferiores, os indignos, e para mantê-los em seu devido lugar. Essa é a ordem social, mantida não apenas através dos assassinatos diários mas também quando pegam no pé da bichinha da escola, quando alguma coisa vira piada, quando um político ou uma celebridade abrem a boca publicamente para vomitar ódio travestido de opinião, como se “liberdade de expressão” fosse sinônimo de licença para ser escroto.

Ódio gera ódio. Agora está na moda problematizar até a reação do oprimido, afirmando que os movimentos negro, feminista e LGBT estão “muito raivosos” em meia dúzia de discussões do Facebook, como se a vida de quem sofre se resolvesse com florzinhas de “gratidão”. É, tem muita gente com raiva sim. Muita gente que não aguenta mais levar porrada e que agora encontra consolo em memes, em festas, em roupas e cabelos que lacram. Isso incomoda, é claro. Incomoda porque mostra que os atores não estão mais aceitando os papéis definidos e que o teatro do poder vai mudar de cena. Questionar estratégias é saudável e principalmente, necessário. Dizer que o oprimido está oprimindo através de música da Beyoncé e batom azul, é ilustrar o tão falado “mimimi” na tentativa de dizer “ei, volte pro seu lugar”.

As minorias sociais flutuam em um limbo de irrealidade concretizada. No Brasil, há mais mulheres do que homens e mais negros do brancos, e nem Deus sabe quantas cores o arco-íris entre hétero e homo teria, já que a sexualidade é uma espécie de caixa de Pandora sem tampa e sem fundo. Somos minorias apenas porque os conceitos e preconceitos querem assim, porque a violência marca os limites. Compartilhamos histórias de dor e de luta, resgatamos o passado, nos empoderamos, tombamos com tudo, refazemos do início, reconstruímos, desconstruímos… Tudo na esperança de que uma nova ordem seja coerente com a liberdade que a “maioria” gosta de dizer que defende, mas que na verdade abomina. Tudo por amor, até mesmo quando é amor à sacanagem. Por que não?

O mais frustrante é isso. Assistir tanta gente defender o ódio e dizer que faz isso por amor, seja à religião, aos costumes ou à “família”. Como se a nossa vida fosse a mesma de antes, como se os costumes não mudassem, como se a história não estivesse se desenrolando na novela dos nossos dias. E quando o capítulo é o da sexualidade, o que interessa é a forma de amar. Não por uma beatificação do amor romântico, dos laços afetivos, ou em detrimento do desejo como alguma coisa impura. Amor por amor. Mais amor por favor, como se picha em paredes por aí. Amor para curar as feridas e para deixar os qualquercoisafóbicos loucos de raiva.

Podem latir à vontade. É só mais um prova de que vocês não podem com o nosso amor.

Permita-se. Seja livre. Seja fabuloso.

Leia Dando Pinta todas as quartas, aqui em Os Entendidos, e não esqueça de curtir a nossa página.

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Escrito por:

Fabricio Longo

Ator e cientista social, criador e editor-chefe do site. Apaixonado por antropologia, cinema e Coca-Cola, é a mente problematizadora por trás da coluna Dando Pinta. Morre de orgulho do legado desse espaço, e segue tentando não ser soterrado por uma montanha de bonecas Barbie e quinquilharias da Mulher Maravilha! Perguntas, críticas e cantadas no fabricio@osentendidos.com.br.

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